Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Vida Louca de Nelson Ned é retratada em livro revelador

André Barcinski narra a ascensão, o sucesso internacional e o triste fim de um dos maiores cantores românticos do país

Créditos: Reprodução
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Já era sabido os excessos de álcool e drogas de Nelson Ned, mas se desconhecia a dimensão do que isso representou na sua carreira até o seu triste fim num hospital público no interior de São Paulo.

O cantor e compositor mineiro – de Ubá – teve ascensão na música em meados dos anos 1960, fez estrondoso sucesso aqui, mas foi no exterior que ganhou reconhecimento e muito dinheiro.

O livro recém-lançado Tudo Passará – A Vida de Nelson Ned, o Pequeno Gigante da Canção, de André Barcinski (Companhia das Letras, 256 páginas), mostra a trajetória de forma envolvente de um dos maiores cantores românticos do país.

O autor da obra, que já publicou oito livros e é crítico de música tarimbado, faz um resgate desde a infância de Nelson Ned, que sofria de displasia espondiloepifisária, um tipo raro de nanismo.

Nelson Ned surgiu em meio ao crescimento do mercado musical de enorme apelo popular, que teve seu ápice nos anos 1970. O segmento teve forte oposição da mídia da época, que o chamava de brega em contraponto ao aparecimento de movimentos contraculturais de letras engajadas e melodias mais elaboradas.

O cantor deu de ombros e fez sua trilha na música romântica de amores perdidos cheia de referências às suas próprias experiências nesse campo, agravadas pela sua baixa estatura.

Quando se pôs a cantar suas canções e de outros em espanhol ganhou o mercado latino de forma retumbante. Barcinski faz no livro esse relato de expansão internacional e impressiona como Nelson Ned conquistou a indústria da música lá fora como poucos.

Cantor romântico de voz de primeira linha, independente da pieguice das letras e arranjos simplórios, Nelson Ned cantou a alma latina das noites dos centros urbanos até os rincões.

Curiosa a relação que o conservador Nelson Ned mantinha com o escritor Gabriel García Márquez, que o adorava, descrita no livro.

O cantor mineiro, no entanto, não conseguiu desviar dos três “pês” que costumam passar acenando na frente de gente famosa quando esta se encontra com um bolo de dinheiro no bolso: prostituição, pó e pinga.

No caso de Nelson Ned, esse quadro permaneceu por quase toda sua vida, drenando principalmente sua frágil saúde detectada logo após nascer.

A derrocada do artista começou em meados dos anos 1980, no mesmo período em que a indústria fonográfica brasileira foi “assaltada” pelo sertanejo, o jabá se institucionalizou, muitas concessões de rádio e TV foram distribuídas como moeda de troca política pelo então presidente Sarney, foi priorizado o público jovem da faixa FM em detrimento da “antiga” AM (este aspecto ressaltado pelo autor no livro), a chamada MPB teve que se autoproduzir e reinventar e o mercado mergulhou no neoliberalismo mal explicado pela história até hoje.

O músico brega que não foi fazer o pop sertanejo, como Nelson Ned, se lascou. O “pequeno gigante da canção” morreu às mínguas em 2014, aos 66 anos.

André Barcinski fez um livraço, com narrativa fluida e personagem cativante. Dá vontade de ouvir os boleros de Nelson Ned – eles soam muito melhores do que os produzidos por músicos atuais, que deixaram a sutileza e o romantismo de lado e passaram a se auto vangloriar nas canções de tomar cachaça no gargalo enquanto as minas rebolam.

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