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Ame o próximo como a si mesmo

Diálogos da Fé

Quero começar este meu segundo artigo explicando que os meus textos tratam e tratarão da visão de um espírita-humanista, que eles nascem a partir das vivências e militância por quais tenho trilhado, tanto no campo religioso (espírita/ecumênico) quanto no campo social e político.

Não são, nem têm a pretensão de ser, a visão do espiritismo, doutrina muito mais ampla, libertária, plural e progressista, organizada e sistematizada por Allan Kardec e que neste ano comemora 161 anos desde o lançamento do Livro dos Espíritos.

Não acho honesto lançar vídeos, escrever livros e fazer palestras, muitas vezes lucrando com isso (sobre esses mercadores-espíritas da fé trataremos em outro momento), afirmando ser a opinião do espiritismo. Não, não é.

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Desci do muro, saí do armário e tomei partido, sempre à esquerda. E que não venham querer nos aprisionar novamente. Não aceitaremos.

Vamos ao tema principal deste artigo: o amor.

Para nós, espíritas, Jesus representa o maior modelo de perfeição e é por meio da prática diária de seus ensinamentos que procuramos estar sempre em harmonia com a criação e todos os seus seres. Foi ele quem resumiu os mandamentos em apenas dois: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

É impossível amar a Deus, como defende o apóstolo João, sem amar aos outros, ainda que esse outro seja pobre, camponês, LGBTI+, esquerdista, abortista, feminista, petralha, comunista, imigrante, estrangeiro, ateu, agnóstico, candomblecista, umbandista… Ou, como canta Sá, Rodrix & Guarabyra: “Mesmo que ele faça barulho, mesmo que ele acorde as crianças de madrugada”.

Seus princípios de amor, perdão, benevolência, tolerância, generosidade, fraternidade, respeito, empatia etc. estão expostos, por exemplo, no Evangelho Segundo o Espiritismo, uma das cinco obras básicas do espiritismo, de autoria de Allan Kardec.

Sua primeira publicação foi em Paris, em 15 de abril de 1864. Dentre todas essas obras, é aquela que dá maior enfoque a questões religiosas, éticas e comportamentais do ser humano. No começo do capítulo XI, item 4, encontramos as seguintes orientações de Allan Kardec a respeito do tema:

Amar o próximo como a si mesmo: fazer pelos outros o que quereríamos que os outros fizessem por nós, é a expressão mais completa da caridade, porque resume todos os deveres do ser humano para com o próximo. (…) A prática dessas máximas tende à destruição do egoísmo. Quando as adotarem para regra de conduta e para base de suas instituições, os seres humanos compreenderão a verdadeira fraternidade e farão que entre eles reinem a paz e a justiça. Não mais haverá ódios, nem dissensões, mas, tão-somente, união, concórdia e benevolência mútua.

Se Jesus baliza (ou deveria balizar) nossas ações e práticas e não fez distinção entre os seres humanos, por que mesmo deveríamos fazer?  

A ideia de amar o próximo é, como se vê, essencialmente prática, traz diretamente o bem a nós próprios e não tem nenhuma relação com religião. Aliás, tenho amigos/as ateus que são muito mais generosos, amorosos e benevolentes do que alguns cristãos com os quais convivo.

Que possamos nos incomodar, nos indignar, mas sem promover uma verdadeira desordem no País e no coração dos/as nossos/as semelhantes.

As redes sociais tem sido uma importante ferramenta para dar vez e voz aos excluídos/as e marginalizados/as históricos/as, mas também tem protagonizado execrações públicas e acusações descabidas, nas quais os interlocutores perdem a capacidade de diálogo, de abertura, de respeito e de reciprocidade.

Notei isso na publicação do primeiro artigo desta seção. Houve quem me ameaçasse e desejasse “um castigo eterno”, querendo desqualificar o articulista e não as suas ideias.

Além de um batalhão de equivocados, ultimamente uma onda de Fake News, perfis falsos e robôs são utilizados para alimentar uma verdadeira indústria do ódio e do desrespeito.

Não podemos pautar nossa luta, seja qual for o nosso ideal, a partir do ódio. Que possamos, ao desencarnarmos, prestar conta das nossas boas atitudes e, tal qual o apóstolo Paulo, poder dizer que combatemos o bom combate e terminamos a carreira guardando a fé em Deus e no nosso semelhante.

Que possamos, antes de fazer a nossa oferta, nos reconciliar com os nossos/as adversários/as.

Nas palavras do pastor batista e ativista pelos direitos humanos Martin Luther King: “Eu decidi ficar com amor. O ódio é um fardo muito grande para carregar”.

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