A instrumentalização da religião nas novas relações Brasil-Israel

Bolsonaro compromete o frágil Estado laico brasileiro e instrumentaliza a religião em nome de ideologias e causas políticas nada evangélicas

A instrumentalização da religião nas novas relações Brasil-Israel

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Jair Bolsonaro termina nesta quarta-feira 3 uma visita a Israel. Nela, o presidente tenta se equilibrar entre o cumprimento de uma promessa de campanha e a diplomacia com países árabes.

A promessa foi a de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém para agradar evangélicos judaizantes. É também uma afinação à política externa dos Estados Unidos a quem Bolsonaro submete o Brasil. Donald Trump implementou a transferência da embaixada estadunidense em maio de 2018, respondendo a uma forte campanha de evangélicos do seu país. Isto influenciou, na época, a Guatemala, cujo presidente evangélico fez o mesmo.

A transferência é um gesto político que afirma Jerusalém como capital de Israel, na contramão da compreensão e dos acordos que envolvem as Nações Unidas e a maioria dos países. Eles que reconhecem a cidade, também reivindicada como capital por palestinos, como sagrada para judeus, cristãos e islâmicos.

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Em meio às pressões diplomáticas, Bolsonaro recuou, por hora, da promessa de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém. Anunciou, ao invés, sob crítica de religiosos, a criação de um escritório de negócios.

A política externa brasileira, historicamente, buscou equilíbrio em relação ao conflito entre israelenses e palestinos, e respeito aos tratados internacionais. Porém, o presidente eleito tem promovido uma aproximação sem precedentes com Israel, motivado, em especial, pela força de grupos evangélicos.

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Em busca do voto evangélico

Em 2016, Jair Bolsonaro, um católico em busca do voto evangélico, transferiu-se para o PSC e foi batizado em Israel, nas águas do Rio Jordão, pelo presidente do partido, Pastor Everaldo. Muita gente acreditou que ele tinha se tornado evangélico ali, mas apenas era o desenho da promessa de campanha para conquistar o voto religioso dos grupos judaizantes pró-Israel.

Que grupos são esses? De um modo geral, na compreensão mais tradicional dos evangélicos no Brasil, baseada na leitura da Bíblia, Israel é o povo escolhido de Deus, um povo especial. É a interpretação desta leitura que se dá de forma diferenciada. Alguns grupos leem que, com a vinda de Jesus, o Antigo Testamento da Bíblia precisa ser relido à luz dos evangelhos e a compreensão sobre o povo escolhido se amplia e este passa a ser os seguidores de Jesus, a Igreja. Outros leem as profecias bíblicas de que a restauração do mundo por Deus se dará quando Israel estiver plenamente assentado em sua terra e compreendem que a formação do Estado de Israel em 1948 foi o início da realização delas. Portanto, quando o povo eleito tomar plenamente toda a terra que lhe pertence, reconhecerá nela, finalmente, Jesus como o Messias, Deus restaurará o mundo e salvará seus seguidores.

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Este segundo grupo se localiza mais fortemente entre os evangélicos das diferentes denominações pentecostais, apesar de também encontrarmos este tipo de compreensão entre alguns grupos tradicionais.

A questão é que há uma carga ideológica fortíssima nesta concepção. É uma leitura bíblica descontextualizada que propaga que o Israel reconstituído em 1948 é o mesmo Israel da Bíblia. Desconsidera-se o povo palestino e os demais povos daquele território que não saíram em diáspora e também pertencem à tradição narrada na Bíblia. Desconsidera-se ainda as misturas provocadas pelas transformações geopolíticas em tantos séculos: quem ficou e quem saiu em diáspora passou por mudanças. Há outras desconsiderações histórico-críticas. Com isso, estes grupos religiosos credenciam equivocadamente o atual Estado de Israel como se este fora o Israel bíblico e apoiam incondicionalmente suas ações e políticas, ainda que sejam genocidas em relação aos palestinos, alvo maior da conquista territorial em jogo.

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Inversão de papéis

Nesta perspectiva teológica-ideológica emergem as práticas judaizantes no cristianismo evangélico que se configura num apego maior à leitura do Antigo Testamento, onde estão as narrativas e ensinamentos religiosos do Israel bíblico. Isto resulta numa diminuição da figura de Jesus, de seus princípios de despojamento e misericórdia e do símbolo da cruz. Ao invés, passa a predominar a figura do rei Davi, fundador de Jerusalém, suas práticas milicianas de ocupação de terras, símbolos da monarquia como trono, domínio, riquezas, a imagem de Deus como Senhor dos Exércitos, o Templo de Salomão.

Estas práticas judaizantes se manifestam nas linguagens visual e musical, com bandeiras de Israel decorando altares, na pregação religiosa e se materializa na conhecida Teologia da Prosperidade. O ensino é que fiéis alcançam a prosperidade em termos de bens, saúde, felicidade na família, a partir do que realizam para Deus, seja por meio de ofertas financeiras às igrejas e pela quantidade/qualidade das orações e de frequência às atividades religiosas. Uma adequação religiosa à ideologia do capitalismo baseado na troca e na meritocracia (mas sobre isto é preciso um outro artigo). Nesta lógica, Deus retribui na medida do que recebe. Esta era a ênfase do judaísmo que predominava no tempo de Jesus e que foi questionado por seu movimento religioso.

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Ao privilegiar Israel e os Estados Unidos nas relações externas do Brasil e manter a promessa da transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, Jair Bolsonaro compromete ainda mais o frágil Estado laico brasileiro e instrumentaliza a religião em nome de ideologias e causas políticas nada evangélicas.

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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