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A carta de Jair a Flávio e a sensata decisão de Moraes
O ministro poderia ter mandado o ex-capitão de volta à Papuda, mas demonstrou inteligência jurídica e emocional
“ É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.”
– Torquato Neto no Poema do Aviso Final
Quando o desespero se instala, a regra é que as pessoas percam completamente a capacidade de discernimento. A família Bolsonaro está com o botão do desespero ligado. O chefe da organização criminosa está preso, condenado a 27 anos e seis meses de cadeia por crimes contra o Estado Democrático de Direito. Seu filho Eduardo teve o mandado cassado e está foragido nos Estados Unidos. O candidato senador, que acaba de voltar dos EUA — onde tentou vender o País —, está em franca decadência. Os demais não merecem registro.
Algo impressiona nos integrantes dessa família criminosa: eles não têm qualquer limite. Agora resolveram, por meio do ainda candidato, “trucar” sobre uma decisão do Supremo Tribunal Federal — e de maneira acintosa.
O condenado Bolsonaro, em um ato de comiseração do ministro Alexandre de Moraes, está em prisão domiciliar humanitária, com as restrições de estilo. O presidiário resolveu, com seu assecla e seguidor Flávio Bolsonaro, candidato a candidato à Presidência da República, descumprir acintosamente a decisão de Moraes para tentar criar um fato político. Tenho afirmado que estes descumprimentos das restrições impostas são deliberados e cumprem uma estratégia política: querem vitimizar o presidiário Bolsonaro.
Não há limite para tentar voltar ao poder e escapar da prisão familiar. Acreditam que a volta de Bolsonaro à Papuda, juridicamente correta devido ao descumprimento da decisão do STF, seria uma “nova facada” nas eleições de outubro. Jogam mesmo com a hipótese de morte do presidiário se ele voltar para o sistema prisional. Tudo menos a cadeia para a família toda e o grupo mais próximo, o que ocorrerá, inexoravelmente, em curto espaço de tempo.
Querem confundir a opinião pública lembrando que Haddad leu uma carta de Lula preso. A comparação é ridícula. Não havia proibição expressa, como há no caso de Bolsonaro
Alexandre de Moraes poderia simplesmente ter ordenado a volta do presidiário à Papuda, exatamente o que desejava a organização criminosa. Descumpriram a proibição de Bolsonaro se manifestar, na expectativa de que o ministro fizesse o que, na visão míope deles, seria melhor eleitoralmente: assinar a volta do presidiário para trás das grades.
O ministro relator, porém, foi brilhante em sua decisão: “Não há dúvidas, portanto, de que a conduta irregular de Flávio Nantes Bolsonaro desrespeitou expressa vedação judicial e configurou ostensivo desvio de finalidade no exercício de seu direito de visita.”
Moraes também deu 48 horas para a defesa do presidiário se manifestar sobre a “possível” desobediência a uma ordem judicial. Acertadamente, o ministro registrou a reincidente conduta desrespeitosa de Flávio Bolsonaro a ordens judiciais. Mas o fez de uma maneira sensata, inteligente, sem aceitar o jogo baixo da provocação política.
Tudo o que este grupo de extrema-direita faz é pensado politicamente, e o objetivo é criar fatos que possam ser usados na eleição. Sabem estar expostos de maneira muito negativa, mas ter a seu favor o obscurantismo da massa bolsonarista. Confiam em poder criar e alimentar uma estratégia de perseguição política, e estão dispostos a apostar tudo nesta linha. Também sabem que, com a derrota que se desenha ainda no primeiro turno e com a eventual debacle de Donald Trump nos EUA, o cerco se fecha em torno de toda a família e de seus principais asseclas.
Daí resultam a importância e a inteligência da decisão de Alexandre de Moraes. O que fez Flávio Bolsonaro, em comum acordo com o pai presidiário, foi buscar uma jogada política descumprindo uma determinação judicial para forçar a ida de Jair à Papuda.
Quando da facada durante a campanha de 2018, houve uma ousada estratégia política que deu certo. Neste momento, querem confundir a opinião pública dizendo que Fernando Haddad leu uma carta de Lula quando o presidente estava preso. A comparação, entretanto, é ridícula: Lula não estava em prisão domiciliar e não tinha qualquer restrição. Não havia proibição expressa, como há no caso de Bolsonaro.
Agora é desespero, é o medo do cheiro de cadeia que cada vez mais impregna a família Bolsonaro. A decisão foi quase uma ironia frente à ousadia. Um brinde à inteligência jurídica e emocional do ministro Alexandre de Moraes.
Lembrando o imortal Fernando Pessoa no Livro do Desassossego: “A ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente.”
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