Haverá paz na Terra Santa? Sobre os ataques entre Israel e Gaza

'A população palestina sofre restrições de comida, água, educação, saúde, trabalho, mobilidade. Mais ainda em Gaza'

Palestinos inspecionam sua casa, depois de ter sido destruída por um ataque aéreo israelense. Foto: SAID KHATIB / AFP

Palestinos inspecionam sua casa, depois de ter sido destruída por um ataque aéreo israelense. Foto: SAID KHATIB / AFP

Diálogos da Fé

Causa assombro e tristeza assistir às explosões na Faixa de Gaza: residências destruídas, centenas de vítimas, morrem jovens e crianças… Israel e Hamas voltam a trocar ofensivas, numa escalada dos confrontos ocorridos em Jerusalém Ocidental, parte árabe da cidade, onde palestinos têm sido despejados de seus lares por colonos israelenses, em pleno Ramadã.

A “cidade da paz” é sagrada para as fés judaica, islâmica e cristã, mas tem estado no meio do fogo cruzado, inclusive de interesses como os dos EUA, que destinam bilhões de dólares a Israel por este ser um país ocidentalizado no meio do Oriente Médio, e pela influência da elite judaica na política e economia norte-americanas.

Os romanos dominaram a Judeia no ano 60 a.C, rebatizando-a Filistina (daí Palestina) em referência aos filisteus, povos que lá viviam por volta do séc. 12 a.C, antes da formação da antiga Israel, que seria composta por hebreus (lit. estrangeiros de várias nações) e nativos da região. Suas muitas formas de culto se afunilariam no judaísmo antigo, institucionalizado no templo de Jerusalém, cujas ruinas ainda são sagradas.

 

 

Jesus, o mais famoso palestino, nasceu de mãe judia em Belém, hoje na Cisjordânia. Quando criança, sua família se refugiou no Egito, fugindo do genocídio infantil perpetrado pelo rei Herodes. Ao crescer, pregou um mundo de paz, justiça e não-violência. Desafiou a opressão, os preconceitos, a pobreza e a exclusão.

Naturalmente, o modo de vida, a compreensão de nação, cultura e tradições daqueles tempos mudaram drasticamente. Mas, muita gente ainda reduz o debate à religião ou a um “sempre foi assim”.

A Israel de 1.948 adota o mesmo nome da monarquia de milênios atrás. Resulta dos esforços e reinvindicação do movimento sionista (séc. 19) por um Estado Judeu, que lhes oferecesse paz e segurança, de preferência na terra bíblica, conquanto muitos sionistas fossem ateus.

O antissemitismo e o horror do Holocausto dariam projeção ao sonho no pós-Segunda Guerra. A recém fundada ONU, o sionismo cristão e o mandato do império britânico que controlava a região viabilizam, enfim, a criação de Israel e a migração de judeus do mundo todo.

Para os palestinos, todavia, o novo mapa foi Nakba ou Tragédia: mais de 700 mil se tornaram refugiados. Expropriados, partiram para viver no que sobrou de Gaza e Cisjordânia, e nos países vizinhos. Entre as várias incursões colonialistas e progressivas anexações, desde 1967, Israel ocupa militarmente os territórios palestinos.

Assim como leituras enviesadas da Bíblia corroboram operações militares sangrentas, aqui ou na Terra Santa, a islamofobia e o preconceito contra árabes e palestinos seguem sustentando neuroses e biopolíticas de segregação e repressão. Distorções narrativas garantem lucros colossais às indústrias de armas e segurança. Por vezes, a legítima solidariedade e o afeto pela comunidade judaica ignoram projetos colonialistas ilegais que Israel perpetua: apropriação de recursos naturais, demolição de casas, prisões arbitrárias, execuções sumárias, entraves à liberdade de culto, inclusive de cristãos, palestinos ou estrangeiros.

A população palestina sofre restrições de comida, água, educação, saúde, trabalho, mobilidade. Mais ainda em Gaza, uma faixa de terra de 365km² para 2 mi de pessoas aglomeradas e duplamente oprimidas pelos próprios representantes, e pela ocupação ilegal de Israel. Não podem usar o espaço aéreo, o mar ou se aproximar da fronteira, onde há atiradores israelenses de vigia. Gaza é uma prisão a céu aberto! Do outro lado da cerca, o mais longevo premier israelense, o conservador Benjamin Netaniahu e seus aliados se recusam a negociar com “terroristas” e se beneficiam da beligerância numa sociedade altamente militarizada, enquanto avançam anexando territórios palestinos e tentam abafar escândalos de corrupção. O ódio é reforçado pelos mísseis do Hamas que, eventualmente, causam estrago e mortes em cidades de Israel, ao passo que, em Gaza, a destruição e o número de vítimas são sempre muito superiores.

Na verdade, não há “dois lados”. Israel é a sexta potência militar do mundo e a primeira do Oriente Médio. A Palestina não tem soberania, autonomia, exército ou tecnologia para interceptar foguetes como Israel faz. Gaza e Cisjordânia são separadas geograficamente, esquecidas até pelos países árabes. Até hoje não obtiveram o direito de se constituir Estado. Seus líderes se dividem entre extremismo e inação. Os campos de refugiados são como nossas favelas, e a cada ano o território total diminui. Nessa vida inviável, quem fica é por resistência ou falta de opção.

Tais políticas desumanas e internacionalmente ilegais só recuam quando a sociedade mundial se mobiliza. A paz não virá com discursos de normalização, mas com justiça. O Brasil, até pouco tempo, tinha importante papel diplomático na defesa da solução de dois estados coexistentes. Entretanto, com a guinada à extrema-direita, aprofunda a própria violência institucional e quer ampliar a cooperação política e ideológica com Israel nas áreas de segurança e defesa (vide a MSC 371/2019). Será para massacrar ainda mais nossa gente?

Transformemos nossa compaixão e indignação em ações por justiça e paz, aqui e no mundo: indivíduos, instituições, movimentos sociais, pois, quando qualquer ser humano sofre injustiça, toda a humanidade é injustiçada. Shalom, Salam, Paz!

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Filósofo, teólogo, pós-graduado em Filosofia Política e do Direito, mestre em Ciências da Religião. Faz parte do Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e Israel (EAPPI.org)

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