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A coisa está feia… na Venezuela! Uma breve crônica

É briga de cachorro grande, tendo os interesses do grande capital petroleiro como pano de fundo

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Boa tarde. A situação está feia na Venezuela, você viu? Crédito ou débito? Débito, por favor. Eu vi. Que coisa horrorosa, não deixaram entrar a ajuda. Temos que orar muito por aquelas pessoas. Imagine, você está doente e não tem remédios! Pois é, mas acho que dessa semana não passa, o Maduro cai. Vamos torcer para que consigam derrubá-lo. Tomara. Obrigado, vai querer sua via? Não precisa. Obrigado, tenha uma boa tarde. Boa tarde, fique com Deus.

O breve diálogo acima ocorreu na fila do caixa, depois do almoço, numa segunda-feira do quente mês de fevereiro, em um restaurante num bairro de classe média alta em Campinas. O que, creio eu, motivou o breve diálogo foram os acontecimentos do final de semana anterior: o governo dos Estados Unidos, com apoio dos governos do Brasil e da Colômbia, em respaldo a um sujeito que se autoproclamou presidente da Venezuela, encenaram uma ópera bufa trágica nas regiões de fronteira, sob o pretexto de levar “ajuda humanitária” aos venezuelanos.

A crise no país vizinho é grave, complexa e não pode ser entendida sem levar em conta os conflitos geopolíticos em torno do petróleo – a Venezuela detém as maiores reservas conhecidas do mundo – e do reposicionamento dos Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, de reafirmar a hegemonia imperialista no que considera como seu tradicional quintal, a América Latina.

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Acrescente-se neste caldo a consolidação da China como potência econômica deste início de século, com importantes interesses estratégicos e comerciais na região, e com a Rússia, sob o governo de Vladmir Putin, buscando reconquistar o protagonismo dos tempos de União Soviética, pelo menos no campo militar. Não se trata, portanto, de um roteiro “roliudiano” de mocinhos e bandidos. É briga de cachorro grande, tendo os interesses do grande capital petroleiro como pano de fundo.

É neste cenário que o presidente do Brasil, turbinado por alguns alucinados – e vendo nesta situação uma forma de diversionismo para distrair a plateia diante da catástrofe que já se anuncia seu governo – tenta envolver o país. É também uma demonstração de servilismo sem precedentes ao governo dos Estados Unidos. A coisa só não foi mais grave, por enquanto, porque os militares brasileiros, que são quem de fato vão colocar o lombo na reta em caso de conflito e conhecedores da real situação na região, seguraram a empolgação dos setores mais alucinados.

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Ocorre que a ação programada por Trump e pelo autoproclamado presidente da Venezuela ganhou ares de epopeia heroica nos principais veículos de comunicação brasileiros, que há muito elegeram o que chamam de bolivarianismo como um inimigo central a ser combatido na América do Sul.

Assim, com uma cobertura sensacionalista, descontextualizada e muito parcial, como não deixaria de ser, criaram a narrativa maniqueísta, que acabou influenciando boa parte da população, como já ocorreu em inúmeras outras situações. É aqui que entra o diálogo acima. A senhora que está no caixa, sendo atendida por um homem jovem, mostra excessiva preocupação e solidariedade com o povo da Venezuela, pois, conforme as informações que ela recebeu, eles estão famintos, doentes e não terão acesso à remédios. Justíssima a preocupação. Na mesma linha, o homem jovem no caixa mostra-se muito condoído com a situação venezuelana e espera um breve desfecho com a queda de Maduro. Ao que parece, para eles, isso resolveria a situação.

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Agora, essa mesma senhora e o jovem rapaz tem ideia que, a menos de dois quilômetros do restaurante onde ocorreu o diálogo descrito acima, há um hospital universitário onde as pessoas estão doentes, amontoadas em macas nos corredores, algumas morrem, porque não têm acesso a remédios ou a tratamentos adequados por falta de estrutura? Ficaram sabendo que o prefeito da cidade onde está localizado o restaurante acaba de se safar de uma denúncia de desvios na saúde promovido por uma “Organização Social” que, segundo denúncia do Ministério Público, desviou recursos de um hospital público em uma das regiões mais carentes da cidade, comprometendo o atendimento e provavelmente causado óbitos evitáveis?

