Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

O que os orixás têm me ensinado sobre minha (amorosa) saída do espiritismo

Com a ascensão do bolsonarismo e da extrema-direita, as fileiras espíritas passaram a se tornar um espaço hostil para mim e para pessoas como eu

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Esse texto é um agradecimento a tantas pessoas boas, tantos amigos e amigas que o espiritismo me proporcionou. Também serve para agradecer todos esses anos de parceria com a CartaCapital no blog Diálogos da Fé e para celebrar essa minha nova jornada espiritual.

Depois de quase trinta e cinco anos, me despeço do espiritismo, essa doutrina que durante tanto tempo foi tão importante para minha vida e que me ajudou a ser boa parte de quem sou hoje, embora sempre soubesse que meus caminhos se dariam a partir de outras encruzilhadas.

Cresci em um bairro da periferia da cidade de São Paulo e uma das minhas únicas opções de lazer e socialização aos finais de semana era o centro espírita (já escrevi sobre isso outras vezes, mas como resgate, penso ser valioso deixar registrado mais uma vez). Um centro espírita comunitário, dirigido por uma família negra e digo isso porque não é esse espiritismo, majoritariamente branco e classe média que vemos aí, que ajudou moldar meu caráter. Foi a partir dessas relações que escolhi ser psicólogo (a filha da dirigente era psicóloga) e atuar na defesa dos direitos humanos, nas causas sociais e na lua antirracista.

O espiritismo foi a terra boa e o candomblé tem sido a semeadura e a fertilização. Que assim seja!

Uma vizinha convenceu minha mãe a me levar para a escolinha de evangelização, uma espécie de catecismo espírita. Eu fui e, na sequência, minha mãe foi convidada a participar das atividades doutrinárias para conhecer mais sobre o lugar que seu filho estava frequentando. Aos poucos, fomos nos tornando orgânicos do movimento, primeiro ajudando na sopa, depois na assistência social e nos cursos doutrinários, evangelização infanto-juvenil, atividades com famílias, liderando processos e ampliando as responsabilidades. Nesses muitos anos eu participei de todas as atividades de um centro espírita e por conta disso, em meados de 2005, fui convidado a apresentar um programa para jovens em uma famosa radio espírita, que nos expulsaria em 2018, no auge do bolsonarismo, por conta das nossas ideias “esquerdistas”. Foi quando fui convidado a escrever na CartaCapital sobre espiritismo e direitos humanos.

Enquanto escrevo, minha memória vagueia, é impossível não me emocionar várias vezes com tantas recordações.

A minha vivência dentro do espiritismo sempre foi muito genuína. Acreditava em um espiritismo dialógico, ecumênico, progressista e plural. Me esforcei muito para, mesmo com todas as limitações, falar, escrever e viver uma doutrina espírita amorosamente inclusiva e doutrinariamente diversa. Certamente outros amigos e amigas espiritas, por quem tenho enorme consideração, vão fazer muito mais do que eu fiz.

Travei muitos embates e protagonizei algumas discussões, principalmente contra o racismo, a LGBTfobia e a transfobia. Me lembro de duas dessas: uma quando uma palestrante famosa associou LGBTs a HIV e a outra com uma pessoa que disse que mulheres eram somente aquelas que menstruavam. Dois pensamentos rasos, preconceituosos e desumanizantes. Confesso que esses embates foram as portas para muitas decepções, inclusive com uma ala mais progressista.

Com a ascensão do bolsonarismo e da extrema-direita, as fileiras espíritas — majoritariamente brancas, mais velhas e endinheiradas — passaram a se tornar um espaço hostil para mim e para pessoas como eu.

Frequentar um centro espírita sem ser interpelado por conta das minhas ideias e posicionamentos se tornou uma tarefa muito difícil. Passei a ser considerado “obsidiado” (que é uma espécie de possessão diabólica). Mas isso não me preocupava mais do que ver uma doutrina que sempre foi base para minha vida se tornando cada vez mais fundamentalista e reacionária, o contrário do pensamento kardecista.

Gradualmente, sem uma comunidade espírita e cada vez mais perdendo a identidade com a religião, fui sendo acolhido pelo povo de santo.

Estar no candomblé, fazer parte de uma egbé (é assim que nos referimos a nossa família), é esse retorno para uma vivência plena da fé, esse contato constante com o sagrado, com a natureza e comigo mesmo.

Ser um homem branco e gay em uma religião negra é um convite constante à descolonização do olhar.

Hoje vivencio uma religião em que não sou maioria e isso para mim é muito importante. As divindades que eu cultuo são negras, os cantos são negros e em linguagem africana, os rituais e comidas são negros. Tudo é negro, inclusive meus irmãos e irmãs.

Tem sido uma aprendizagem diária, não que eu tenha “zerado” tudo que aprendi todos esses anos no espiritismo, mas estar e ser de uma religião de matriz africana é, também, rever o racismo estrutural que tive como base, até mesmo dentro do espiritismo, quando se associava entidades como Pretos Velhos e Exus a espíritos inferiores.

Não basta apenas não ser racista, como assegura Angela Davis, esse é um dever ético, legal e moral. Devo ser antirracista. Usar dos privilégios que a branquitude me assegura, para condenar, combater e reprimir, diariamente, todo tipo de preconceito e segregação por raça e cor, dentro e fora das comunidades de fé.

Tive a alegria de, nessa transição de fé, contar com o apoio de amigos/as maravilhosos/as, como o Thiago e a Michele, amigos/as espíritas de toda uma vida e espero que além dela e do filósofo e candomblecista Daniel Souza, meu irmão de outras vidas e que me apresentou seu terreiro e para a Yalorixá Luciana Bispo, uma sacerdotisa humana, liderança comunitária preciosa, assistente social dedicada e dona do melhor abraço do mundo.

Foi ela quem me sustentou pelo braço, pegou firme na minha mão e cuidou da minha Ori (cabeça) num momento de profunda dor e decepção, tornando o candomblé nesse alicerce importante no enfrentamento das dificuldades da minha vida.

Nessa transformação, me revisito diariamente, tentando ser alguém melhor, ser morada do sagrado e ter capacidade para carregar meu Orixá e meus guias no corpo e no coração, sem ódio ou rancor, mas com pureza, leveza e boniteza.

Só me arrependo de uma coisa enquanto espírita: ter fracassado em torná-lo um lugar bom para todas as pessoas. À essas pessoas eu peço perdão.

Torço muito para que um dia o espiritismo, aquele da minha infância, volte a ser um lugar de comunhão, se esforçando para construir uma sociedade justa, feliz e igualitária, uma casa comum, onde todas as pessoas possam viver bem e tendo acesso aos seus direitos, livres de preconceitos e discriminações.

O espiritismo foi a terra boa e o candomblé tem sido a semeadura e a fertilização.

Que assim seja!

Adupé por tudo que tenho vivido!

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