Diálogos da Fé

Natal: tempo de andar na contramão

O Advento é momento urgente, uma oportunidade, para quem tem fé no Jesus de Nazaré e também para quem não tem

Presépio (Foto: Pixabay)
Presépio (Foto: Pixabay)

Estamos num tempo significativo para o calendário cristão: o Advento. Tempo formado pelos quatro domingos que antecedem o Natal e que é celebrado em missas católicas e em cultos das igrejas evangélicas que guardam a tradição cristã.

Advento é palavra de origem latina que quer dizer “chegada”, “aproximação”, “vinda”. O tempo de uma contagem regressiva para se celebrar a expectativa das comemorações do nascimento do neném Jesus de Nazaré, presença encarnada do Deus Criador entre os seres humanos, segundo a fé cristã.

O Advento é, na verdade, um convite para se andar na contramão. Sim, porque toda a lógica construída na sociedade ocidental cristã capitalista em torno do Natal é baseada no consumismo (de bens materiais e alimentos) e na decoração com luzes, que terminam por esconder o significado do nascimento do neném Jesus.

Segundo as narrativas do episódio contidas na Bíblia, Jesus nasceu em condições bastante adversas. Era filho de um casal pobre, da periferia da Judeia (Nazaré, na Palestina), o parto ocorreu em um contexto de deslocamento da cidade de origem (cumprimento das demandas do censo impostas pelo Império Romano, que dominava a região) e deu-se sem o mínimo de conforto e higiene.

Jesus nasceu no local que restou à família para se acomodar: um curral, abrigo de animais, com higiene e odores nada agradáveis. Nenhum glamour.

O neném Jesus, com toda a sua fragilidade, em meio à simplicidade da família e das condições do seu nascimento, torna-se portador de uma notícia inusitada: Deus se faz gente por intermédio dele, dependente, fraco e sem conforto.

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Esta torna-se, então, a carteira de identidade de Deus. Representação concreta do amor incondicional pela humanidade e por todo o mundo que ela habita, propagação de humildade e despojamento, de paz e reconciliação, de inconformismo e indignação frente à exclusão de iguais e às injustiças sociais, de misericórdia e compaixão.

Quando o neném Jesus nasceu, a terra dele (as regiões da Judeia e da Galiléia, no Oriente Médio), estava sob ocupação do Império Romano, a população pagava impostos altíssimos e a exploração de quem tirava vantagem de tudo isto (corrupção) era uma prática corrente.

Era muita falta de paz. Neste contexto estava a religião, que apresentava um Deus controlador dos corpos e das mentes, que colocava fardos pesados sobre os indivíduos, discriminando aqueles considerados impuros e pecadores e deveriam cumprir rígidos protocolos comportamentais e rituais para se verem livres dos estigmas religiosos.

Nesta concepção religiosa, um Deus inacessível para muitos que não conseguiam cumprir os tantos preceitos da religião.

Na tradição do Natal, o Deus que se revela e vem ao mundo por meio de um neném frágil e dependente, entre os pobres e despojados, expõe aos seres humanos um outro sentido da vida em comunidade e da prática religiosa.

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“Paz na terra às pessoas de boa vontade”, “Deus, o Salvador, dispersa os soberbos e exalta os humildes”, “o mal não é o que entra mas sim o que sai da boca das pessoas”, “os últimos serão os primeiros”, “felizes os que promovem a paz”.

São estes e outros tantos os posicionamentos em torno de Jesus, da família de Nazaré. São caminhos de oposição à lógica da violência, do individualismo, da intolerância, uma nova perspectiva na relação com o Deus Criador.

O Advento é o tempo de convite àqueles que se identificam com esta história, a se preparem para celebrar o nascimento de Jesus e o lugar que ele assume na memória da fé cristã. Por isso, é um convite para se andar na contramão, na direção contrária do oportunismo mercadológico, do glamour ofuscante das luzes e de toda a arrogância religiosa que transforma o neném Jesus num ícone a ser consumido para justificar a exclusão de iguais e o conformismo frente às intensas formas de injustiça.

O Advento é um tempo urgente, uma oportunidade, para quem tem fé no Jesus de Nazaré e também para quem não tem, e cultiva os valores que nascem com ele naquele curral.

Oportunidade de se colocar teimosamente em oposição a tudo o que traz desânimo e desesperança e que insiste em nos fazer crer que este mundo não tem mais jeito.

É esperar contra toda esperança.

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