Diálogos da Fé

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Onde ficam os valores cristãos em meio a essa crise climática e humanitária?

Teremos de prestar contas às gerações futuras: onde está nossa força de luta em um momento de necessidade extrema como este?

Bairro São José, em Lajeado (RS), em 16 de maio de 2024. Foto: Nelson Almeida/AFP
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A situação extrema que tem sido enfrentada pelo Rio Grande do Sul em meio às devastadoras chuvas tem trazido à tona diversas questões sobre as quais precisamos refletir e agir. Poderíamos analisar os acontecimentos a partir de muitas perspectivas, desde atos recorrentes de irresponsabilidade administrativa, que por anos têm alocado verbas públicas de maneira inadequada, até os infelizes pronunciamentos do atual governador do referido estado. Afinal, o líder do governo local, mesmo em meio ao caos instaurado, insiste em sustentar uma mentalidade neoliberal que supervaloriza o lucro e mercadoriza a vida.

Se atentarmos para as análises que as mais diversas lideranças de comunidades tradicionais têm feito e disponibilizado nos meios de comunicação há tempos, perceberemos que, na verdade, o que a crise climática descortina diante dos nossos olhos é uma crise humanitária sem precedentes. A vivência nos territórios conforme temos experimentado nas últimas décadas causou e continua causando danos irreversíveis. Pior: a mentalidade que foi implantada em nós pelo capitalismo é tão resistente e ilusória que não nos deixa perceber o quão predatórias são as ações individuais e coletivas dos que vivem seus dias sem se importar em absoluto com a terra que tudo nos dá para existirmos.

O processo de tomada de consciência dos multifatores que arrasam nosso ambiente de vida tem acontecido tardiamente e em apenas alguns segmentos da sociedade. Isso é extremamente preocupante, pois já estamos no ponto sem volta, ou seja: vivemos no momento da história quando o que podemos fazer é tão somente diminuir o alcance das catástrofes, pois essas já se tornaram inevitáveis a nível mundial.

Na macabra equação que une exploração desenfreada dos recursos naturais, fome insaciável por lucro, permissividade dos que controlam o jogo político e lucram com as ações destrutivas do agro, do crescimento urbano não planejado, do desmatamento e do garimpo criminoso, dentre outros fatores, quem se beneficia são os que têm condições de sair dos territórios afetados facilmente. Estes podem reconstruir suas vidas abastadamente, como se a tragédia fosse uma lembrança incômoda do passado.

Muitos dos que estão em contato direto com as decisões que causarão impacto decisivo no destino dos locais afetados e seus moradores sequer residem na região. Não sabem o que significa ter de dormir em estádios lotados e precários e depender da boa vontade de estranhos para receber doações que garantam a sobrevivência e o mínimo de dignidade humana. Esta é a real condição que tem sido enfrentada pelos que estavam enraizados no bioma dos pampas, que hoje, neste instante, por consequência da ganância inflada pelo capital, se tornou cinematograficamente assustador, um pesadelo de destruição tal qual nunca antes visto. Terra arrasada.

Infelizmente, essa crise humanitária que se traduz na política se arrasta há décadas e, pelo que parece, prosseguirá assim, devido ao fato de que não há investimento na adequação das pautas que tramitam nas casas legislativas às necessidades reais do território e de seus habitantes Os corpos que realmente sofrem quando têm de se deslocar por causa dos desastres naturais, são os corpos dos que estão na periferia da economia, povos originários e demais comunidades tradicionais que vivem na terra há séculos, dela cuidam com zelo familiar e que ainda são tratados como marginais desse sistema que prefere riquezas e status à vida.

Sabemos que as grandes corporações internacionais têm sua parcela de culpa, mas há uma responsabilidade que recai sobre nós. Teremos de prestar contas às gerações futuras: onde está nossa força de luta num momento de necessidade extrema como este? Uma vez detectada que a raiz de tantos malefícios ao nosso bioma é a famigerada estrutura do capitalismo, onde estão nossas vozes que não protestam e buscam se organizar para se contrapor a esse presente estado de coisas?

O que temos averiguado é o oposto: há um crescente contágio de desinformação climática, com notícias falsas plantadas e multiplicadas nas redes sociais por negacionistas das realidades ambientais e entidades interessadas em teorias da conspiração. Estas, em última análise, servem como cortina de fumaça para que os reais problemas não sejam resolvidos.

Dentre os desafios que precisamos encarar e solucionar com urgência vital está a revisão legislativa de maneira que esta abarque os seis biomas do Brasil como sujeito de direitos. Isto, tendo em vista as mudanças climáticas e o descaso dos governos em não legislar objetivamente. Ainda há a falta de ação do poder público de encaminhar o montante de verbas adequadas para que sejam eficientes os projetos de preservação da saúde ambiental dos territórios ameaçados e as ajudas humanitárias fundamentais para socorrer a população em meio às catástrofes.

É de esmagar o coração perceber que, em meio a toda tragédia vivida em nosso País neste momento, muitos têm tentado se beneficiar utilizando-se de estratégias perversas. Entre elas, estão o desvio de recursos que, em tese, seriam encaminhados aos necessitados, investimento na rede de divulgação de desinformação, autopromoção a partir da calamidade alheia e fraudes de iniciativas que ajudariam os que perderam tudo. Definitivamente, temos uma crise humanitária gritante e cabe a nós repensar os rumos que temos escolhido nessa sociedade.

Porém, quero finalizar essas linhas com um tom de encorajamento. Na contramão da desesperança, temos notícias de inúmeros movimentos sociais de todo o País que não têm poupado esforços para alcançar, alimentar, vestir e cuidar dos milhões de desabrigados. Como uma lufada de vento fresco em dia quente de verão, incontáveis manifestações de solidariedade, empatia e desejo de colaborar com a reconstrução das vidas afetadas têm jorrado pelas redes sociais para nos lembrar que ainda resta sob as cinzas de uma sociedade cada vez mais indiferente e individualista.

Estes indicativos mostram que há um renovo capaz de reescrever a história do nosso País a partir de outras intenções que não o lucro pelo lucro. Ainda podemos contar com uma brava gente brasileira que contraria as expectativas do capitalismo e une as mãos para mudar os terríveis prognósticos de uma crise climática apocalíptica, gente que acredita e faz acontecer.

Nada me demove da certeza de que esse é o antídoto para a crise humanitária que provoca a crise ambiental. Que reverberem longe as palavras que são sementes capazes de transformar mentalidades, curar corpos e almas feridas pela devastação e reverdecer nosso mundo.

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