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Os mercadores espíritas da fé

Diálogos da Fé

Em um convite recebido via WhatsApp, a imagem de Cristo em um céu cintilante contrastava com o objetivo da postagem. No primeiro momento, pensei se tratar de mais uma daquelas mensagens de autoajuda que nossos amigos encaminham desejando bom dia. 

Escrito com letras douradas e esteticamente bonito – deve ter sido feito com o auxílio de algum profissional de marketing –, anunciava um congresso espírita em um resort sofisticado, com a presença de várias celebridades espíritas famosas.

Para participar, o interessado teria que desembolsar seis mil reais: uma entrada de dois mil e mais dez parcelas de 400 reais. Para quem quisesse dividir em mais parcelas, prometia-se pequenos juros. 

No segundo convite, esse um pouco mais elaborado, por se tratar de um vídeo, imagens de indivíduos em desespero, verificando dívidas, rasgando contas, chorando, enquanto uma música incidental tocava no fundo.

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“Descubra como ter uma vida próspera”, prometia o workshop, que contava, assim como o anterior, com figurões espíritas. 

Esse também era pago e muito bem pago. Fui lembrando das palestras cobradas, das cirurgias espirituais que exigem do enfermo a compra de remédios fitoterápicos (fabricados por eles também), das terapias de vidas passadas vendidas em nome do espiritismo (é sempre bom lembrar que isso não tem absolutamente nada a ver nem com o espiritismo nem com a psicologia, podendo ser considerada falta ética grave se o profissional que se dedica a essa prática for um psicólogo, registrado no conselho da categoria). 

Tudo isso anuncia um pouco do que está se tornando o movimento espírita e como ele vem se “adaptando” muito bem às exigências do mercado, capitalizando a fé, vendendo o sagrado. 

Na minha adolescência, como dirigente de mocidade espírita (equivalente ao grupo de primeira comunhão católica ou células de juventudes protestantes), vendíamos espetinhos de chocolate a fim de garantir o fim de semana em um sítio. Naquela época, recebíamos duras críticas da dirigente por estarmos comercializando no centro espírita. Talvez ela não tivesse ideia do que o movimento se tornaria.

Guardadas todas as ressalvas a Chico Xavier e reconhecendo seu brilhante trabalho de assistência social e espiritual, lembrei-me de um episódio ouvido ainda criança que relatava a surpresa de Chico ao ganhar um tapete, tecido pelas próprias mãos que o entregava.

 Como sabia que era caro e para evitar que doasse ou trocasse por comida para seus beneficiados, sugeriu que as próprias senhoras “donas do presente” guardassem para ele.

Outra história, geralmente partilhada ao mesmo tempo com a primeira, dizia que Chico, ao receber um carro 0 quilômetro, pediu a um comerciante local que assistia a cena que trocasse o automóvel por macarrão. Em seguida, distribuiu entre as famílias empobrecidas de sua comunidade.

Desprendido, sempre transferia para instituições ou necessitados os presentes. Autor de 412 livros psicografados, Chico teria morrido milionário se cobrasse por eles. Nunca reivindicou absolutamente nada, ao contrário, doava os direitos autorais a instituições espíritas, ressaltando se tratar ele de um mero intermediário dos verdadeiros autores, os espíritos desencarnados. 

Para nós, espíritas, a recomendação de Jesus “Dai de graça o que de graça recebestes” ( Mateus 10:8) foi sistematicamente defendida por Allan Kardec e expressa em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXVI: “Quem, pois, deseje comunicações sérias deve, antes de tudo, pedi-las seriamente e, em seguida, inteirar-se da natureza das simpatias do médium com os seres do mundo espiritual. Ora, a primeira condição para se granjear a benevolência dos bons Espíritos é a humildade, o devotamento, a abnegação, o mais absoluto desinteresse moral e material”.

O espiritismo não crê na teologia da prosperidade ou no evangelho da prosperidade, doutrina cristã da década de 1980 que prega a benção financeira como o desejo de Deus para os cristãos e que diz que a fé, o discurso positivo e as doações para as comunidades religiosas (ou seus representantes) irão sempre aumentar a riqueza material de quem doou.

Geralmente são esses mesmos palestrantes famosos e que ganham dinheiro com o espiritismo que criticam programas de redução da pobreza, como o Bolsa Família ou as cotas nas universidades públicas para negros, indígenas e quilombolas.

São “meritocratas” e adeptos de uma “moral estranha”, aquela que Jesus condenou e, se voltasse, viraria novamente as mesas dos vendilhões modernos dos templos.

O espiritismo não possui nenhum tipo de sacerdote nem hierarquia formal. Tem seus fundamentos estabelecidos em cinco obras chamadas de Pentateuco, todas codificadas por Allan Kardec com o apoio dos espíritos superiores e que tocam em questões importantes da humanidade.

Devido à profundidade que o espiritismo tomou, Kardec o definiu como uma doutrina com aspecto tríplice: filosófico, científico e religioso.

O espiritismo não é nem pretende ser o detentor das verdades absolutas. Sigamos a doutrina dos espíritos e não a doutrina dos espíritas.

A partir dessa ideia, cada qual responde pelas suas atitudes, prestando conta, com sua própria consciência, pelo bem ou mal, pelos excessos que praticaram.

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