Diálogos da Fé

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Diálogos da Fé

Sobre a imperativa tarefa de enfrentar a cultura de ódio e os extremismos

A criação de um grupo de trabalho para o enfrentamento dos extremismos e da cultura do ódio no nosso país, pelo Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, é mais do que bem-vindo.

No comando do Ministério dos Direitos Humanos, Silvio Almeida assume a missão de combater o discurso de ódio. Foto: José Cruz/Agência Brasil
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Parece inacreditável que, em pleno ano de 2023, veríamos no Brasil largas expressões públicas de intolerância e ódio: conflitos por conta de diferenças de opinião e de divergências políticas, racismos, machismos, feminicídios, xenofobia, homofobia, defesa do livre uso de armas pela população. São correntes também os poderes paralelos exploradores de parcelas da população como as milícias (nome popularizado para máfia ou cangaço urbano) e as execuções sumárias por matadores de aluguel, justiceiros anônimos e por agentes do Estado, que afetam fundamentalmente pessoas empobrecidas e negras. 

Passam a ser frequentes também atos de violência contra quem é considerado, por alguns grupos, como fora do “padrão”: pessoas negras, moradoras de periferias e favelas; povos indígenas; terreiros de Candomblé e Umbanda; cidadãos de outros povos, culturas e religiões; expressões de arte e artistas; indivíduos que portam bandeiras ou se vestem com determinada cor; pessoas LGBT+. São faces sombrias de uma cultura de ódio que leva a ações extremas.

Isto acontece no Brasil, muitas vezes, sob a capa de “liberdade de expressão”, a ponto de emergirem personalidades do cenário político e cultural como representantes de quem defende estas expressões abertas de ódio. São fartamente vivenciadas também divisões entre famílias, círculos de amigos e nas igrejas e comunidades religiosas por conta da ampla assimilação dessa cultura de violência. 

Neste quadro, as mídias digitais desempenham um papel destacado. Muitos que não têm uma arma de fogo nas mãos acabam usando a tecnologia para atacar, ofender, agredir. Por trás de uma tela, pessoas e grupos podem destruir outros. A facilidade do acesso às plataformas digitais se tornou livre acesso para articulações extremistas, em torno do ódio. Até mesmo grupos nazistas estão ganhando força no país! 

Uma vez que a circulação de conteúdo digital é fonte de muito lucro para as plataformas de mídia, há consciente indiferença por parte delas com o que se relaciona ao fortalecimento da cultura de ódio e do extremismo.  O mesmo se dá com as grandes empresas de notícias que contribuem com este processo dando voz a extremistas, promovendo acirramento de tensões em polarizações partidárias e propagando falsas simetrias para comprometer desafetos políticos.  

Entre as consequências, o país chegou ao ponto de assistir, em janeiro passado, à invasão e à depredação de prédios da capital federal, com o envolvimento de milhares de pessoas, estimuladas por discursos e convocações de personalidades e instituições políticas, religiosas e de outras expressões sociais. Esta ação grave foi marcada por vandalismo e gestos de extrema violência.

Neste quadro, além de pessoas e grupos feridos emocional e fisicamente, vemos a descrença nas instituições, o rebaixamento da autoestima social, a desqualificação das religiões (resultante das desconfianças em torno da aliança de certas lideranças a grupos políticos), dos governantes e de parlamentares como representantes do povo. 

Desta forma, o objetivo é estudar e refletir sobre esta realidade que aflige o país e propor ações governamentais, políticas públicas, para o enfrentamento desta questão tão séria. O GT, formado por pessoas que atuarão de forma voluntária, sem remuneração, teve o prazo dos seus trabalhos iniciado a partir de 1º de março, com a duração de seis meses.

O fato de o MDHC propor este grupo significa muito. Afinal, a cultura de ódio e os extremismos políticos ferem vários direitos cidadãos: o direito de ser e de existir com liberdade e segurança, que desafia a coexistência pacífica em meio às diferenças; à liberdade de opinião e de expressão, que deve ser garantido, mas não significa um direito de ofender e incitar violência; de não haver ataque à honra e à reputação; à liberdade de pensamento, de consciência e de religião, entre outros.

Tive a honra de ter sido nomeada integrante deste grupo, ao lado de 23 pesquisadores e pesquisadoras, profissionais da comunicação e ativistas de movimentos sociais. Entre estes, outras lideranças que atuam no contexto das religiões: a pastora luterana Lusmarina Garcia, o teólogo batista Ronilso Pacheco e o babalorixá Rodney William. A nomeação vem em reconhecimento ao trabalho que tenho desenvolvido no enfrentamento da desinformação, como jornalista e pesquisadora, e, também, como evangélica, ligada à Igreja Metodista. 

Aqui vale pontuar algo importante: devo muito à formação evangélica metodista que recebi desde a adolescência. Muito do que sou e da visão de mundo que construí se devem à educação cristã, com base na leitura da Bíblia relacionada à vida. Também à compreensão de que amar a Deus é amar o mundo e tudo o que nele existe. Esta visão se ampliou com o meu engajamento em movimentos ecumênicos, experiência marcante da juventude até o presente. Nele aprendi que ser cristã é ser promotora da paz com justiça, e que nesta pauta estão o respeito, o diálogo e a valorização das diferenças. 

É esta formação evangélica que levarei comigo, junto com as outras experiências acadêmicas e profissionais que adquiri ao longo da vida, para contribuir no enfrentamento das diferentes expressões de extremismos e da cultura do ódio que tanto mal fazem ao Brasil.

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