Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Livro resgata cantora que ganhou fama internacional, mas foi apagada da história

Pesquisador Rodrigo Faour relata a vida de Leny Eversong, que fez enorme sucesso, mas sofreu com o nacionalismo e o preconceito

Imagem: Divulgação
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A Incrível História de Leny Eversong ou a Cantora que o Brasil Esqueceu (Edições Sesc) é o novo livro do pesquisador de música Rodrigo Faour. A obra conta a história de uma artista que ganhou fama internacional, mas não teve o devido reconhecimento no Brasil, apesar de muitos discos lançados e presença em palcos nobres pelo mundo aos quais nenhum brasileiro havia chegado.

Leny Eversong é uma cantora paulista que começou a carreira nos anos 1930, aos 12 anos, em uma rádio de Santos. O seu forte era interpretar canções estrangeiras.

“Depois ela foi para São Paulo. Mas naquela época era difícil para estourarem no Brasil os artistas que não moravam no Rio de Janeiro, onde todas as emissoras importantes de rádio e, depois, de televisão estavam estabelecidas. A única exceção foi Isaurinha Garcia”, conta Rodrigo Faour.

Em 1955, Leny Eversong foi ao Rio de Janeiro para a inauguração da Rádio Mundial e “estourou”. Assis Chateaubriand, magnata da comunicação e então dono da emissora, se encantou pela artista e a levou para outra rádio de seu grupo, a Tupi.

Em menos de dois anos no Rio, Leny já foi convidada a participar de um evento beneficente no hotel Waldorf Astoria, em Nova York. “Ela foi a que mais se destacou nessa noite e já descolou participação no The Ed Sullivan Show, que era o programa mais popular da época. Ela cantou no dia em que Elvis Presley foi fazer a despedida dele para servir o Exército”, destaca Faour.

Dali, ela já conseguiu um contrato para cantar na noite de Las Vegas e gravar um disco com o então maestro de Frank Sinatra. A partir de 1957, a carreira decolou rapidamente.

Com um repertório de músicas em inglês, francês e espanhol, Leny Eversong atingiu grande sucesso naquele período, recebendo elogios no exterior com sua potente voz, conforme detalha o livro de Faour.

O pesquisador aponta que depois de Carmem Miranda e antes da bossa nova, nenhum artista brasileiro havia conseguido tanta projeção e tanta ocupação de espaço em palcos no exterior quanto Leny.

“A voz dela era muito poderosa”, afirma. Ela chegou a fazer temporada no Olympia de Paris e cantou em vários palcos de países da América Latina. Foram cerca de 80 discos lançados ao longo da carreira.

“Depois, uma série de questões fez com que fosse se ausentando, ficando totalmente esquecida”, conta. O Brasil tem um problema crônico com a sua memória, mas Rodrigo Faour ficou intrigado com o fato de estudiosos não se lembrarem de Leny Eversong quando se debruçavam sobre a história de cantores e cantoras do rádio e também de artistas brasileiros que fizeram sucesso lá fora.

“Isso ficou na minha cabeça”, diz. Depois de produzir coletâneas com músicas de Leny Eversong, a pedido de gravadora, em 2012 Faour foi procurado pelo filho da cantora, Álvaro Augusto, que doou a ele parte do acervo de sua mãe. O material virou dissertação de mestrado – realizado com bolsa da Capes na PUC-RJ -, agora publicado em livro.

Para o pesquisador, Leny Eversong foi patrulhada pelo nacionalismo exacerbado da época. Ele lembra que vários artistas que cantavam em outras línguas e outros gêneros que não eram brasileiros também foram esquecidos pela história, como Lana Bittencourt (falecida neste ano) e Rosita Gonzales, que cantava boleros.

Outro fator que pode tê-la deixado de lado na história da música é o preconceito de aparência, já que Leny Eversong era obesa e frequentemente sofria gordofobia, como mostram vários textos da imprensa reproduzidos na obra de Faour.

“A Leny, como era muito gorda, era sempre a gorda que cantava bem”, lembra. “A Leny era inclassificável. Ela foi uma cantora de rádio, ficou três décadas no ar, mas não foi marcada como uma grande cantora do rádio. Ela chegou a passar pela TV. Cantou em vários idiomas e não seria uma cantora brasileira para ser encarada como uma do País. Ela cantou em festivais, mas não foi uma cantora de festivais. Fez teatro, cinema, novela, mas não fez tanto a ponto de ser reconhecida como tal. Então, era difícil categorizar a Leny.”

Para o autor, há outro ponto importante nesse esquecimento da história: o fato de não se enquadrar na memória coletiva desejável de se tratar na historiografia.

“Ela acabou nos anos 1970 se afastando de tudo, ficando completamente reclusa, a ponto de morrer esquecida, também porque houve uma coisa extremamente desagradável: o marido dela desapareceu por circunstâncias misteriosas. Ela, então, ficou muito desgostosa a partir daí, aparecendo cada vez menos. O vocal dela também já era um padrão muito opulento para os anos 1970.”

Com isso, Leny Eversong morreu esquecida, em 1984, e pobre, porque não tinha o atestado de óbito do marido, que controlava suas finanças, e isso a impossibilitava de usar o dinheiro.

Rodrigo Faour é também autor de biografias de Angela Maria, Dolores Duran, Cauby Peixoto, entre outros, e escreveu em dois volumes a História da Música Popular Brasileira: Sem Preconceitos: Dos Primórdios até os Dias Atuais, obra essencial para entender o percurso de nossa arte maior desde a chegada dos portugueses – obra já resenhada por CartaCapital.

Faour lança o livro A Incrível História de Leny Eversong ou a Cantora que o Brasil Esqueceu em 29 de novembro, às 19h, na Livraria Janela, no Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, e em 7 de dezembro, às 19h, na Livraria Mandarina, em Pinheiros, São Paulo.

Assista à entrevista de Rodrigo Faour sobre a biografia de Leny Eversong a CartaCapital:

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