Diálogos da Fé

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Gaza x Holoucausto: A comparação de Lula será combustível para evangélicos pró-Bolsonaro?

Silas Malafaia e seus asseclas exploram as declarações de Lula sobre Gaza para reforçar a sensação de perseguição e o profundo sentimento de vitimização entre os evangélicos no Brasil

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) junto à esposa Michelle e o pastor Silas Malafaia, no Reino Unido. Foto: Chip Somodevilla/POOL/AFP
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A comparação feita por Lula entre o morticínio de Israel em Gaza e os horrores perpetrados pelo nazismo já está sendo usada como combustível para a mobilização do ato marcado para 25 de fevereiro em São Paulo, um evento com fortes conotações político-religiosas liderado por Silas Malafaia. 

Além do verde e amarelo do Brasil, o evento agora também deve ostentar o azul e branco da bandeira de Israel, simbolizando a estreita associação que Malafaia e seus seguidores fazem entre o apoio ao Estado de Israel e sua própria identidade religiosa e política.

Malafaia e seus asseclas exploram as declarações de Lula sobre Gaza para reforçar a sensação de perseguição e o profundo sentimento de vitimização entre os evangélicos no Brasil. Parte desses fiéis tende a interpretar críticas ou eventos isolados, a exemplo das declarações de Lula, como evidências de uma perseguição mais ampla contra eles. Essa narrativa de vitimização é um potente catalisador, unindo a comunidade evangélica num sentimento de solidariedade e resistência contra o que interpretam como uma crescente maré de hostilidade cultural e espiritual. Mobiliza a base evangélica em torno de figuras políticas que prometem ser seus defensores.

A confusão entre o Estado de Israel, o Israel bíblico e o povo judeu entre alguns segmentos evangélicos é uma questão de profunda complexidade

As palavras de Lula reverberam profundamente no imaginário político-religioso brasileiro, solidificando a percepção já enraizada de que a esquerda se posiciona não apenas contra um país, mas contra um conjunto de valores religiosos entrelaçados com a fé de muitos brasileiros. A narrativa cuidadosamente cultivada ao longo de décadas transforma qualquer crítica política em um ataque percebido ao próprio fundamento da fé judaico-cristã, fazendo com que a questão transcende a esfera política e encontre espaço no domínio da identidade e da crença.

As esquerdas são pintadas com as cores da hostilidade não só contra Israel, mas contra um pilar da fé evangélica, alimentando um antagonismo que vai muito além das questões geopolíticas e que mergulha nas águas turbulentas do conflito religioso e ideológico.

A confusão entre o Estado de Israel, o Israel bíblico e o povo judeu entre alguns segmentos evangélicos é uma questão de profunda complexidade, frequentemente dando origem a interpretações simplificadas e, por vezes, problemáticas. Para muitos evangélicos, o Estado de Israel contemporâneo é visto como a manifestação moderna do Israel bíblico, a terra prometida por Deus a Abraão e seus descendentes. Neste cenário, os judeus são frequentemente homogeneizados e inseridos nessa visão singular, reduzindo a diversidade judaica a um único arquétipo que serve aos propósitos teológicos ou políticos. 

Israel é apresentado como o epicentro de um drama divino que culminará no fim dos tempos e na volta de Jesus. A reconstrução do Templo de Jerusalém e a soberania judaica sobre a terra tornam-se não questões geopolíticas, mas sinais proféticos que antecedem a segunda vinda de Cristo. A perspectiva coloca Israel em uma posição única na teologia e na espiritualidade evangélica brasileira, transformando o apoio ao estado judeu em um imperativo escatológico.

Além disso, a identificação com o “Povo Escolhido” permite aos evangélicos uma conexão espiritual com a narrativa bíblica do povo judeu, vistos como herdeiros diretos das promessas feitas por Deua. A interpretação literal do Antigo Testamento aponta territórios e fronteiras descritos na Bíblia como que verdadeiros e não meras referências. Esses elementos, entrelaçados, criam um quadro no qual o apoio a Israel é uma questão de fé, um cumprimento de profecias bíblicas e um alinhamento com o plano divino para a humanidade e não um posicionamento político.

Em meio ao turbilhão de fervor e fé, o ato do dia 25 de fevereiro promete ser uma exibição teatral das convicções mais ardentes dos evangélicos, com Malafaia no papel de maestro dessa orquestra de indignação seletiva. Numa tentativa de afastar críticas de que estaria utilizando fundos da igreja, Malafaia anunciou que financiará o evento com recursos próprios. Vale, porém, questionar a origem do “próprio dinheiro” de Malafaia, considerando que grande parte de sua renda advém dos dízimos e ofertas dos fiéis, que confiam não apenas sua fé, mas também o patrimônio a sua igreja. 

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