Diálogos da Fé

Pedofilia e conservadorismo entre os muros da Igreja Católica

O que representa de fato a renúncia coletiva dos bispos chilenos por causa dos abusos cometidos por clérigos no país?

Pedófilo, Karadima era chamado de
Pedófilo, Karadima era chamado de "santinho"

Na última sexta feira 18, o mundo se surpreendeu com a inédita renúncia coletiva de 34 bispos chilenos ao fim do encontro destes com o papa Francisco, em Roma. O encontro tinha como intuito cobrar explicações e repreender os bispos pela negligência em relação aos abusos “de poder e sexuais” por parte de sacerdotes chilenos contra menores.

Em sua visita ao Chile em janeiro, Francisco havia se recusado a receber um grupo de vítimas que afirmava ter provas dos abusos.

As vítimas acusavam o bispo Juan de Barros de conhecimento e negligência frente aos abusos cometidos pelo padre Fernando Karadima durante décadas. Convicto da inocência do bispo, Francisco o defendeu veemente, chegando a negar por duas vezes seu pedido de renúncia.

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Agora de posse das informações de seus enviados ao Chile para apurar a questão, Francisco reconheceu ter incorrido em “graves erros de avaliação e percepção da situação”, que, de acordo com sua declaração, se deveu a falta de “informações verdadeiras e equilibrada.” Por fim, pediu perdão às vítimas, afirmando dor e vergonha.

 Na carta em que apresentaram a renúncia coletiva, os bispos também imploram às vítimas “por seu perdão e pela sua ajuda para seguir avançando para a cura e cicatrização de feridas” e afirmam que “sabendo que estes dias de honesto diálogo foram um marco dentro de um processo de mudança profunda conduzida pelo papa Francisco e em comunhão com ele, queremos restabelecer justiça e contribuir para a reparação do prejuízo causado.” 

A repreensão de Francisco e seu pedido de desculpas, sem dúvida, é um gesto louvável e traz o mínimo de conforto às vítimas que, a esta altura, apenas queriam ter seu sofrimento acolhido e sua voz legitimada. Mas passa ao largo de promover profundas mudanças para romper a fortaleza que protege sacerdotes pedófilos tanto quanto favorece sua prática.

 Após mais de quatro décadas de silêncio, ao mesmo tempo em que é recebida com satisfação pelas vítimas, esta renúncia levanta questionamentos sobre seus propósitos e desdobramentos para o efetivo enfrentamento da questão que está longe de ser uma situação isolada.

O próprio Vaticano sofreu denúncias de negligência por parte da alta cúpula Romana em relação aos abusos cometidos por sacerdotes durante o pontificado de Bento XVI. Os escândalos geraram ao antecessor de Francisco uma grave crise de credibilidade aliada ao que ficou conhecido como escândalo Vatileaks.

 Pelo mundo todo estouram denúncias de pedofilia a envolver sacerdotes católicos. A resposta da Igreja tem sido a mesma em todos os lugares: a morosidade e o secretismo de processos eclesiásticos quando são instaurados. Muitas vezes as denúncias sequer são consideradas.

Casos emblemáticos que chegaram a virar filmes, como o de Karadima no Chile (El Bosque de Karadima) e o da Diocese de Boston nos EUA (Spotlight), são mostras de que as estruturas eclesiásticas formadas por relações de poder de dominação e julgo, sob a afirmação da santidade da função sacerdotal por excelência, e avessa a qualquer crítica ou transformação protegem e favorecem práticas abomináveis como a pedofilia.

Em 2010, quando os crimes cometidos por Karadima vieram à tona, o sacerdote contou não só com a proteção do bispo Juan de Barros, hoje reconhecido como cônscio dos abusos, mas com o apoio efusivo dos católicos conservadores chilenos. Próximos ao padre e às suas concepções conservadoras, os paroquianos se recusaram a aceitar suas práticas violentas, e saindo em sua defesa, deslegitimando e depreciando, por outra parte, as vítimas.

