Os 10 ativistas LGBTs religiosos que vão ajudar você a fortalecer a fé

Engana-se quem acredita que militância e religião não se misturam. Muito pelo contrário, elas podem viver harmonicamente

Os 10 ativistas LGBTs religiosos que vão ajudar você a fortalecer a fé

Diálogos da Fé

O mês de junho é um mês de celebração do orgulho e resistência da população LGBTQIA+ no mundo todo. Isso por que em 28 de junho relembramos a Rebelião de Stonewall (1969), um dia em que travestis, mulheres e homens transexuais, lésbicas, gays, bissexuais, se levantaram contra a opressão cotidianamente imposta por um Estado opressor.

Como durante muito tempo essa história foi contada por LGBTs brancos, esconderam – propositalmente ou não – a identidade de uma das principais ativistas dessa revolta, Marsha P. Johnson. Marsha foi uma mulher transgênero negra que trabalhou como profissional do sexo e drag queen durante boa parte de sua vida adulta. De criação cristã, religião que a acompanhou durante toda vida, ela também foi ativista em várias organizações, como a Sweet Transvestite Action Revolutionaries (STAR) [“Revolucionárias da Doce Ação Travesti”, em tradução livre], que atuava tirando travestias, transgêneres e transexuais das ruas.

O texto dessa semana foi inspirado por essa história de resistência da Marsha – precisamos celebrar a memória daquelas que nos antecederam e contribuíram para que estivéssemos aqui – e traz dez ativistas LGBTQIA+ religiosos/as que, a partir de suas comunidades de fé, vem ajudando a construir um mundo mais inclusivo, amoroso, libertário e dialógico:

ALEXYA SALVADOR

“O Brasil é o país que mais mata travestis, homens e mulheres trans no mundo. Ser ordenada clériga é a confirmação de que pessoas iguais a mim podem estar em todos os espaços da sociedade e da religião”.

Alexya foi a primeira mulher trans a ser nomeada reverenda na América Latina. Natural de Mairiporã, aos dezoito anos fundou um abrigo para pessoas em situação de rua. Formada em literatura inglesa e portuguesa, educação e teologia, é professora da rede pública de ensino e também vice-presidenta da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (ABRAFH), associação que faz campanha pelos direitos e pela compreensão das famílias homotransafetivas. Ela foi a primeira travesti brasileira a adotar crianças. Duas de suas filhas adotivas são crianças trans. Em 2018, concorreu às eleições parlamentares pelo PSOL como vice de Sâmia Bonfim. Suas campanhas centraram-se nos direitos LGBTQIA+, na educação, na adoção e na luta contra o racismo.

ANA ESTER

“É preciso libertar Deus das imagens que mantêm os nossos desejos enclausurados. Uma discussão radical (e indecente) sobre dissidência sexual e de gênero, no contexto religioso, não somente possibilita que nós saiamos dos nossos armários, mas também o próprio Sagrado”.

Ana Ester é jornalista, teóloga, mestra e doutora em Ciências da Religião. É ministra ordenada pelas Igrejas da Comunidade Metropolitana, membro da Travessia Comunidade Espiritual ICM e da Iglesia Antigua de Las Americas. Atua como colunista sobre a temática LGBTIA+ para a Revista Senso. Além disso, é sócia da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, ABEH, da Global Interfaith Network, GIN, e da American Academy of Religion, AAR.

CRIS SERRA

“Nós, pessoas LGBTQIA+, somos tocadas pelo sagrado e chamadas a viver essa experiência em plenitude, qualquer que seja a forma que ela assuma em nossas vidas, desde os nossos corpos, as nossas vidas, os nossos encontros e relações. Que a dádiva da diversidade possa ser celebrada como expressão da Amorosa e Inesgotável Criatividade Divina!”

Cris é psicóloga, mestre e doutoranda em Saúde Coletiva, pesquisando gênero e religião. É colaboradora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM/IMS/UERJ) e do Eixo Psicologia e Laicidade do CRP-RJ. Integra as equipes de coordenação da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT e da Global Network of Rainbow Catholics, além de ser ativista de Católicas pelo Direito de Decidir.

