Opinião

A Libertadores da América e o sentido da colonização

Em vez de repetir lugares-comuns, o técnico Abel Ferreira fez duras críticas ao futebol brasileiro

O treinador português colocou o dedo na ferida
O treinador português colocou o dedo na ferida

Em pouco mais de um ano de trabalho, Abel Ferreira já deixou sua marca na história do futebol brasileiro, não apenas pelas conquistas, mas por uma rara característica: o técnico português insiste em demonstrar que tem algo a dizer e não apenas para os seus jogadores.

A entrevista concedida após a conquista da Libertadores da América, pela segunda vez em 9 meses, sublinhou a crítica aos juízos instantâneos e binários, que a cada rodada e resultado consagram e condenam “heróis e vilões” ou “gênios e babacas”. Para o espanto da audiência, Abel apresenta resistência tanto ao “está tudo errado” após uma derrota quanto ao “está tudo certo” após a vitória.

Mantendo a coerência, outra excentricidade de Abel, a coletiva após a conquista do título, usualmente um desfile sobre predileção divina nos agradecimentos feitos “primeiramente”, comentários cordiais e exaltações individuais, foi ocupado por duras críticas a problemas estruturais da organização do futebol brasileiro. Abrimos aspas para o treinador:

“Há muita margem para melhorar no futebol brasileiro. O calendário é insano! É desumano, para mim! Eu não consigo estar a jogar: jogo, descanso, jogo! Eu não consigo estar na minha máxima capacidade, na minha máxima força, na minha máxima energia. É desumano o que fazem aqui! Se quiserem crescer vamos ter de abdicar da ida e volta, temos que tirar espaço para podermos descansar e proporcionar bom jogo”.

A rotina de jogos chegou a fazer do Palmeiras o time que mais jogou no mundo em meados deste ano, serão 91 partidas até o final de 2021. O moralismo que aponta os altos salários como compensação ao elevado número de jogos deixa escapar o alerta de Abel sobre o que produz o futebol brasileiro.

As renúncias pessoais, como privações do convívio com seus familiares pela rotina de viagens e jogos, podem despertar mais ou menos empatia de acordo com as inclinações de cada um, mas a impossibilidade de atuar na capacidade máxima, pelos limites à preparação antes e durante a temporada, denuncia a não entrega do que o espectador de futebol espera consumir: a disputa do esporte em alta performance.

O campeonato Libertadores da América foi batizado em memória e homenagem àqueles que libertaram os povos sul-americanos de seus colonizadores, os parteiros das nações do nosso continente. Ironicamente, nos últimos três anos o campeonato foi conquistado por técnicos de origem portuguesa.

Desafortunadamente, as proclamações de independência, rupturas mais ou menos violentas em cada país, não foram suficientes para promover as alterações econômicas e sociais capazes de proporcionar a desejada autodeterminação dos povos sul-americanos.

O conceito de “sentido da colonização” foi elaborado por Caio Prado Jr. para descrever uma estrutura econômica voltada ao atendimento do exterior, em detrimento do seu próprio povo. Apresenta a formação econômica do Brasil como um desdobramento da expansão ultramarina europeia.

A condição periférica e dependente está associada à atividade produtiva exportadora de matéria prima para as metrópoles que a demandam, inviabilizando o surgimento de uma organização nacional.

Pode parecer inverossímil para os mais novos que ambicionam, como torcedores ou jogadores, vestirem a camisa dos grandes clubes europeus, mas em outra era, quando a economia brasileira se empenhava em endogenizar seu polo dinâmico na tentativa de enfrentar sua condição periférica e dependente, clubes brasileiros excursionavam pela Europa para apresentar os melhores jogadores do mundo.

O declínio aproximou a lógica econômica dos clubes de uma atividade extrativista. A receita essencial para a viabilidade financeira depende da venda dos melhores e mais promissores jogadores para os principais centros mundiais do futebol, onde serão agregados a um produto de maior valor, campeonatos comprados e assistidos em todo o globo.

