Neopentecostais são ‘peões no xadrez da nova direita’, diz especialista

O professor e brasilianista Georg Wink ressalta, no entanto, que católicos influenciam as elites do Brasil

Créditos: Reprodução

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O professor Georg Wink, brasilianista e diretor de Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, deu uma conferência nessa segunda-feira 17 sobre o retorno do fundamentalismo religioso no Brasil. O especialista fala de um fenômeno político-religioso cíclico, apoiado agora pela “nova direita” e disseminado por nomes como Olavo de Carvalho, mas que não deve ser menosprezado.

 

 

Em sua intervenção intitulada “A reação conservadora no Brasil pela ressurreição do fundamentalismo católico”, apresentada virtualmente em um evento organizado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, Wink fala sobre os principais momentos desse conservadorismo religioso no país e, principalmente, da maneira como a direita apoia atualmente esses católicos conservadores.

Em entrevista à RFI Brasil, o especialista, que termina nesse momento um livro sobre o assunto, lembra que os grupos fundamentalistas católicos não são novos. Eles seguem os passos da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, entidade criada nos anos 1960 por Plínio Correia de Oliveira, e que se baseava na defesa do catolicismo tradicional, em oposição ao catolicismo com engajamento social.

Wink ressalta que os novos conservadores também não se distinguem muito de seus pares no passado. “A direita saiu do armário, mas não vejo muita novidade. A ‘nova direita’ é baseada no mesmo legado conservador, como nos últimos 100 anos”, resume.

No entanto, o professor explica que ao estudarem os grupos religiosos e os fenômenos sociais e políticos anexos no Brasil, os cientistas se concentram essencialmente nos pentecostais, cada vez mais numerosos no país, deixando de lado os católicos. “Eu acho que isso pode levar para um caminho errado, pois existe um núcleo de católicos conservadores que mantém e preserva o legado de ideias “tvpistas” (de Tradição, Família e Propriedade)”, afirma.

Ele dá como exemplo a Liga Cristo Rei, presente no Rio de Janeiro, mas com institutos em todo o território nacional.“A presença é discreta, porque está na natureza deles não aparecer politicamente e não fundar um partido, e sim de influenciar discretamente as elites políticas e econômicas no país”, detalha.

“Eu diria que os neopentecostais são um pouco os peões no jogo de xadrez da nova direita. Eles proporcionam o voto, o eleitorado, e fazem o trabalho de campanha. Mas não têm uma visão para o país”, sentencia. Em comparação, “os conservadores católicos, ou tradicionalistas, têm uma visão muito clara sobre o futuro do Brasil e de onde querem chegar: em um país baseado numa ordem natural, que seria uma ‘lei natural’, o neotomismo, e, dessa forma, preservar um legado colonial”.

Olavo de Carvalho: o dom de tornar sedutoras velhas ideias

Para o brasilianista, um personagem que não deve ser subestimado nessa reflexão é o do ensaísta Olavo de Carvalho, que alguns apresentam como guru direitista, filósofo, ou até como influenciador digital. “Ele é tudo isso e provavelmente muito mais. Seu papel é central, pois ele foi o grande multiplicador de uma tradição que podemos chamar de integrista integralista”, vertentes que datam dos anos 1920 e 1930 e que foram recicladas.

“A penetração das ideias que podemos chamar de ‘olavismos’, que aliás não são próprias dele, já que ele também bebe diretamente das fontes do tomismo, estão omnipresentes entre a nova direita”, resume o professor. “Ele engenhosamente encontrou meios para disseminar, de uma forma nova, fresca, sedutora e interessante essas velhas ideias. Ele conseguiu tornar chique essas ideias tomistas velhas”, conclui

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