FÁBIO MARIANO

“O racismo atravessa a todos nós e nossas relações, e ainda que pessoas brancas não se declarem racistas ou não sejam signatárias do pacto da branquitude, elas se beneficiam dessa estrutura, como bem nos ensinou Sueli Carneiro”.

Fábio é candomblecista, advogado, doutor em ciências sociais, pesquisador do grupo Inanna (Núcleo de Pesquisa sobre sexualidades, diferença, gênero e pós-colonial) e professor dos cursos de extensão Masculinidades Contemporâneas e O Estado e o Corpo, um dos precursores dos estudos sobre heteroterrorismo como norma. Pai Fábio é um humanista comprometido com um projeto de sociedade mais solidária, utilizando-se do poder do diálogo como ferramenta para promover a empatia entre as pessoas, construindo pontes ao invés de muros. É também o co-autor do livro “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris”, que trata das discussões atuais sobre gêneros, corpos e sexualidades. Atuou em consultoria junto à Prefeitura de São Paulo no projeto Transcidadania, além de desenvolver trabalhos sociais em várias comunidades de São Paulo.

JACQUELINE CHANEL

“Para nós é muito importante ter essa igreja pensada para o público transsexual e travesti porque isso significa um novo espaço de acolhimento. Eu sou trans e quero que meu povo se sinta acolhido, respeitado e amado. Mas qualquer um é bem-vindo, qualquer um pode frequentar.”

Jacque Chanel, é uma mulher transexual de 56 anos e como ela mesmo afirma e as estatísticas apontam, contrariou a estatística que mostra que a expectativa de vida de uma transexual é de 35 anos, de acordo com a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Ordenada pastora, é também a fundadora da Séforas, primeira igreja trans do Brasil, localizada no centro da cidade de São Paulo. A vontade de ajudar LGBTQIA+ nasceu a partir de sua própria história. Ela foi abandonada pelos pais justamente na Igreja do Evangelho Quadrangular, em Belém (PA), onde nasceu. E depois da transição de gênero, passou a sentir que não era mais bem-vinda nas igrejas que frequentava. O Séforas era um grupo de louvor e Jacque tem transformado sua fé em ação. Nos encontros, ao perceber que a maioria das travestis e transexuais que chegavam para ouvir a palavra de Deus estava com fome, ela começou a tirar dinheiro do próprio bolso para bancar os jantares que dava toda segunda antes da pandemia.

JEAN TETSUJI

“O Supremo Nirvana está para além de identidades de gênero e orientações sexuais, logo, está correto ser como é! Vamos celebrar a diversidade, não a adversidade!”

Reverendo Jean é um Ministro do Dharma, ordem Otani da escola Jodo Shin Terra Pura. Atua no Templo Higashi Honganji de São Paulo, no Instituto Missionário e na Oficina Kumarajiva de Traduções. Foi um dos cofundadores da Rainbow Sangha, um grupo budista de escolas tradicionais voltado especificamente ao público LGBTQIA+ e formado pela integração de praticantes das tradições como Shin, Zen, Jodo, Nichiren, Vajra e Theravada. O objetivo do grupo é acolher todo e qualquer indivíduo LGBTQIA+, mas também heterossexuais e cis que queiram aprender e conviver com a diversidade sexual e de gênero, construindo um mundo melhor, mais inclusivo com empatia, compaixão, respeito, tolerância e serenidade. Jean é também integrante das Lideranças Interreligiosas Koinonia e do Fórum Interreligioso da Secretaria de Justiça e Cidadania de SP.

LAINA CRISÓSTOMO

“Não dá para gente achar que vai criminalizar para dar conta. O racismo, o machismo e a LGBTfobia são estruturantes. Se são estruturais, a gente precisa mexer na estrutura.”

