Diálogos da Fé

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Diálogos da Fé

O uso do medo da perseguição para captar votos entre os evangélicos

Não há trama de perseguição e fechamento de igrejas. Houve, sim, 14 anos de governo de esquerda sem qualquer movimento nesta direção

O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante evento em igreja evangélica. Foto: Anderson Riedel/PR
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Nesta reta final da campanha, a atenção às mudanças no discurso do atual presidente ressalta alguns elementos. Além do uso da máquina pública com vistas à conquista de votos, tem sido visível a busca da conquista do apoio das mulheres e a intensificação da imagem de Jair Bolsonaro como “homem de fé”, com ações e discursos voltados, em especial, para evangélicos.

Nesses discursos, o acionamento do medo, ponto importante na campanha eleitoral de 2018, se torna um recurso-chave. Naquela campanha, usou-se e abusou-se do medo da “destruição da família” com temas como “erotização de crianças”, “doutrinação de jovens” pela “ditadura gay” e pelas “feminazis” que ocupariam as esquerdas políticas. Bolsonaro foi apresentado como garantia da segurança de que estes males seriam expurgados. 

Em 2022, o medo faz parte da vida de várias camadas da população: medo da Covid-19, da falta de dinheiro, da fome, da falta de oportunidades de emprego e de estudo, de não ter onde morar, entre outros. Estes medos, porém, são todos resultantes de ações e inações da parte do atual governante, pela retirada de direitos e redução drástica de políticas públicas de inclusão social e enfrentamento da pobreza estrutural. Realidade que atinge a maioria da população, aquela mais empobrecida, em especial, onde está alocada, justamente, a maior parcela de evangélicos. 

Perseguição a cristãos é símbolo caro à cultura evangélica

Em 2022, Bolsonaro está sob avaliação. Não é à toa que mais da metade da população declara em pesquisas que não votaria nele “de jeito nenhum” e quase a metade reprova o governo, como ruim ou péssimo. Neste quadro diferente, como discursar para ganhar apoios e votos? 

Bolsonaro busca convencer de feitos que não realizou (engana sobre obras no Rio São Francisco, Pix, cuidados durante a crise da Covid-19, aquisição voluntária de vacinas, trato com a educação, geração de empregos, entre outras falsidades) e com o acionamento do medo. 

Como gerou, ele mesmo, tantos medos nas famílias com seus desfeitos, o tema da “destruição da família” depõe agora contra si próprio. Não há discurso de moralidade religiosa que faça esquecer o que as famílias vivem no cotidiano, contando os reais para obter o pão de cada dia, tendo que renunciar a pequenos luxos conquistados em anos passados (carro popular, viagens, lazer, cursos) para garantir o básico da sobrevivência.

Estamos diante de uma falácia que aposta na ingenuidade religiosa de uma parcela de fiéis 

Busca-se, então, acionar outros medos. Retoma-se um temor antigo, que já aparecia na campanha eleitoral de 1989, quando Fernando Collor (PRN) lançou mão do recurso para abater seu opositor Lula (PT): a perseguição religiosa e o fechamento de igrejas.

Já em 1989, Lula, o PT e as esquerdas eram acusadas de, caso vencessem as eleições, planejarem perseguir cristãos e fechar igrejas, por conta de um suposto alinhamento com o comunismo. Certamente o imaginário do comunismo como um mal universal, das histórias de perseguição de povos distantes, alimentava este topo de abordagem.

Perseguição a cristãos é símbolo caro à cultura evangélica. As imagens bíblicas da perseguição aos seguidores de Jesus na Igreja Primitiva são elemento forte na pregação da perseverança da fé, da fidelidade e do testemunho que cristãos devem dar ao mundo, permanecendo firmes, diante de qualquer dificuldade. É um discurso que tem apelo ainda que não haja experiência de perseguição e impedimento da prática religiosa deste grupo no país.  

Collor venceu em 1989 e Lula se tornou presidente 13 anos depois, nas eleições de 2002. Em três mandatos e meio, incluindo sua sucessora Dilma Rousseff, nunca tal ameaça se revelou algo concreto. Por sinal, o tema desapareceu das campanhas eleitorais. As acusações ao PT e às esquerdas seguiam passando pelo tal medo do comunismo, mas nada relacionado à perseguição de cristãos. Este grupo religioso, nada impedido de seguir com sua fé, foi ampliado de tal forma em sua diversidade e presença pública, em duas décadas dos anos 2000, que fez gerar a cultura gospel, uma Frente Parlamentar, ministros de Estado evangélicos (nomeados pelo PT), uma gama de corporações evangélicas.

Pois neste Brasil 2022, governado pela extrema-direita acionadora de medos como estratégia de campanha, a retomada da retórica do medo e do terrorismo verbal sobre a perseguição a cristãos atribuída às esquerdas volta, com força, na campanha de Jair Bolsonaro. Estão na boca de líderes em cultos, em postagens de mídias sociais, em panfletos distribuídos, frases como: “é preciso falar de política agora para não sermos impedidos de falar de Cristo amanhã”,  “a esquerda odeia os valores cristãos e farão leis que vão nos perseguir”, “se ganhar Lula vai fechar as igrejas”. Usa-se até mesmo conteúdo falso, criado para fazer crer em tais ameaças.

A mentira e o engano que envolvem tal terrorismo verbal se revelam recursos retóricos de campanha eleitoral. Afinal, não há trama de perseguição e fechamento de igrejas. Houve, sim, 14 anos de governo de esquerda (2003 a 2016) sem qualquer movimento nesta direção. Além disso, há uma predominância cristã no País, onde existe plena liberdade de prática da fé para este segmento e outras religiões, garantida por lei. 

Manipula-se, neste caso, o imaginário da perseguição cristã para alimentar uma disputa política. Vemos aí uma estratégia de políticos e religiosos que usam o tema da liberdade religiosa para, de fato, buscarem espaço para falarem e agirem como quiserem contra os direitos daqueles que consideram “inimigos da fé”, simplesmente porque vão em direção contrária aos valores que defendem. Isto é, contra ativistas de direitos humanos, partidos de esquerda, movimentos por direitos sexuais e reprodutivos, religiosos não cristãos e até cristãos progressistas – nem os da mesma família da fé são poupados. 

Ou seja, estamos diante de uma falácia que aposta na ingenuidade religiosa de uma parcela de fiéis como estratégia eleitoral e disputa de poder. 

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