Walfrido: O Brasil se entrega à dominação estrangeira

Norte-americanos nem precisam de uma sofisticada rede de espionagem para tomar o que é nosso

Amazônia brasileira

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Artigo

“A Amazônia não pode ser esquecida. Temos muitas riquezas. Gostaria muito de explorá-las junto com os EUA” foi o que redarguiu o presidente do Brasil quando o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, lhe disse de sua preocupação sobre o tema. É o aperitivo do documentário “O Fórum”, sobre o Foro Mundial Econômico de Davos, que viralizou nos últimos dias.

Fiquei com a impressão de que Bolsonaro pretendeu subornar os norte-americanos. “Vamos depenar a Amazônia juntos! E aí vocês param com esse papo de preservar a natureza, tá ok?!”

Não precisamos nem mesmo acreditar em teorias conspiratórias. Os norte-americanos não precisam de uma sofisticada rede de espionagem para tomar o que é nosso. Temos nos dado voluntariamente à dominação estrangeira, à dominação dos nossos meios de produção e, reflexamente, de nossas instituições mais essenciais.

Bolsonaro foi eleito por uma náusea coletiva, à medida que a Operação Lava Jato exibia o que nos pareceu ser o maior e mais sórdido esquema de corrupção da história do País. Um esquema que unia os principais partidos políticos, em especial o PT, mas também a sua base de sustentação pluripartidária e grandes conglomerados empresariais brasileiros. Um esquema que se revelou sem que se distinguissem o lobby, organizado à margem da lei, em um país capitalista, de dimensões continentais, onde fazer política não prescinde de recursos, e a corrupção nua e crua.

O combate puramente repressivo à corrupção, que não se interessa em atacar as suas causas, liderado por um magistrado de primeiro grau de jurisdição, levou ao expurgo da “velha política”, à marginalização de políticos e de partidos envoltos no lamaçal. Abriu as portas à demonização da pauta progressista, sob a memória, inconsciente e generalizante, de que, de algum modo, relacionava-se com a corrupção. Tudo que dizia respeito à tutela de minorias (aos direitos dos negros, dos homossexuais, dos indígenas etc.), ao feminismo, à tutela do trabalho, à tutela do meio ambiente, à atuação estratégica do Estado na economia, à preservação da soberania, tornou-se, do dia para a noite, por meio de uma grotesca generalização, o “mimimi” do comunismo cultural.

Nessa vala, o Brasil descartou os principais e mais importantes grupos empresariais, pela incapacidade de diferenciar as empresas de seus dirigentes e controladores. As empresas foram destruídas e, com elas, a nossa capacidade de gerar riquezas e empregos, o conteúdo nacional, a arrecadação de tributos, a capacidade estatal de investir e de reagir a uma recessão brutal.

Somos quase 40 milhões de desempregados e de precarizados, à mercê do assistencialismo de última hora do propalado governo liberal de Jair Bolsonaro. E muitos de nós ainda acreditam que o desmantelamento do País decorre mais da corrupção do que de seu combate atabalhoado e inconsequente. Boa parte ainda culpa a “velha política” e acredita que a “nova”, sob a liderança de Bolsonaro, será capaz de nos salvar.

Essa crença, ainda forte, abriu as portas para a entrega dos direitos de comercialização do pré-sal, há poucos anos um ativo intangível no balanço da Petrobras, a venda de suas subsidiárias, assim como a venda de outras estatais estratégicas, a erradicação de direitos trabalhistas e sociais, a adoção de inatingíveis critérios de elegibilidade para a aposentadoria, a pretexto de equilibrar as contas públicas e de atrair investimentos privados. Foi a exploração inescrupulosa dessa crença que escorou, mais de uma vez, a promessa do presidente de legalizar o garimpo, assim como a de flexibilizar o licenciamento ambiental e facilitar o desenvolvimento de atividade empresarial poluidora.

O garimpo é mecanismo indutor do fato consumado. Destrói a cobertura vegetal e o relevo, polui com mercúrio os rios, mata a fauna e a flora e, ao fazê-lo, em meio à prostituição, ao tráfico de drogas e à violência desenfreada, exige uma intervenção estatal para o erradicar por meio da sua substituição pela mineração empresarial mecanizada, o mais das vezes sob controle estrangeiro. A mineração empresarial mecanizada, se atuar na Amazônia, irá destruir o pulmão do planeta, asfixiar a Terra e impor brutal sofrimento a uma massa humana crescente, pobre, despossuída e desassistida, até tornar inviável toda a vida. A busca por taxas crescentes de lucro corresponderá à diminuição proporcional da Amazônia, pois o dinheiro tem uma capacidade inigualável de capturar governos.

Hoje, o principal obstáculo entre a ganância e o seu intento são os povos indígenas, os habitantes originários do Brasil. Sempre acreditei que a tutela dos indígenas do Brasil não se confundia com a tutela do meio ambiente. Esta interessava a todos e cada um dos moradores da Terra, enquanto aquela importava mais às populações diretamente afetadas e ao povo brasileiro.

Erro meu. Sem os indígenas do Brasil não haverá Amazônia. E, sem Amazônia, será o fim.

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