Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Augusto Diniz | Música brasileira

‘As músicas são em inglês, mas minha alma está eternamente na Tijuca’, diz Ed Motta sobre novo disco

Inspirado em filmes e séries de TV antigos, cantor e compositor lança álbum com fusão primorosa de gêneros

Foto: Divulgação/Bispo
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Ed Motta acaba de lançar seu 14º álbum de estúdio, um cuidadoso trabalho com letras em inglês e uma fusão de sons construída de forma refinada. As 11 composições são inspiradas em uma das paixões do cantor e compositor: filmes e séries de TV antigos.

“Essa história da influência do cinema se dá mais no texto (na letra). A história contada em cada uma dessas crônicas – por isso o nome do disco, Behind the Tea Chronicles – poderia ser um pequeno episódio de uma série daquelas dos anos 1970, como Baretta e Kojak”, explica, em entrevista a CartaCapital.

Baretta e Kojak são duas séries que marcaram época. “Existem outras músicas que têm diferentes ambientações. São músicas que falam de situações cinematográficas, como sabotagem, máfia, conspirações. Não são músicas de amor.”

“São músicas de assuntos urbanoides. Mas tem uma influência grande do cinema dos anos 1940, 1950, que é uma coisa que eu desde garoto coleciono, vejo o tempo todo. A gente quase vê um filme por dia em casa, às vezes dois. O tipo de história que é tratado nesse período do cinema influencia meu imaginário.”

Uma das músicas do novo álbum de Ed Motta conta a história de uma cantora cuja carreira foi interrompida por um namorado infrator. A faixa tem o nome de Tolerance On High Street.

“Ele é empresário dela, um delinquente envolvido com a máfia e também com uma empresa que ninguém sabe o que é. Bem típico de filme noir. Tipo aquela série Cidade Nua (Naked City, dos anos 1950)”, exemplifica.

Seria possível imaginar que Ed Motta assiste a filmes e séries como Colombo, Barnaby Jones e Streets of San Francisco com uma caneta e um caderninho, anotando passagens, frases e palavras, para posteriormente servirem de auxílio para suas criações.

É comum compositores fazerem anotações de momentos de sua vida para convertê-los em músicas. Mas não é isso que ele faz.

“Tudo o que aprendo e absorvo de um filme ou de uma leitura, não anoto nada. Está no meu psique. Isso vai sair. Eu vou colocar isso para fora em algum momento”, conta. “Não é uma coisa de anotar, para citar isso em alguma oportunidade. Isso vem natural.”

Outra canção do novo disco, Gaslighting Nancy, tem relação com o filme Gaslight (de 1944, lançado no Brasil como À Meia-Luz). Mas foi só.

Ed Motta costuma fazer a maioria das músicas no piano. Os arranjos do álbum Behind the Tea Chronicles (lançado no Brasil pela Virgin Music) também foram feitos por ele. Segundo o cantor, tudo o que os músicos gravaram no estúdio já estava escrito e pré-determinado.

“A preocupação no estúdio era sonora, preocupação de timbre, de sonoridade, de riqueza de som. Para que ficasse super audiófila a experiência”, diz. De fato, trata-se de uma experiência da mais alta qualidade musical, com arranjos levando a fundo a proposta de incorporar a atmosfera de trilha sonora de filmes no projeto.

E mais: Ed Motta promove fusões nas diferentes faixas com som de orquestra e influências do soul e das percussões brasileiras, com o funk, o blues, o electric-jazz-samba. A convergência desses gêneros e ritmos é realizada de forma harmoniosa e de bom gosto.

“As músicas têm um parentesco. São situações bem urbanas. Todas elas estão em inglês, mas a maioria dessas histórias na minha cabeça se passa na Tijuca. Elas estão em inglês, mas minha alma está eternamente na Tijuca. Eu sou da Tijuca”, diz.

“Claro que tem experiência do que vejo em filme, do que viajo, mas o meu imaginário mesmo está na Tijuca. Eu estou mesmo o tempo todo falando da Tijuca. Só que em inglês.” Esse é o quarto álbum do artista em inglês.

Nascido e criado na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio, ele se diz um típico tijucano, embora não more mais por lá. Já a obsessão por fusão de ritmos é fruto da vida de colecionador de discos – seu acervo reúne 30 mil exemplares.

Hoje, ele revela que tem buscado novas sonoridades pela internet, mas não se rendeu às séries moderninhas do Netflix. Seu consumo audiovisual inclui filmes e séries até os anos 1970.

“Teve uma época, quando voltei dos Estados Unidos, em que eu fui estudar clássico. Eu achava que nunca mais ia fazer música popular na vida, que eu ia me transformar num compositor clássico. Eu tinha uns 23 anos”, relembra. Isso, porém, não se concretizou. Ed Motta lançou poucos anos depois dois discos que viraram clássicos pop: Manual Prático para Festas, Bailes e Afins (1997) e As Segundas Intenções do Manual Prático (2000).

“Hoje, aos 52, estou extremamente satisfeito com o que faço. Pretendo ter a melhoria natural. Mas aos 52 está tudo consolidado. Agora é aproveitar tudo o que foi estudado”, completa. Seu novo disco é uma prova cristalina disso.

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