Laina é uma mulher negra candomblecista, Yawo de Obá do Ile Axé Ode Omi Ewa, feminista, mãe e ativista pelos Direitos Humanos. É também co-vereadora da Mandata Coletiva Pretas Por Salvador, advogada, especialista em Gênero e Raça, com pós-graduação em Violência Urbana e Insegurança, mestranda em direitos criminais, faz parte da Rede Nacional de Ciberativistas Negras. Sempre atuou com Direito Social no combate às desigualdades de gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero e liberdade religiosa. É presidente e fundadora da ONG TamoJuntas que atua em 23 Estados do Brasil com mulheres em situação de violência. Foi escolhida em 2016 como mulher inspiradora pelo site Think Olga e em 2017 pelo site Uunder 30 da Forbes Brasil pelo trabalho desenvolvido com mulheres em situação de violência.

RODNEY WILLIAM

“Para pisar no chão de um terreiro temos que estar o tempo todo descontruindo uma fala machista, racista, homofóbica e transfóbica. Eu tenho filhas trans na minha casa que são respeitadas como as mulheres que são.”

Pai Rodney de Oxóssi, é antropólogo e professor. Graduou-se em Ciências Sociais pela PUC SP, onde também recebeu o título de Mestre em Gerontologia e de Doutor em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia. Há mais de 20 anos, Pai Rodney de Oxóssi atua como pesquisador nas áreas de relações raciais e religiões de matrizes africanas. Filho de santo de Pai Pérsio de Xangô e babalorixá do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá em São Paulo, seguindo fiel a seus herdeiros e ao Axé Batistini, no qual possui o posto de Omowê. É autor do livro Apropriação Cultural, sétimo volume da coleção Feminismos Plurais, liderada por sua amiga e filha de axé, Djamila Ribeiro. O livro trata o tema da apropriação cultural sob a ótica histórico-cultural do colonialismo, relembrando o processo de aculturação e aniquilamento dos costumes pelo qual passou os povos escravizados.

SIDNEI BARRETO

“O candomblé é um quilombo que abriga e acolhe as dores das pessoas e vai gerando laços de família.”

Babalorixá Sidnei de Xangô, que também é Professor Doutor em Semiótica e Linguística Geral pela Universidade de São Paulo, é sacerdote da Comunidade da Compreensão e da Restauração Ilê Àse Sàngó, localizada em Suzano, interior de São Paulo. Pai Sidnei tem sido uma voz potente na defesa dos direitos humanos, da democracia e contra as intolerâncias aos povos de terreiro. É também o autor de dois importantes livros: “Coisas do Povo do Santo” (2011) e “O que é Intolerância Religiosa” – Coleção Feminismos Plurais. Em seus estudos e pesquisas, vem abordando afroteologia, a invenção da categoria semântica “negro” pelo homem branco, afrocentricidades versus eurocentrismo, colonialismo, pré/pós colonialismo e decolonialidade.

THIAGO ROSA

“Queimem os livros, mas não se queimam os espíritos, disse Kardec. Eu diria também que podem tentar nos matar, podem querer tirar a nossa fé, mas ninguém conseguirá destruir Deus e a religiosidade que eu, que nós acreditamos”

Thiago Rosa é um jornalista e espírita paulistano, foi um dos fundadores do Movimento de Espíritas pelos Direitos Humanos, após atitudes preconceituosas, intolerantes e conservadoras de lideranças do movimento. Apresentou o programa Mutirão, sobre a mesma temática, pela Rádio Boa Nova, e é autor do livro Tudo que é bom é passageiro. Thiago tem dividido seu tempo entre empreendedorismo no mundo do colecionismo geek e os debates sobre as pautas LGBTQIA+, dentro e fora dos ambientes da fé. Foi ele quem, no começo dos anos 2000, dirigiu e editou a Revista Fala Meu!, voltada aos jovens espíritas e que trazia ao debate, num ambiente ainda cheio de tabus, temas como homossexualidade, racismo, suicídio e justiça social.

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É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

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