Diálogos da Fé

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A relação com evangélicos em 100 dias de governo

É equivocado o governo Lula pensar que bastaria deixar evidente que não haverá perseguição religiosa, liberação do aborto e fechamento de templos para que os evangélicos se aproximassem. Será necessário um esforço maior

O presidente Lula. Foto: Evaristo Sá/AFP
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Desde o último texto neste espaço, o governo Lula completou seus primeiros 100 dias e muitas análises foram compartilhadas sobre esse início de mandato. Ainda que essa marca simbólica tenha passado, vale a pena fazer um balanço do que foi a relação do atual governo com evangélicos no período.

Antes de avançarmos, contudo, é importante traçar um quadro geral sobre como estava a relação dos evangélicos com Lula e o PT antes de o governo começar. Segundo dados da pesquisa DataFolha divulgada na véspera do segundo turno, Lula contou com apenas 31% dos votos válidos dos evangélicos, enquanto Bolsonaro obteve 69% destes. Essa votação foi reflexo de uma aproximação sem paralelos entre Bolsonaro e líderes evangélicos ao longo da sua atuação política e, mais especificamente, do seu mandato.

Entender essa situação é importante, pois dá um ponto de partida e uma referência para nossa análise.

Temos que as pesquisas do início de abril mostram um cenário em que os evangélicos, comparados com o restante da população, avaliam pior o governo. Segundo o DataFolha, a porção de evangélicos que define a atual gestão como ótima ou boa é de 28%, enquanto entre os católicos esse número é de 45% e, na população geral, é de 38%. Já os evangélicos que acham o governo ruim ou péssimo somam 35%, dez pontos percentuais a mais do que no estrato católico.

Num primeiro olhar, são números que chamam a atenção. No entanto, considerando a situação que vem desde antes do início do governo, o que tais índices nos dizem é que, simplesmente, a dificuldade do PT com os evangélicos se manteve. E seria inusitado pensar que a situação poderia mudar radicalmente em tão curto espaço de tempo.

Ainda que os números mostrem um quadro de estabilidade, há certas nuances que devem ser notadas. A principal delas talvez seja a de que Lula deixou de ser atacado por lideranças evangélicas. Seria uma aposta razoável, aliás, pensar que os líderes evangélicos estariam esperando os efeitos do período eleitoral passar e o clima abaixar para se aproximarem do novo governo. Afinal, haveria interesse mútuo para isso: do lado das lideranças, a aproximação com o poder poderia render ganhos, e do lado do governo há uma óbvia demanda por melhores índices de aprovação no segmento. Segundo essa lógica, a aproximação entre governo e evangélicos seria apenas uma questão de tempo. Com os ânimos arrefecidos após um período eleitoral tão intenso, ela aconteceria.

Há, no entanto, sinais de que essa equação estaria desconsiderando termos importantes. Um rápido exame sobre as redes sociais evangélicas mostra que esse segmento segue reverberando o mesmo tipo de conteúdo do bolsonarismo. Fake news e toda sorte de críticas ao governo feitas por perfis bolsonaristas são encontrados entre usuários evangélicos, o que indica que esse grupo continua consumindo informação sobre o governo vinda da rede informacional bolsonarista.

Portanto, é equivocado o governo contar que bastaria deixar evidente que não haverá perseguição religiosa, liberação do aborto e fechamento de templos para que os evangélicos se aproximassem. Será preciso um esforço maior, envolvendo toda a estratégia de comunicação do governo. Estratégia que, aliás, parece até o momento não existir

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