Mino: A aposta na ignorância popular é aceita com naturalidade

'No Brasil, os caminhos da enganação e do embuste permitem-se ser infinitos'

Água dos fiordes ou da torneira?

Água dos fiordes ou da torneira?

Artigo

Não é que o acesso do ex-capitão aos fatos aqui narrados venha a ser o assunto central deste texto. Desta vez, não baixo o guatambu, como costuma dizer meu eterno companheiro de aventuras Luiz Gonzaga ­Belluzzo,­ no governo da demência.

No caso, mais me chama atenção a própria índole da nação nativa, embora Bolsonaro caiba na moldura. Volto os olhos e os ouvidos para a propaganda que neste momento domina livre e solta o vídeo da televisão. Basicamente, trombeteia-se a qualidade de alguns colchões a garantirem um sono beatífico a todos os seus usuários para o descanso ideal em tempos de pandemia. Mas esse gênero de publicidade é de longe superado, em termos de frequência e vigor, por anúncios de produtos habilitados a curar todos os males do mundo.

São milagrosos remédios destinados a tratar quem quer que seja sem passar pela farmácia, todos vendidos por um providencial telefone. De súbito, lembrei-me de um certo Doutor Dulcamara, personagem de uma ópera-bufa de Gaetano ­Donizetti estreada em Milão na primeira metade do século XIX. O Doutor Dulcamara é um charlatão que por ruas e praças vende o “Elixir do Amor”, conforme soletra o título da obra, capaz de mexer com o coração de quem o adquire, se fêmea ou macho pouco importa. O que se oferece no vídeo é, obviamente, fraude cometida sem riscos e não há mal que tais pretensos remédios deixem de curar, desde dores nas costas até câncer de próstata.

Em outro gênero de país, mais afeito à civilização, para não falar da democracia, este tipo de publicidade seria vetado por lei. Aqui não, porque a aposta na ignorância popular é aceita como algo de absoluta naturalidade. Toda esta parafernália disposta a atribuir qualidades taumatúrgicas até mesmo a garrafinhas de água dos fiordes, para limpar o que encontra pelo caminho. Cabe até duvidar do próprio conteúdo da mimosa apresentação da embalagem e, de fato, nada impede que a água milagrosa seja a da torneira.

A situação gerada por esta propaganda é representativa de um modo de vida francamente primitivo, a se perceber o descaso com que são considerados os alvos deste gênero de anúncios, os quais, a considerar a frequência da veiculação, gozam do efeito desejado, ou seja, a credulidade dos prezados assistentes. Creio tratar-se de um enredo exemplar, a mostrar até onde pode chegar no país infeliz, antes de mais nada porque ignorante, o propósito impune de enganar o semelhante.

No Brasil, os caminhos da enganação e do embuste permitem-se ser infinitos. A própria eleição do ex-capitão a presidente da República presta-se perfeitamente a esta interpretação. Se uma responsabilidade por tal situação pode ser apontada, ela é de todos aqueles que não se empenharam em abrir os olhos e as mentes da população sofrida, humilhada e ofendida, sem entender as intenções sinistras da casa-grande.

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