Diálogos da Fé

É preciso dizer não ao sacrifício diabólico de crianças e adolescentes

Nos Estados Unidos e no Brasil, entidades religiosas se manifestam contra a violência do Estado dirigida a menores

A mãe de Marcos Vinícius chora a perda do filho
A mãe de Marcos Vinícius chora a perda do filho

Ainda refletíamos sobre o drama de milhares de meninos e meninas imigrantes separados de suas famílias e levados forçosamente a centros de detenção nos Estados Unidos quando o adolescente Marcus Vinícius da Silva foi assassinado. Ele ia para a escola no Rio de Janeiro e foi atingido por um tiro disparado em uma das tantas ações policiais em favelas da cidade.

Não há diferença entre a política de demonização de imigrantes do governo dos EUA e a política de “segurança” implementada há décadas no Rio de Janeiro e em outros estados brasileiros: são diabólicas.

São ações relacionadas à origem do termo diabo, do grego diabolos, “o que divide”, “provocador de confusão, discórdia”. Estas ações governamentais dividem, confundem, trazem violência e morte. Tanto o governo dos EUA quanto o de estados no Brasil têm em comum o tratamento desigual e cruel a seres humanos. E o que é pior: sacrificam crianças e adolescentes por meio de políticas inumanas e segregacionistas.

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Nos EUA, são quase 2,5 mil crianças e adolescentes separados de pais e mães qualificados como imigrantes ilegais, de abril a junho deste ano. Mesmos depois de voltar atrás nestas ações, o governo declarou: “As novas regras só valerão para novos casos. Não haverá retroatividade para casos existentes”. Crianças aprisionadas podem nunca mais encontrar os pais.

No Brasil, 30 crianças e adolescentes são assassinados por dia, de acordo com relatório da Fundação Abrinq. Em 2015 foram quase 11 mil. A agravante é a responsabilidade do Estado nestes assassinatos. As “forças de segurança” paulistas foram responsáveis pela morte de 191 crianças e adolescentes entre 2010 e 2016, o equivalente a dois casos por mês (dados da Secretaria de Segurança Pública).

Só no Rio de Janeiro foram 108 mortes em ações policiais entre janeiro de 2016 e março de 2017, segundo o Instituto de Segurança Pública. O caso de Marcus Vinícius, no Complexo da Maré, se soma a outros tantos no Rio só neste ano. Todos viram estatísticas e as mortes continuam.

Estamos diante de uma realidade perversa, cruel, mas sabemos que ela não é nova. Basta olhar para a história da escravidão, vivida tanto nos EUA quanto no Brasil, e para o que era feito às crianças das famílias escravas. Basta recordar o que o nazismo fez às famílias de judeus e de ciganos.

Atualmente, as ações do governo de Israel contra crianças e adolescentes palestinos que cruzam fronteiras israelenses ilegalmente estabelecidas ou jogam pedras ou xingam soldados daquele país também são violentas, de execuções ao encarceramento arbitrário.

A tradição cristã, baseada no amor, na misericórdia e no acolhimento do outro, incondicionais, sem distinção de gênero, cor, condição social ou nacionalidade, se opõe radicalmente a estas políticas diabólicas. Ela defende a vida em toda a sua plenitude para todos. Quem apoia estas posturas segregadoras, que negam e tiram a vida, não pode ser chamado de cristão. É qualquer coisa menos um seguidor ou seguidora de Jesus.

Por isso, é significativo e renova a esperança tomar conhecimento das ações de cristãos contra estas políticas diabólicas. Nos Estados Unidos, as principais igrejas manifestaram repúdio e pressionam pelo fim das ações perversas contra imigrantes. 

Clérigos e leigos da Igreja Metodista naquele país assinaram uma queixa interna contra o integrante daquela Igreja, Jeff Sessions, secretário de Justiça. Os 600 signatários condenam o papel do secretário na política de “tolerância zero” de separar crianças das famílias.

As acusações alegam abuso infantil, imoralidade, discriminação racial e “divulgação de doutrinas que contrariam as normas da doutrina da Igreja Metodista Unida” (Sessions declarou em público que estava cumprindo a vontade de Deus). Lideranças maiores da igreja enviaram um comunicado pedindo aos legisladores que reunissem as famílias.

O presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA emitiu uma nota condenando a política. Bispos da Igreja Católica articularam uma delegação para a fronteira, a fim de protestar contra tribunais e instituindo “sanções canônicas” para católicos executores das políticas.

A Convenção Batista do Sul também aprovou uma resolução pedindo uma reforma da política de imigração para se manter “a prioridade da unidade familiar”. A Igreja Presbiteriana, a Igreja Episcopal e a Igreja Luterana emitiram declarações assinadas pelos seus líderes criticando a política.

Da mesma forma, outros grupos religiosos, tais como a Sociedade Islâmica da América do Norte, a União do Judaísmo Reformado e líderes budistas afirmaram publicamente suas preocupações. Na terça-feira 19, uma expressiva manifestação denominada “Mulheres de Fé Clamam para Unir Famílias” aconteceu em frente aos escritórios do Setor de Imigração e Alfândega.

Este papel profético em fidelidade aos princípios cristãos é cada vez mais necessário neste mundo de governantes perversos.

No Brasil, a ONG Rio de Paz, coordenada pelo pastor Antônio Carlos Costa, tem cumprido o propósito da solidariedade cristã ativa com os moradores de periferia que são vítimas do sistema violento e com os policiais que são arrastados para ele. Outras organizações cristãs têm atuado e levantado a voz em denúncia contra o extermínio de crianças e adolescentes das periferias.

Há que se avaliar, no entanto, que a voz oficial das principais igrejas diante deste sacrifício de crianças e adolescentes, inclusive na denúncia da crueldade praticada ou justificada por quem se diz cristão, ainda não tem sido suficientemente ecoada em nosso país. 

Recesso 

A partir de 1º de julho estarei em recesso para viagens que envolvem atividades de trabalho e atenção à família. Retornarei aos textos desta coluna em 1º de agosto. Até lá.

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