Blog do Sócio

Nos gramados da República

A lógica futebolística do ‘meu contra o teu’ tão bem utilizadas pelos seguidores de Bolsonaro acaba por permear até mesmo os setores que se colocam como progressistas

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A final da Libertadores da América no último 27 de novembro foi vencida pela equipe do Palmeiras. O Flamengo, vice, pereceu diante dos alviverdes do alto da empáfia do treinador Renato e da diretoria, que parece não saber o como gestar o clube. Para além da gestão e dos 120 minutos de jogo, chama atenção o volume de guturais xingamentos e desfiles de ódio contra um ou outro time. É coisa do jogo, tradição futebolística que mexe com paixões e provoca reações exacerbadas. Problema mesmo é quando essas reações são emplacadas nos gramados da República.

Desde meados de 2016 o país entrou em uma espiral de caos político e social que culminou na tão falada polarização entre PT e Bolsonaro. E é ao governo Bolsonaro, que nunca deixou o ritmo de campanha, que a tal polarização mais interessa: sem ela, dificilmente teria conseguido alguma base para se colocar como opção em 2018 – em momento algum as qualidades duvidosas de Bolsonaro foram motivo para voto mas tão somente ser o avesso do PT. E é com os sequenciais e ininterruptos desastres e escândalos promovidos por Bolsonaro e seus sequazes que Lula tende a se beneficiar, afinal de contas é muito positivo ser o oposto a um governo que retrocede aos avanços econômicos e sociais conseguidos nas últimas décadas.

Contudo, a lógica futebolística do “meu contra o teu” tão bem utilizadas pelos seguidores de Bolsonaro acaba por permear até mesmo os setores que se colocam como progressistas. Cegos e enclausurados em suas convicções, eleitores de Ciro Gomes e Lula se digladiam ao ponto de irracionalmente tentarem anular as qualidades e feitos do adversário para sustentar suas teses. Se fosse em uma partida de futebol, as duas torcidas reclamariam pênaltis inexistentes enquanto deixam de atentar para os espaços vazios deixados pelo próprio time.

Entre os próprios políticos, Ciro Gomes decidiu partir para o tudo ou nada, o ataque voraz que abriu mão de fazer em 2018. No PT muitos membros aceitam o jogo e partem no contra-ataque, enquanto Lula prefere cadenciar o jogo, colocar a bola no chão e seguir sua própria estratégia. Ciro, é claro, têm seus motivos para atacar o PT, vide o chapéu que afirma ter tomado em 2018 (e que Delfim Netto confirma), mas toda a exposição que permite ao ir com tudo para o ataque parece não estar compensando de acordo com as últimas pesquisas de intenção de voto.

As duas torcidas rivalizam, bradam alucinadas uma contra a outra, sem perceber que neste jogo estão do mesmo lado. Está longe de ser momento de lavar roupa suja em público ou de desqualificações mútuas enquanto ambos mais cedo ou mais tarde terão de enfrentar o adversário que se alimenta somente de conflito. Hoje Lula e o PT se beneficiam disso, mas é preciso estar atento e matar o jogo sem dar a chance para o real adversário reagir em casa – ou no segundo turno.

Alexandre Douvan
Jornalista, assinante de CartaCapital

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