Tempo houve, no entanto, em que os percalços que ora nos atormentam estavam sepultados sob as forças de uma cultura que celebrava nossas esperanças. Assim nos ensinou Carlos Drummond de Andrade em seu livro de crônicas Quando é Dia de Futebol: “Do Jeca Tatu de Monteiro Lobato ao esperto Garrincha e a esse fabuloso menino Pelé, o homem humilde do Brasil se libertou de muitas tristezas. Já tem caminhos abertos à sua frente e já sabe abri-los, por conta própria, quando não é assistido pelos serviços oficiais ou de classe a que cumpre melhorar as condições de vida coletiva. O futebol trouxe ao proletário urbano e rural a chave ao autoconhecimento, habilitando-o a uma ascensão a que o simples trabalho não dera ensejo.”

Escorado em suas esperanças, o Brasil foi generoso na geração de jogadores universais, os gênios da bola que todo torcedor gostaria de ter no seu time. O que importa para o torcedor universal – aquele que não só é adepto de um time, mas apaixonado pelo jogo da bola – é o prazer de desfrutar a arte do jogador universal.

O jogador universal não é o virtuose do drible desconcertante, mas o descobridor de espaços ou, como dizem os boleiros, “o cara que lê o jogo”. Pois o craque de então era o virtuose que “lia o jogo”, assim como o brasileiro perscrutava o seu futuro

Escorado nessas esperanças, nosso poeta Carlos Drummond de Andrade assim escreveu em sua coluna no jornal Correio da Manhã. Escreveu para celebrar a conquista da Copa do Mundo de 1958, aquela que nos redimiu das tristezas do Maracanazo de 1950. Para o poeta, o futebol exprimia a autoconfiança do povo em si mesmo.

O modelo que busca vender um espetáculo escasso e de alta qualidade é lugar comum nas ligas esportivas e campeonatos mais rentáveis do mundo. A Premier League teve sua temporada passada de 12/09/2020 a 16/05/2021. A La Liga teve início em 12/09/2020 e terminou em 23/05/2021. A Liga dos Campeões da UEFA ocorreu de 8/08/2020 a 29/05/2021. A NFL foi de 9/09/2020 a 13/02/2021 e a NBA de 02/12/2020 a 22/07/2021.

]Não é possível analisar o futebol alienado da condição econômica da sociedade. A renda per capita de um país seguramente apresenta alto grau de determinação nas receitas auferidas pelo clube, mas a fala do técnico português aponta para o incontornável paquiderme no meio da sala: “há muita margem para melhorar no futebol brasileiro e o calendário é insano!”.

Os clubes brasileiros mais exitosos nos últimos anos foram capazes de diversificar suas receitas e até importar talentos, jogadores ou técnicos, repatriados ou de outra nacionalidade, mas a distância para os times europeus ainda é abissal. É comum ser abatido pela sensação de assistir esportes diferentes ao ver um jogo de campeonato local após uma partida de um campeonato europeu.

Ainda que a opinião destes autores esteja encharcada de interesses palestrinos, a permanência de uma figura como Abel Ferreira será (no futuro do presente e não do pretérito) benéfica não apenas ao Palmeiras, com ideias geniais como inverter Gustavo Gómez e Luan, colocar Gustavo Scarpa na esquerda e Piquerez como terceiro zagueiro, mas também ao futebol brasileiro, com iniciativas igualmente geniais como utilizar a conquista do bicampeonato da Libertadores da América para promover um debate essencial.

UMA VERSÃO CONDENSADA DESTE ARTIGO FOI PUBLICADA NA EDIÇÃO Nº 1186 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE DEZEMBRO DE 2021.

CRÉDITOS DA PÁGINA: STAFF IMAGES/CONMEBOL

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Luiz Gonzaga Belluzzo

Luiz Gonzaga Belluzzo
Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Gabriel Galípolo

Gabriel Galípolo

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