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Nuvens turbulentas

A cinco meses da disputa, não se sabe ao certo quais serão os candidatos ao governo do estado

Nuvens turbulentas
Nuvens turbulentas
Páreo. Os senadores Cleitinho e Pacheco lideram as pesquisas. Kalil corre por fora. Aécio Neves é a estrela da sequência A Volta dos Mortos-Vivos – Imagem: Andressa Anholete/Agência Senado, Alessandro Loyola/PSDB na Câmara, Amira Hissa/Prefeitura de Belo Horizonte e Carlos Moura/Agência Senado
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Uma das célebres frases de Magalhães Pinto ressoa em Minas Gerais neste momento. “Política é como nuvem”, dizia o ex-ministro. “Você olha e está de um jeito, olha de novo e ela já mudou.” A praticamente cinco meses das eleições, as nuvens na disputa mineira estão turbulentas. E indecifráveis. Quantos e quais serão os candidatos em outubro é pergunta em aberto. Pesquisa AtlasIntel divulgada em 1º de abril coloca os senadores Cleitinho Azevedo (Republicanos), com 32,7%, e Rodrigo Pacheco (PSB), com 28,6%, em situação de empate técnico. Apesar dos bons números, nenhum dos dois parlamentares ainda oficializou a candidatura, o que mantém o cenário completamente indefinido e afeta a composição das chapas.

Em terceiro aparece o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), com 11,7% das intenções de voto. Kalil tenta viabilizar-se como alternativa e criar pontes com diferentes espectros políticos, do PT à federação Rede/PSOL, além de setores do centro-direita, como o PSDB de Aécio Neves. O discurso de terceira via enfrenta, porém, obstáculos internos. O PDT pode optar por um alinhamento nacional com Lula, o que inviabilizaria a candidatura do ex-prefeito. Depois de abrir mão de um nome próprio no Rio Grande do Sul para apoiar Juliana Brizola, a cúpula petista cobra reciprocidade do PDT e quer que a legenda em Minas adira à candidatura de Pacheco.

Na disputa pela sucessão de Romeu Zema, pré-candidato à Presidência da República, o atual governador, Mateus Simões, do PSD, soma a esta altura raquíticos 6,2%. Simões é descrito por aliados como um político de pouca habilidade­ de articulação, ríspido até mesmo com interlocutores próximos e que tenta impor-se “na marra” como liderança em um campo fragmentado. Apesar de defender a unificação do bolsonarismo com o Centrão, enfrenta resistências públicas porque se coloca como cabeça de chapa em qualquer cenário. “Não há nenhum acordo para o apoio do PL ao governo do estado”, afirmou o deputado Nikolas Ferreira, o mais votado do Brasil, evidenciando fissuras no bloco bolsonarista.

Enquanto Zema mira a candidatura ao Palácio do Planalto, a extrema-direita se fragmenta. Mateus Simões se vê obrigado a ser fiel ao ex-governador e descartar o apoio a Flávio Bolsonaro, ao menos no primeiro turno eleitoral. O PL, de Bolsonaro, ainda não tem candidato próprio.  A inabilidade política do governador em exercício tem causado rusgas com o Partido Republicanos de Cleitinho, que coloca em dúvida a lógica de ter de renunciar à disputa em favor de Simões. “Se a direita tem de estar unida, por que o governador não pode me apoiar?”, pergunta o senador. Nos bastidores, o PSD e o Republicanos mantêm canais de diálogo, não descartam uma composição que envolva a família Azevedo e afirmam que trabalham para que ela se concretize. Nessa hipótese, o irmão gêmeo de Cleitinho, Gleidson Azevedo, que renunciou ao cargo de prefeito de Divinópolis para colocar seu nome à disposição do Republicanos, seria indicado como vice de Simões.

Outro ponto é a indecisão de Pacheco. Apesar do entusiasmo do presidente Lula, o senador ainda não disse sim no altar das candidaturas. A negociação envolve a possível adesão de partidos como União Brasil e PP à chapa, além de variáveis externas, como a abertura de uma vaga no Supremo Tribunal Federal, o que retarda as decisões.

Pacheco ainda não bateu o martelo. Aécio Neves quer renascer das cinzas

A pesquisa AtlasIntel ainda aponta nomes com menor densidade eleitoral, entre eles Gabriel Azevedo, com 4%, e o influenciador de extrema-direita Bem Mendes, com 3,7%. Azevedo aposta em um discurso conciliador. “Serei um candidato paz e amor. Aprendi que o eleitor mineiro não aprova candidato que só faz denúncia. Em Minas, vale mais a conciliação.” Sua candidatura é, porém, ameaçada pela ascensão de Tadeu Martins Leite, do MDB, apesar de sua recente indicação ao posto de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Colegas de Parlamento, inclusive do PSB de Pacheco, destacam a capacidade de diálogo de Tadeuzinho. O emedebista é mencionado como alternativa, caso o ex-presidente do Senado desista, e conta com o apoio da direita e da esquerda. “As lideranças regionais, os prefeitos e até a oposição apoiam Tadeuzinho para governador”, diz Noraldino Júnior, deputado estadual pessebista.

Na disputa ao Senado, Marília Campos (PT), Carlos Viana (Podemos), Domingos Sávio (PL) e Kalil (PDT) reúnem a maioria das citações nas pesquisas. A aventada entrada de Aécio Neves na disputa­ adicionou nova camada de complexidade ao cenário. Ao cabo, Aécio busca ampliar o arco de alianças, incluídos setores lulistas, para compor uma chapa ao lado de Pacheco. O tucano, comenta-se, não aceitaria ser vice, tampouco pensa em renovar o mandato de deputado federal. Resta saber se essa postura de última Coca-Cola do deserto condiz com a realidade de um personagem tragado pelas ambições desmedidas.

Em busca de um voo mais longo, o “morto-vivo” tucano cava apoios na direita e até no PT. Uma aliança com o PSDB arrepia, no entanto, alas petistas do estado. “Se o partido optar por essa aliança, estarei fora”, indigna-se Pedro Rousseff, sobrinho-neto da presidenta Dilma, candidato a deputado­ federal e aposta de renovação da legenda. Em contraponto, ­Marília ­Campos, exímia articuladora, admite a possibilidade. “Cabe ao candidato a governador montar a melhor aliança, mas aceito a indicação de Aécio”, afirma. “Ele cometeu uns escorregões, mas são perdoáveis.” As divergências no partido são evidentes. “Não existe qualquer discussão sobre isso”, declarou Gleide Andrade, secretária nacional de Finanças do PT. Já o deputado federal Rogério Correia foi mais contundente: “Quem descarta Aécio é Minas. Que vá se juntar ao bolsonarismo. Os gambás que se cheirem”. Entre raios e trovões, as nuvens mineiras da política se movimentam. •

Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Nuvens turbulentas’

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