Machonaria, um demônio que precisa ser exorcizado

A quem interessa que mulheres vivam aos homens, anulando seus desejos e vontades? A quem interessa usar a religião para pregar violência?

O pastor Anderson Silva, fundador da Machonaria (Foto: Divulgação)

O pastor Anderson Silva, fundador da Machonaria (Foto: Divulgação)

Diálogos da Fé

Recentemente, o pastor brasiliense Anderson Silva escreveu nas redes sociais que a mulher tem um ‘potencial demoníaco’. Segundo ele, a sociedade olha apenas para a agressão que um homem comete contra uma mulher, mas não para os meses de tortura psicológica ao quais a mulher supostamente submeteria o homem.

Ora, esse discurso é criminoso e o autor deve ser responsabilizado na justiça. Culpabilizar mulheres por sofrerem a violência reforça a ideia de que elas merecem apanhar e encoraja os homens a cometer abusos contra suas companheiras, sejam elas psicológicos, financeiros, sexuais ou físicos.

Silva, que tem centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, é idealizador de projeto chamado Machonaria, que busca resgatar os valores patriarcais na sociedade. Esse tipo de postagem não é raridade. Tenho visto dezenas de perfis que discursam sobre uma masculinidade violenta, que submete mulheres à vontade de homens a custo da integridade emocional e física de suas esposas. Esses perfis falam que mulheres são obrigadas a fazer sexo com seus maridos, mesmo sem vontade; que o fato de querer ter filhos é uma decisão do casal e não da mulher – a partir da ideia de que, para por DIU ou usar anticoncepcionais a mulher deve ter, primeiro, a permissão do marido; de que o dever da mulher é cuidar dos filhos e do marido e que mulheres são frágeis e devem ser protegidas por homens, dentre outros absurdos.

Não entendo como as redes sociais, como Facebook e Instagram, permitem que eles publiquem esses discursos diariamente e que nós, as feministas, tenhamos que rastrear uma a uma dessas postagens e denunciá-las para que saiam do ar.

Observando os comentários, li, infelizmente, uma mulher agredida pelo marido dizer que sabia porque tinha apanhado, e que merecia isso. Outros tantos apoiam a ideia de que mulheres que não seguem o que se espera delas devem ser penalizadas com violência. Em segundos, esses perfis põe em xeque o esforço de décadas em defesa dos direitos das mulheres comandarem suas vidas, de viverem em relacionamentos saudáveis e respeitosos. Esforços que com grande articulação nacional culminaram na Lei Maria da Penha são enfraquecidos e combatidos por homens que pregam desonestamente uma ideia de família que apenas favorece a eles.

Não preciso dizer que esses perfis têm forte apelo religioso, baseados na tríade família-tradição-propriedade (sem esquecer da defesa de posse de armas).

Quando vejo um machista que prega a submissão da mulher e a posse de armas, me arrepio. Contra quem essas armas serão usadas, senão contra as próprias mulheres? A quem interessa que mulheres vivam para os homens, anulando seus desejos e vontades? A quem interessa usar a religião para pregar tanta violência contra a mulher?

Sou evangélica de berço, amo minha comunidade, irmãs e irmãos, e me sinto bem entre eles e elas. Vivo diariamente essa realidade que muitas pessoas apenas veem de fora. A igreja é um espaço onde se ama, onde se acolhe, onde eu tenho amigos muito queridos. Mas a igreja pode ser também um espaço que silencia e que se acostuma com a violência.

Sabem por que me “tornei feminista”? Eu tinha 15 anos quando percebi que uma irmã da igreja apanhava. Ela faltava a muitas reuniões, até as marcas sumirem do rosto e do corpo. Aos 15 anos, soube que uma comunidade inteira aceitava que uma mulher apanhasse, e achava que isso não era da conta de ninguém. Afinal, em briga de marido e mulher…

Isso ainda acontece m milhares de igrejas espalhadas pelo Brasil. Sustentados pelo machismo, homens reafirmam diariamente em púlpitos que mulheres devem ser submissas, mesmo que isso custe suas vidas. Nas redes sociais — com uma tatuagem aqui, um coque samurai ali e uma prancha de surf acolá — esses discursos alcançam milhões de pessoas.

Se uma mulher publica a imagem de um parto ou de um seio descoberto amamentando, imediatamente as redes derrubam a postagem. Mas quando um machista escreve que mulheres devem sexo ao marido, é necessário a denúncia para que essa postagem saia do ar. Por isso falamos de um machismo estrutural, que rege os algoritmos e estrutura a religião e a economia.

O perfil do machonarista tem 117 mil seguidores, ou seja, é um perfil lucrativo para as redes. Movimenta dinheiro, movimenta público. A pergunta que faço é: a custa de quem? De nós, mulheres? Ainda mais nós, mulheres negras, que somos submetidas à violência doméstica dupla: dos maridos e dos patrões.

O pensamento colonial que se sustenta na ideia de que o homem branco é um sujeito de todos os direitos, enquanto as demais pessoas são propriedades é regurgitado o tempo todo nesses perfis – a lógica do bandido bom é bandido morto, a ideia de que mulheres são objetos e tantas outras ideias que reforçam os privilégios de raça, gênero e classe.

Sim, esses perfis são de homens brancos, que defendem o capitalismo e as armas. Toda a lógica colonial brasileira sendo reiterada bem embaixo do nariz dos donos dessas mídias sociais. Penso eu, essas plataformas não devem ser responsabilizadas? Podem livremente veicular discurso de violência e ódio contra as mulheres, sem regulação alguma? A naturalização da submissão das mulheres se dilui em meio à dancinhas, likes e bichinhos fofos.

Entretanto, prestem bem atenção: nós feministas expulsaremos o demônio do machismo do Brasil. É pela vida de todas as mulheres que estamos nas trincheiras contra a lógica patriarcal que faz com que o Brasil seja o quinto país do mundo a matar mulheres cis e o primeiro a matar mulheres trans. Basta de violência contra as mulheres, seja nos púlpitos, seja nas mídias sociais. Não permitiremos mais.

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Evangélica, cientista social, mestra em educação e doutoranda em antropologia. É da Rede de Mulheres Negras Evangélicas e articuladora da Coalizão Evangélica Contra Bolsonaro

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