Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

Não podemos, como cristãos, compactuar com quem causa fome, dor e miséria

Assistir calados a tantas injustiças é grave. Apoiar quem as causa é ainda pior. Muito pior!

Foto: EVARISTO SA / AFP
Foto: EVARISTO SA / AFP
Apoie Siga-nos no

Por mais que já se tenha falado sobre a tragédia que assola o Brasil desde que o atual presidente da República assumiu seu cargo, não se esgotam os assuntos referentes aos desmandos por ele praticados.

Bolsonaro e sua trupe não se cansam de inventar novos meios para promover a miséria, a fome, o desemprego e a falta de assistência aos menos favorecidos nas mais diversas áreas. Quem de nós não se recorda das imensas filas formadas para retirada de ossos em açougues de Corumbá e Cuiabá, no Mato Grosso? E das pessoas desesperadas coletando ossos de caminhão no Rio de Janeiro? Ossos que eram destinados à produção de ração para cachorros, sendo utilizados para matar a fome de muitas famílias.

Sob um governo desastroso, nosso País sente o agravamento diário do aumento do número de pessoas em situação de extrema pobreza. Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Pessan), “cerca de 20 milhões de brasileiros afirmaram que passam períodos de 24 horas sem ter o que comer. E cerca de metade da população – 116,8 milhões de pessoas-, sofre com algum tipo de insegurança alimentar”. “O Brasil continua dividido entre os poucos que comem à vontade e os muitos que só têm vontade de comer”, afirmaram os pesquisadores da entidade.

Resultados obtidos a partir do “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, mostram que a situação vem piorando de forma acelerada sob o atual governo. “Em apenas dois anos, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave saltou de 10,3 para 19,1 milhões. No período, quase nove milhões de brasileiros e brasileiras passaram a ter a experiência da fome em seu dia a dia”, aponta o relatório.

Por mais absurdo que possa parecer -para um País que figura como o segundo maior produtor de alimentos do mundo-, o número de brasileiros e brasileiras que passam fome é maior que a população dos estados da Bahia (15 milhões) e do Rio de Janeiro (17,5 milhões). Apenas São Paulo e Minas Gerais têm mais que 19,1 milhões de habitantes.

Os mais de 116 milhões que estão sofrendo com algum tipo de insegurança alimentar são aqueles que sentem a cada novo dia seu poder de compra diminuir diante dos aumentos abusivos dos gêneros de primeira necessidade, sobre os quais o atual governo não se posiciona. Trocando em miúdos, o atual governo mostra-se totalmente apático a esta realidade. Suas ações diante desta verdadeira catástrofe vêm em forma de motociatas e passeios milionários com a família e amigos, às custas do dinheiro público.

O ato de governar traz em si a responsabilidade fundamental de mediar conflitos entre as pessoas. A isso chamamos de Política e, sob ela, alocamos tudo que esteja vinculado ao Estado, ao governo e à administração pública, tendo como eixo central o objetivo de administrar o patrimônio público e promover o bem de todos. Para tanto, o político deve ter aptidão e capacidade para governar, o que o atual governo já mostrou não possuir. Para ele, política significa meramente exercício de poder.

Lamentavelmente, podemos dizer que grande parte daqueles que se colocaram a serviço da política -no sentido pleno da palavra-, há muito tempo deixou de fazê-lo para servir apenas à economia num modelo econômico que serve exclusivamente ao deus mercado, que, com crueldade, busca enriquecer cada vez mais a uns poucos em detrimento de milhões que condena à absoluta pobreza.

Para fazer valer suas vontades, os “donos do poder” se organizam em grupos -ou bancadas-, dentro do parlamento para, em troca de dinheiro, muito dinheiro, se darem ao prazer de desgovernar o País num exercício pleno de desumanidade. Haja vista o tal “orçamento secreto”. Esquecem-se estes do verdadeiro papel que deveriam exercer: zelar pelo bem de todos trabalhando pelo bem comum.

É triste a realidade atual, na qual o presidente da República não se envergonha ao demonstrar sua total indiferença diante da situação de miséria em que se encontram milhões de pessoas, a quem, constitucionalmente, deveria proteger no exercício do cargo para o qual fora eleito. Mas o que se pode esperar de bom de alguém que endeusa torturadores e defende a tortura?

Em meio a todas as atrocidades causadas pelo atual governo, causa-nos inquietude e espanto a atitude de milhares de pessoas declaradamente cristãs que ainda defendem. Em que pese a boa lábia e a oratória convincente de certos líderes religiosos, as pessoas são livres para pensar e refletir sobre todas as coisas. Por que não o fazem é a pergunta que não quer calar.

Ao nos identificarmos como cristãos, estamos declarando nossa adesão aos ensinamentos de Jesus de Nazaré, Ele mesmo perseguido, preso injustamente, torturado e morto em um ato político-religioso muito bem arquitetado.

Não podemos, como cristãos, aceitar ou compactuar com quem causa fome, dor e miséria às pessoas. Não podemos nos calar diante da disseminação da pobreza, das desigualdades e da miséria. Ao agirmos dessa maneira, estamos nos omitindo perante às injustiças e aos flagelos impostos aos menos favorecidos.

Assistir calados a tantas injustiças é grave. Apoiar quem as causa é ainda pior. Muito pior!

Alimentar uma fé que não desperta para a necessidade de se romper com as ações do atual presidente da República, que em momento algum mostrou estar ao lado do bem e da vida, é o mesmo que concordar com seus atos, com um projeto de poder que beneficia uns poucos e condena milhões ao empobrecimento e à fome.

Terá sido o slogan fascista “Deus acima de tudo” o responsável por atrair a esses “cristãos”? E se foi, a que deus estavam se referindo? Ao Deus de Jesus de Nazaré, por certo não foi! Ao Deus Justo, Misericordioso e Compassivo muito menos! A que Deus então?

Deixamos esta pergunta no ar. Que cada um possa exercer sua capacidade de raciocínio e responder com razão e sabedoria.

Para nós, em sintonia com o Papa Francisco, “NÃO HÁ DEMOCRACIA COM FOME NEM DESENVOLVIMENTO COM POBREZA, NEM JUSTIÇA NA DESIGUALDADE”.

Professor Waldir Augusti

Professor Waldir Augusti É licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia. Escritor, agente de pastoral, assessor de movimentos sociais, gestor da Rede de Escolas de Cidadania de São Paulo.

Tags: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.