Francisco se comporta melhor do que Ratzinger (Foto: Wikimedia)

Na época em que a ditadura de Augusto Pinochet assolava o país, Francisco Karadima dirigia a pequena, mas rica, paróquia de El Bosque, espaço frequentado por uma elite católica. Era, então, um dos padres mais respeitados do país, chegando ao ponto de ser reconhecido pela alcunha de “Santo” ou “Santinho” por seus paroquianos.

Tal qual o “santo do pau oco” barroco, que dentro não era preenchido do mesmo material que se mostrava em aparência e tinha como função principal armazenar o dinheiro imundo da promíscua relação com a elite conservadora.

Representava o bastião de moral e dos bons costumes cristãos mantendo a paróquia protegida do “perigo comunista”. Entre os muros de El Bosque, os paroquianos encontravam conforto espiritual para suas mazelas recolhidos em silêncio complacente frente às torturas, prisões arbitrárias e execuções que se davam fora dali.

Por sua vez, sustentavam financeiramente a paróquia que contava com muitas propriedades, inclusive um seminário onde Karadima selecionava e orientava jovens católicos para vocação eclesiástica. Também sustentavam passeios luxuosos do padre sempre acompanhado de um dos jovens vocacionados que abusava.

Os paroquianos sentiam-se orgulhosos de contribuir para a formação de bons padres, bem distantes do comunismo reconhecido como perigo à moral e à crença católica. Na mesma paróquia onde abusou por décadas de menores, Karadima formou mais de 50 sacerdotes, dentre os quais 5 vieram a se tornar bispos.

 Nem todos sofriam os abusos, mas eram cientes de que ocorriam. Como um predador ardiloso, escolhia sua vítimas dentre aquelas que apresentavam maior fragilidade emocional, devido a dramas familiares e pessoais, com mais propensão a vergonha e, portanto, a calarem-se. O domínio que ele exercia sobre suas vítimas era tamanho que algumas delas continuaram subjugadas a seus abusos, mesmo após atingirem a maioridade.

Protegido pela credibilidade e autoridade de sua função sacerdotal, Karadima sentia-se livre para praticar os abusos.

De fato, o rompimento do ciclo de violência psicológica, emocional e sexual a que estavam submetidos, atrelado a sua crença e o sentimento de culpa, é um processo lento e profundo.

Finalmente, em 2002, vítimas de Karadima romperam o silêncio e foram a público denunciar os abusos sofridos. Enfrentaram ainda os rechaços de amigos, familiares e católicos fervorosos que viam na denúncia uma acusação à própria instituição.

 Karadima foi absolvido pela justiça comum por causa da prescrição de seus crimes. O veredicto eclesiástico do Vaticano, embora tenha confirmado os abusos, não o destituiu do sacerdócio, o sentenciou com oração penitente, o que lhe permitiu continuar a viver sob a proteção dos muros eclesiásticos.

 Por trás da renúncia dos bispos chilenos, portanto, encontram-se muitas camadas que precisam ser desveladas. Esta história sórdida de práticas e acobertamentos de anos de violência é uma delas, mas também o corporativismo eclesial que protegeu por anos padres pedófilos dos quais Karadima é o maior, mas não único representante.

O mesmo corporativismo expresso na renúncia coletiva, que de alguma maneira continua a proteger uns aos outros, deixando o papa Francisco com a difícil decisão sobre seus destinos, mas sobre os rumos que dará a questão de maneira abrangente a partir de agora.

 Francisco aponta para um caminho de transformação profunda, mas será preciso ir de fato no profundo das estruturas e relações de poder eclesiásticos, submetendo-as a uma rigorosa e radicais mudanças.

Pedidos de desculpas e orações não são suficientes. O que fará para que estas práticas sejam de vez sanadas dentro do ambiente eclesiástico é que está em questão. Estar ciente e disposto a enfrentar o conservadorismo leniente com as violências em nome da defesa da tradição e credibilidade institucional católica é uma delas.

Isso porque a defesa da credibilidade institucional por si só acaba se traduzindo no silenciamento de evidências que expõe a contradição de seu discurso moral e que trazem para o nível da humanidade aquilo que a Igreja quer transformar em sagrado, intocável… A saber, seu poder e suas estruturas.

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