Fantasma do momento: Losurdo, o ‘stalinista’ de certos liberais

Filósofo mostra que o liberalismo econômico não é naturalmente defensor da democracia e das liberdades individuais

Losurdo mostra que o liberalismo econômico não é naturalmente defensor da democracia e das liberdades individuais. Foto: Redes Sociais

Losurdo mostra que o liberalismo econômico não é naturalmente defensor da democracia e das liberdades individuais. Foto: Redes Sociais

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Por Jones Manoel* 

Nas últimas semanas, o nome do filósofo italiano Domenico Losurdo, morto em 2018, é presença constante nas mídias e no debate brasileiro. Uma pesquisa no Google Trends mostra que, tomando como base de comparação setembro de 2019 e o mesmo mês deste ano, o nome do filósofo cresceu mais de 100% nas buscas. O interesse pela obra do comunista italiano explodiu quando o músico Caetano Veloso, no programa de Pedro Bial, na Rede Globo, comentou, após ver um trecho do seu filme (Narciso em Férias), que não é mais tão “liberaloide” e que fez uma reavaliação do liberalismo e das experiências socialistas passadas (segundo Caetano, hoje ele as “respeita”) e citou como responsável por essa mudança de perspectiva as obras de Losurdo indicadas por mim (assim como os vídeos do meu canal no YouTube e o livro Revolução Africana: Uma antologia do pensamento marxista). Mas quem é esse filósofo que mudou a cabeça da Caetano? 

 

 

 

Losurdo doutorou-se em filosofia com uma tese sobre a obra de Karl Rosenkranz. Passou os primeiros anos de sua carreira acadêmica tendo como foco de estudos a filosofia alemã e seus grandes pensadores, em paralelo à sua militância no movimento comunista da Itália. Com a crise da União Soviética e do “campo socialista”, o marxismo no mundo todo entrou em uma profunda crise. Na Itália, a situação era particularmente grave, devido ao fato de a cultura e a política do país terem uma influência gigantesca do Partido Comunista Italiano, a maior organização do tipo no Ocidente e crítica da União Soviética, dissolvido em 1991. Os comunistas italianos viviam duas crises combinadas: o fim de várias experiências socialistas e de seu grande Partido Comunista. 

Ao contrário de muitos que abandonaram o marxismo e aceitaram a tese do “fim da história”, Losurdo fez o caminho contrário. Sua obra passou a ter um caráter mais acentuadamente político e de combate às produções hegemônicas. Em 1993, quando todos festejavam a “democracia liberal”, o filosofo lançou o livro Democracia ou Bonapartismo: Triunfo e decadência do sufrágio universal, uma crítica à democracia liberal sustentando a tese de que os elementos de soberania popular e liberdade, mais do que uma conquista do capitalismo, foram uma imposição do movimento operário e popular aos regimes constitucionais burgueses. Esse livro concedeu fama mundial ao pensador italiano. 

 

Ao contrário de muitos que abandonaram o marxismo e aceitaram a tese do ‘fim da história’, Losurdo fez o caminho contrário

 

A partir desse período, com intervenções cada vez mais constantes no debate público europeu e italiano e livros publicados em mais de 15 idiomas, a obra de Domenico Losurdo passou a ter quatro vetores fundamentais: 1. Crítica do liberalismo e combate à crença de que os liberais sempre estiveram na linha de frente das lutas democráticas e pela liberdade. 2. Um novo balanço das experiências socialistas, com destaque para o legado da Revolução de Outubro. 3. Crítica do colonialismo, neocolonialismo, imperialismo e racismo. 4. Balanço da esquerda contemporânea, em especial do “marxismo ocidental”, e sua negligência em relação à questão colonial, nacional, luta contra a guerra e domesticação pelo neoliberalismo. 

 

Losurdo escreveu sobre Stalin, uma obra crítica, não uma apologia. E a história não acabou com o a queda do Muro de Berlim. Foto: FDR Presidential Library e Lionel Cironneau/AP

 

O primeiro vetor da obra losurdiana é o mais comentado no Brasil. Losurdo mostra ser um erro, parte de uma história idealizada, considerar que o liberalismo é uma ideologia de defesa da liberdade, indivíduo e democracia. Na realidade, desde o seu nascimento, o liberalismo esteve conectado com a escravidão e o colonialismo – e, por consequência, com o racismo – e que os pensadores liberais, por séculos, defenderam a escravidão como parte intrínseca da liberdade: a liberdade dos proprietários. E não se trata de “hipocrisia” ou a diferença entre ideias puras e a prática, mas uma contradição objetiva do projeto político liberal que sempre acolheu cláusulas de exclusão para trabalhadores, mulheres, negros, povos colonizados ou próximos de uma situação colonial no seu ideal de liberdade. 

 

Losurdo mostra ser um erro, parte de uma história idealizada, considerar que o liberalismo é uma ideologia de defesa da liberdade, indivíduo e democracia

 

A crítica losurdiana ao liberalismo é algo que perpassa toda a sua obra, mas está condensada nos livros Liberalismo. Entre a civilização e a barbárie; Contra-história do Liberalismo; A Luta de Classes: Uma história política e filosófica. Diante das reflexões do italiano sobre a história do liberalismo, a maioria dos liberais brasileiros recorreu a um artifício pouco honroso: acusar o filósofo de “stalinismo”. De fato, Losurdo tem um livro sobre Joseph Stalin – Stalin: Uma história crítica de uma lenda negra –, mas a obra está longe de ser uma apologia do líder soviético. É uma história crítica, como diz o título, e um balanço sério e muito bem fundamentado do período stalinista na União Soviética. 

Por fim, a obra do pensador comunista italiano é particularmente importante na conjuntura brasileira. Vivemos um governo desastroso, responsável por uma política irresponsável diante da maior pandemia das últimas décadas e que vitimou mais de 140 mil brasileiros. Este mesmo governo opera uma política criminosa contra a natureza, os biomas e os povos originários, produzindo um aumento avassalador nas queimadas e no desmatamento. Esse projeto, comandado por um líder com tendências autoritárias, foi apoiado em 2018 por ampla parcela dos liberais brasileiros e, até hoje, para muitos, a justificativa para apoiar o bolsonarismo é a política econômica ultraliberal de Paulo Guedes. 

Além disso, a submissão do Brasil aos Estados Unidos só avança, assim como uma reativação da Doutrina Monroe em uma Guerra Fria 2.0 contra a China que potencializa o militarismo e os golpes de Estado em nosso continente – como os recentes acontecimentos na Bolívia. Diante desta situação, a obra de Losurdo, fazendo a crítica do imperialismo e do liberalismo e, a partir disso, recuperando a necessidade urgente de um projeto radical, revolucionário, de transformação, é profundamente atual. Ler Domenico Losurdo é parte do exercício de entender o Brasil. Entender para transformá-lo.

*Historiador e professor, apresenta o “Manual do Jones” no canal do YouTube de CartaCapital

 

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