Sabem que “Organização Social” é uma forma de entregar à iniciativa privada a administração de hospitais? Que nesta mesma cidade não estão sendo realizados coletas de sangue, exames de ultrassom, entre outros, na rede pública de saúde, que tem como consequência o atraso em diagnósticos que certamente irão atrasar tratamentos e que inevitavelmente levará a mortes evitáveis?

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Ainda sem sair dessa mesma cidade, os protagonistas do diálogo acima passaram algum dia pelas ruas do Centro, já foram até a praça da Catedral à noite para conferir quantas famílias, com crianças, refugiadas do neoliberalismo, passarão mais uma noite ao relento, depois de mais um dia lutando pela sobrevivência? E que essa situação ocorre em um município considerado dos mais desenvolvidos do País? Creio que saibam, que já ouviram falar. Afinal, parecem ser pessoas “bem informadas”. Mas não parece ser essa a preocupação. Não a ponto de ser motivo para um diálogo casual, no lapso de tempo em que a leitora da máquina de cartão de crédito conclui a operação de pagamento.

É que, nestes casos, não teve cobertura dramática da mídia, não teve repórter esbaforido, reportagens longas, personagens. Nem infográficos, nem cara de indignados apresentadores. Também não foi tema de correntes no WhatsApp. São só tragédias do cotidiano que a classe média já aprendeu a naturalizar. Para fugir disso é que pagam caros convênios médicos.

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Não, este texto não defende o xenofobismo e que simplesmente devemos nos preocupar com nossos problemas locais e mandar às favas o que ocorre no resto do mundo. Sim, a coisa está feia na Venezuela. Assim como está feia no Brasil, na Colômbia e mesmo no Estados Unidos, onde é crescente o número de pessoas vivendo abaixo da linha da miséria. A coisa está feia na Europa, com aumento do desemprego, da miséria e consequente ressurgimento do nacionalismo histérico que no século passado levou a humanidade a duas carnificinas chamadas de Guerras Mundiais. A coisa está feia na Síria, na Líbia, no Iêmen, no Iraque, países que recentemente receberam ajuda norte-americana para se tornarem “democracias”. Não por acaso, também estes países têm em seus territórios grandes reservas de petróleo.

A coisa está feia também na fronteira dos Estados Unidos com o México. Lá, milhares de latino-americanos, empobrecidos em países que já foram “agraciados com as ações libertadoras” norte-americanas, como a Guatemala e Honduras, tentam desesperadamente atravessar a fronteira e tentar a sorte no que restou do que um dia foi chamando de “sonho americano”, é que lhes resta. E como são recebidos? À bala, com prisões e o sequestro de seus filhos, crianças, que são presas em gaiolas, separadas da família. Agora vem aí a construção de um muro físico, para concretizar a segregação.

Pois bem, é esse país, com histórico de destruição de vários outros países, de massacres de povos inteiros, patrocinador das mais sangrentas e cruéis ditaduras em nosso continente, que agora tenta, a força, levar “ajuda humanitária” à Venezuela. Nem a Cruz Vermelha, nem a ONU, caíram em tal farsa. Mas o que vale é a narrativa, a informação como mercadoria a serviço do capital, seja ela falsa, ou fake como dizem, ou recheada de omissões, descontextualização, manipulação, o que também não deixa de ser uma forma de falsificação.

O diálogo que motivou este texto mostra o reflexo dessa manipulação e desinformação. O problema da vez é a crise da Venezuela e o demônio a ser exorcizado é o governo de Nicolás Maduro, pelo menos até a próxima pauta. Vai querer sua via?

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