Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Entre Lula e Ciro, Aécio tenta sobreviver no jogo

O problema é que o jogo mudou, as peças mudaram e ele próprio já não é o mesmo

Entre Lula e Ciro, Aécio tenta sobreviver no jogo
Entre Lula e Ciro, Aécio tenta sobreviver no jogo
Presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG). 14/12/2106. Crédito: Gerdan Wesley
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Eleições 2026

Quem acompanha o noticiário político voltou a se deparar com entrevistas do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG). O ex-governador de Minas deixou as sombras para tentar garantir aos tucanos alguma sobrevida.

Aécio disse que vai esperar até junho para decidir se será candidato ao Senado e, enquanto isso, mantém agenda com nomes que se colocam ou são cotados para a disputa estadual. Elogiou o senador Rodrigo Pacheco (PSB), tratado pelo presidente Lula (PT) como o nome preferido para o governo de Minas, e também reuniu-se com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), a quem chamou de “muito bem intencionado”.

Ao mesmo tempo, fez críticas duras a Romeu Zema (Novo) e ao governador Mateus Simões (PSD), afirmando que Minas ficou fora das grandes discussões nacionais durante a gestão do Novo.

Detalhe: para o público que Zema e Simões cortejam, ser criticado por Aécio pode funcionar quase como selo de autenticidade. Assim como o arranca-rabo recente com o ministro Gilmar Mendes acabou sendo providencial para Zema. Se o Supremo virou o inimigo preferencial de parte da direita, Aécio carrega no rosto as rugas da velha política que esse mesmo público diz rejeitar.

O ponto mais delicado, contudo, está na conversa com Pacheco. O senador, que recentemente se filiou ao PSB, ainda não confirmou se disputará o governo, mas é o nome preferido de Lula em Minas. Aécio pode tentar uma vaga ao Senado em uma composição associada a ele.

Seria uma engenharia curiosa: o tucano que se tornou símbolo da oposição a Dilma em 2014 e sovou a massa do antipetismo pode agora caminhar, ainda que por atalhos, no entorno do palanque montado por Lula no estado.

O próprio Aécio mede as palavras. Disse à Rádio Itatiaia que uma aliança com o PT é “difícil, mas não impossível”. Do lado petista, a hipótese divide opiniões. Marília Campos afirmou que “cabe” Aécio na chapa. Já o deputado Rogério Correia disse que o PT não vai subir no mesmo palanque que o tucano.

Uma saída possível — e tipicamente tucana — seria o arranjo híbrido: o PSDB lança chapa própria, com Aécio ao Senado, e apoia Pacheco informalmente, sem aderir ao palanque nacional de Lula. Um pé em cada canoa.

Falta combinar com os mineiros e, principalmente, com os petistas, que ainda guardam na memória o governo Aécio e o nível rasteiro da campanha contra Dilma em 2014. Mas – como já escrevi aqui nesta CartaCapital – em Minas, o PT odeia o petismo.

Não seria a primeira gambiarra entre tucanos e petistas no estado. Em 2008, Aécio, então governador, e Fernando Pimentel, então prefeito de Belo Horizonte, apoiaram juntos Marcio Lacerda (PSB) para a prefeitura. A aliança rachou o PT, enfrentou resistência nacional e venceu a eleição.

Dois anos depois, em 2010, o fenômeno apareceu de forma ainda mais explícita. No interior de Minas, santinhos tucanos trocaram o nome de José Serra e saíram com o número 13 de Dilma Rousseff. Era o “Dilmasia”: Dilma para presidente, Anastasia para governador.

Boa parte do eleitorado mineiro votava no PT para o Planalto e no PSDB para o governo do estado sem sentir contradição. Antes disso, em 2006, já havia o “Lulécio”, quando Lula foi reeleito presidente, enquanto Aécio também se reelegia governador em Minas, consolidando uma convivência pragmática.

A diferença é que, naquele tempo, Aécio dava as cartas. Governava Minas, elegia sucessor e se apresentava como presidenciável. Agora tenta voltar após uma década de queda.

Em 2014, enfrentou Dilma Rousseff e saiu das urnas com 51 milhões de votos, contra 54 milhões da petista. Não aceitou o resultado e o PSDB ingressou no Tribunal Superior Eleitoral com ação para cassar a chapa Dilma-Temer, ajudando a alimentar a desconfiança sobre o sistema eleitoral. Anos depois, esse ambiente seria explorado com mais radicalidade pelo bolsonarismo.

Aécio não apenas perdeu a eleição. Perdeu o lugar que imaginava ocupar. O antipetismo que ajudou a organizar foi capitalizado por Jair Bolsonaro (PL). O PSDB deixou de ser a principal força de oposição e passou a buscar uma identidade que nunca mais encontrou. Em São Paulo, perdeu o governo após quase três décadas. Em 2010, governava oito estados. Hoje, não governa nenhum.

O desgaste pessoal completou o quadro. Em 2017, as delações da JBS levaram a Procuradoria-Geral da República a denunciá-lo sob acusação de solicitar 2 milhões de reais a Joesley Batista. O Supremo determinou seu afastamento do mandato e o recolhimento noturno, depois revertidos pelo Senado. Em 2022, foi absolvido da acusação de corrupção, mas o dano político já estava feito.

Houve ainda o episódio do aeroporto de Cláudio (MG), revelado pelo jornalista Lucas Ferraz durante a campanha de 2014 em reportagem da Folha de S. Paulo. O governo mineiro construiu, ao custo de 14 milhões de reais, uma pista em terreno ligado a um tio-avô de Aécio. O tucano admitiu ter usado o local e classificou o caso como um equívoco.

Os números eleitorais mostram a perda de escala. Em 2018, foi eleito deputado federal com 106 mil votos. Em 2022, reelegeu-se com 85 mil. Para quem já teve 51 milhões de votos, a mudança de patamar é evidente.

O Aécio de 2026 não é apenas o ex-governador que venceu duas eleições em Minas. É também o candidato derrotado de 2014, o articulador da contestação pós-eleitoral, o político atingido pela JBS e o presidente de um partido que luta para não desaparecer.

No plano nacional, tenta outra operação. Convidou Ciro Gomes para disputar a Presidência pelo PSDB e passou a defender uma candidatura fora da polarização. Ciro não recusou, mas também não aceitou. Disse que construía uma alternativa ao governo do Ceará e que o convite precisava ser amadurecido.

Em Brasília, tenta construir uma terceira via contra Lula e contra o bolsonarismo. Em Minas, negocia com o candidato preferido de Lula. Critica o “lulopetismo” no plano nacional, mas defende diálogo com o governo federal quando o assunto é Minas.

O político que já comandou o tabuleiro mineiro agora tenta provar que ainda tem lugar nele. O problema é que o jogo mudou, as peças mudaram e o próprio Aécio já não é o mesmo. Resta saber se ainda há espaço para repetir o Lulécio do início do século.

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