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Os espíritas na política e a instrumentalização da fé

Diálogos da Fé

“O que o (ser humano) semear, isso mesmo colherá” (Gálatas, 6:7)

Em tempos de polarização, é preciso tomar partido, descer do muro, sair do armário e se posicionar contra todo tipo de intolerância e violência. Seja contra quem for.

Mas não podemos confundir, em hipótese alguma, “a reação do oprimido com a violência do opressor”, como afirmou o defensor dos direitos dos afro-americanos, Malcom X.

Como repetia Allan Kardec, em obras póstumas: “Liberdade, igualdade, fraternidade. Estas três palavras constituem o programa de toda uma ordem social que realizaria o mais absoluto progresso da humanidade, se os princípios que elas exprimem pudessem receber integral aplicação”.

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Há alguns dias entrei em um grupo de Whatsapp intitulado “Espíritas na política” a convite de alguns amigos. Consegui permanecer por cinco dias até ser expulso. São cerca de cem integrantes, com idades variadas, mas a maioria acima de 50 anos e mulheres, embora sejam os homens os que mais participam e quase a totalidade do grupo declara-se “apolítico/a”.

Com o pretexto de debater candidaturas espíritas para cargos políticos, portanto partidários, o grupo é politicamente heterogêneo: tem de apoiadores da ditadura, armamentistas, militaristas, conservadores até – em menor quantidade, pois costumam ser expulsos – progressistas e gente de esquerda, como era meu caso.

Lá identifiquei três tipos de espíritas: os de esquerda e/ou progressistas (didaticamente, e às vezes contundentemente, contrários a qualquer postura ou candidatos que fomentem violência, ataquem os direitos humanos e desrespeitem a democracia), os de centro – e infelizmente não é um trocadilho – (mais neutros e pendendo, quase que sempre, para a defesa de ideias conservadoras e reacionárias) e os de extrema-direita (esses últimos, impossíveis de estabelecer qualquer tipo de debate, pois não há abertura, respeito, reciprocidade e afeto).

São os representantes dessa última categoria que, diante de qualquer debate e na impossibilidade de argumentação, atacam com frases como: “Você não é espírita”, “você não sabe ler”, “temos que descer até onde esses ignorantes estão”.

No auge de uma discussão, implicaram até com a imagem de um companheiro que usa, como foto de perfil, a obra “In Voluptas Mors” do pintor surrealista Salvador Dalí com o fotógrafo Philippe Halsman. O caso chamou a atenção de um dos coordenadores do grupo que, embora também se declare apolítico, persegue, intimida, constrange e tenta silenciar aqueles com pensamentos mais progressistas.

Vivemos dias tristes para a frágil democracia brasileira e isso, naturalmente, tem refletido nas relações humanas. A facada em um candidato à presidência da República – e aqui não entrarei no mérito da legitimidade do caso – escancara as rupturas cívicas, éticas e morais que estamos vivendo.

Mostra-nos como precisamos nos posicionar duramente contra qualquer manifestação de ódio, violência e intolerância, mesmo que o alvo sejam aqueles que retroalimentam esses sentimentos. Ou será que acreditaram em algum momento que isso tudo não se voltaria contra eles mesmos?

Lei do retorno, das consequências, da causa e efeito – a causa é primária, o efeito, secundário – o que Isaac Newton chamou de “ação e reação”: “Uma força não pode exercer uma ação sem, no mesmo instante, gerar uma reação igual e diretamente oposta”, ou “toda causa gera um efeito correspondente”.

Lucas, o apóstolo, diz que tudo que recebemos vem a  partir do nosso ato de dar: “Dai e dar-se-vos-á” (6:38).

Dilma Rousseff teve um câncer, eles celebraram. Dilma foi golpeada, eles celebraram. Marisa Letícia, esposa do presidente Lula, teve um AVC, vindo a óbito em seguida, eles celebraram. A vereadora Marielle Franco foi brutalmente executada, eles celebraram. Lula foi preso, eles celebraram.

Acontece que nós não somos eles e não podemos nos alegrar com a barbárie e com o sofrimento, sob o risco da espiral do ódio, um dia, nos atacar também. Foi o que aconteceu com o candidato à presidência da República, que inclusive, ainda hospitalizado, fez um gesto com as mãos como se empunhasse uma arma de fogo, demonstrando não ter tirado nenhuma aprendizagem suficientemente boa a partir do episódio que o envolveu.

A política pode ser desenvolvida por gente religiosa e não religiosa. Há princípios religiosos que podem balizar a vida pública, mas aos religiosos cabe sempre lembrar que o Estado brasileiro é laico e que, portanto, não se pode desenvolver políticas públicas a partir de determinadas crenças ou preceitos de fé, sob o risco de deixar de fora aqueles que não comungam das mesmas convicções.

Não é novidade a atuação de espíritas na política. Bezerra de Menezes fez isso de maneira brilhante. Liberal e de ideias abolicionistas, Bezerra não foi o “bom velhinho”, doce, que alguns espíritas insistem apresentar ou representar. Enérgico, dono de uma fabulosa oratória, foi contemporâneo de Joaquim Nabuco, Dom Pedro II e Rui Barbosa.

Ainda que o espiritismo não faça nenhuma acepção de indivíduos ou pregue qualquer tipo de discriminação – aliás, nenhuma religião faz, são as suas interpretações, feitas por gente, que gera exclusão e preconceito –, muitos trabalhadores e frequentadores de casas espíritas ainda são rotulados e excluídos por suas ideologias políticas, por sua condição socioeconômica e por questões de sexualidade e/ou gênero.

Percebam que temos muito trabalho pela frente, dentro e fora do movimento espírita: disputando narrativas, denunciando abusos cometidos por representantes espíritas, eliminando velhos paradigmas, construindo pontes em vez de muros, ensinando, didaticamente, conceitos de bem viver e justiça social e, sobretudo, resgatando os preceitos de amor e diálogo de Kardec, esquecidos pelos pseudo-médiuns midiáticos, pelos dirigentes fanáticos e pelos expositores ensimesmados. 

Como disse o pastor Martin Luther King, no livro “Os Grandes Líderes”: “Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não o fazer. Não posso ficar no meio de todas essas maldades sem tomar uma atitude”.

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