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José Guimarães: O Brasil precisa virar a página do atraso
O País não pode permanecer refém de seu passado recente e tampouco ser entregue nas mãos de amadores, escreve o ministro das Relações Institucionais
O Brasil precisa virar uma página triste de sua história. Uma página marcada pelo atraso, pelo obscurantismo, pelo golpismo e pela disseminação sistemática de desinformação nas redes sociais. Durante anos, a política brasileira foi contaminada por uma lógica de confronto permanente, na qual a mentira passou a ser utilizada como instrumento de mobilização e a democracia tratada como obstáculo por aqueles que não aceitam seus resultados.
A chamada bolha de desinformação criou uma realidade paralela para parte da população. Nela, fatos são substituídos por narrativas convenientes, instituições republicanas são transformadas em inimigas e qualquer questionamento é apresentado como perseguição. O resultado é preocupante: cidadãos acabam reféns de lideranças que exploram ressentimentos, alimentam ódio, a polarização e apresentam soluções simplistas para problemas complexos.
A família Bolsonaro tornou-se o principal símbolo dessa política no Brasil contemporâneo. Não se trata apenas de divergência ideológica. O que está em discussão é um modelo de fazer política que frequentemente tensiona as instituições, desacredita a Justiça, descredibiliza o processo eleitoral sem apresentar provas e transforma o conflito em método permanente de atuação.
O problema se torna ainda mais grave quando candidatos à Presidência da República chegam ao debate nacional cercados por mentiras que exigem esclarecimento público. Flávio Bolsonaro, por exemplo, está no centro do escândalo envolvendo o Banco Master. A Polícia Federal investiga a doação de Daniel Vorcaro (controlador do Banco Master, que está preso) de 61 milhões de reais, pedido por Flávio Bolsonaro, para realização do filme Dark Horse. A origem, o destino, a regularidade desses recursos precisam ser esclarecidos pelo candidato e pelas autoridades competentes.
É importante fazer uma distinção elementar em uma democracia: investigação não equivale a condenação. Cabe à Polícia Federal investigar, ao Ministério Público analisar os elementos colhidos e à Justiça decidir, dentro do devido processo legal. Mas também é legítimo que a sociedade exija transparência de quem pretende ocupar o cargo mais importante da República. Candidatos à Presidência precisam oferecer respostas convincentes sobre suas relações políticas, financeiras e pessoais, especialmente quando essas relações são objeto de investigação.
O episódio revela uma questão mais ampla: que tipo de liderança o Brasil deseja para seu futuro? A Presidência da República não pode ser tratada como extensão de popularidade nas redes sociais. Seguidores, curtidas, vídeos virais e capacidade de produzir polêmica não substituem preparo, experiência administrativa, conhecimento de Estado e compromisso democrático.
Talvez poucas eleições brasileiras tenham reunido tamanha quantidade de pré-candidaturas impulsionadas mais pela exposição digital do que pela demonstração de capacidade para governar uma sociedade de dimensões continentais. O País não precisa de celebridades políticas. Precisa de estadistas.
Governar o Brasil exige compreender a complexidade de uma economia entre as maiores do planeta, enfrentar a desigualdade social, ampliar oportunidades, fortalecer a educação, investir em ciência e tecnologia, melhorar a segurança pública, reduzir as disparidades regionais e construir políticas capazes de combinar crescimento econômico, sustentabilidade ambiental, com inclusão social.
O desafio é ainda maior porque o Brasil precisa ocupar uma posição cada vez mais destacada no cenário internacional. A soberania nacional não significa isolamento. Significa capacidade de defender os interesses brasileiros, ampliar relações comerciais e diplomáticas, participar das grandes decisões globais e contribuir para a construção de uma ordem internacional mais equilibrada.
É nesse contexto que o debate político precisa abandonar a pequenez das disputas de internet. O Brasil tem problemas concretos demais para ficar prisioneiro de guerras culturais fabricadas diariamente nas redes sociais. Milhões de brasileiros ainda enfrentam dificuldades para ter acesso a serviços públicos de qualidade, emprego, renda, moradia, educação e segurança.
A desigualdade, no Brasil, continua sendo uma grande vergonha internacional. Nenhum projeto de desenvolvimento pode ignorá-la. Uma nação que pretende ser desenvolvida precisa garantir que os resultados do crescimento alcancem a maioria de sua população, e não apenas os segmentos mais ricos.
O governo do presidente Lula reposicionou o Brasil na geopolítica global e recolocou no centro da agenda nacional políticas de redução da pobreza, investimentos públicos, na indústria, agricultura, ciência e tecnologia, saúde, educação e infraestrutura. Pode e deve ser criticado. Democracia pressupõe crítica. Mas a disputa política precisa ocorrer sobre resultados, propostas e projetos de país, e não sobre teorias conspiratórias e campanhas permanentes de desinformação.
O mundo vive um momento de conflitos generalizados, protecionismo, disputas de mercado, guerras, enfim, um mundo de grandes desafios e o Brasil conquistou uma posição de destaque na economia e na política internacional.
Tom Jobim costumava dizer que “o Brasil não é para amadores”. A frase permanece atual. Governar um país com mais de 217 milhões de habitantes exige responsabilidade, preparo e compromisso com a democracia.
O Brasil não pode permanecer refém de seu passado recente. Precisa superar o obscurantismo, a intolerância e o golpismo. Precisa recuperar a capacidade de discutir projetos nacionais com serenidade e seriedade.
Virar essa página não significa eliminar divergências políticas. Significa compreender que adversário não é inimigo, que eleição não é guerra e que democracia não é um instrumento que vale apenas quando favorece determinado grupo.
O Brasil está pronto para mais. Merece uma política à altura de sua população, de seu território e de seu potencial. Merece candidatos preparados para governar, e não apenas para viralizar.
A hora de virar a página do atraso é agora.
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