CartaCapital
O brinde que atravessou impérios
Na semana em que o Brasil celebra sua Independência, resgatar a trajetória do vinho do Porto revela como a economia colonial, o ouro mineiro e a sede britânica moldaram o passado que nos separou de Portugal
Nenhum vinho tem suas impressões digitais tão marcadas na história do Brasil quanto o vinho do Porto, um dos principais itens de exportação de Portugal nos séculos XVII e XVIII. Assinado em 1703 entre Portugal e a Inglaterra, o Tratado de Methuen moldou a economia portuguesa por décadas. O acordo abriu Portugal aos tecidos ingleses e alimentou, desde então, a tese de que travou a indústria têxtil local. Em contrapartida, garantiu ao vinho português tarifa preferencial no mercado britânico em relação ao vinho francês. O resultado foi maior dependência das importações inglesas e uma economia interna menos diversificada.
As vantagens de acesso ao mercado britânico chegaram com mudanças na produção. A fortificação com aguardente ganhou espaço, a qualidade geral do vinho melhorou, culturas menos lucrativas foram arrancadas para abrir espaço a novos vinhedos. A garrafa cilíndrica, que permitia deitar o vinho e envelhecê-lo, difundiu-se no mesmo século.
A chegada ao poder de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal, ministro de D. José I, foi um marco na história do vinho em um momento em que um desastre natural impôs mudanças. Em 1º de novembro de 1755, um terremoto destruiu boa parte de Lisboa e atingiu o litoral do Algarve e de Setúbal. A administração portuguesa passou a buscar racionalizar a gestão, no reino e nas colônias.
Pombal impôs o controle estatal sobre o comércio do vinho do Porto sob a forma de uma empresa: a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, mais tarde conhecida como Real Companhia Velha, criada em 10 de setembro de 1756 — aniversário de 270 anos a ser celebrado nesta quinta-feira. Por meio dela, os produtores do Douro não podiam recusar-se a vender-lhe o vinho nem o negociar a preço diferente do que ela fixava, e era ela quem decidia qual vinho podia embarcar. Tinha ainda o exclusivo do abastecimento do Brasil e o monopólio da aguardente no norte de Portugal.
A demarcação veio em seguida. Em 28 de julho de 1757, Pombal mandou demarcar “as duas costas do rio Douro e os respectivos terrenos que produzem diferentes qualidades de vinhos”. Entre 1758 e 1761 foram cravados 335 marcos de granito ao longo do rio — 201 no primeiro ano, 134 no segundo.
Ao fixar limites geográficos, classificar vinhedos por qualidade e estabelecer normas de produção, Pombal inscreveu sua história no mundo do vinho, antecipando-se em quase um século à classificação de Bordeaux de 1855. A intenção era tripla: proteger a autenticidade do vinho, regular seu preço e reduzir a influência inglesa sobre o comércio português.
O arranjo de Methuen funcionou tão bem para um dos lados que, entre 1780 e 1795, o vinho do Porto respondeu por três quartos de todo o vinho bebido no Reino Unido, segundo Norman Bennett, que estudou os arquivos da casa Sandeman no Porto. Em 1810, mais de oitenta por cento das exportações portuguesas seguiam para a Inglaterra. O ouro que saía das minas de Minas Gerais e o açúcar que saía de Pernambuco pagavam, no fim da cadeia, o mesmo tecido inglês.
A preferência tinha preço. As tarifas de exportação portuguesas eram baixas, mas os direitos de importação britânicos incidiam com peso sobre o vinho feito para aquele mercado; o que seguia para outros destinos pagava muito menos. Diante de uma comissão parlamentar em Londres, um negociante britânico explicaria por que Lisboa nunca se apressou em mexer nisso: as autoridades portuguesas sabiam da estima que o produto tinha entre os bebedores prósperos da Grã-Bretanha. Os súditos britânicos, concluiu, não conseguiriam viver sem vinho do Porto.
Quando o ouro começou a minguar, nos anos 1750, Pombal precisou de outra fonte de receita e de outra rota. Criou companhias monopolistas: a do Grão-Pará e Maranhão em 1755, a do Alto Douro em 1756, a de Pernambuco e Paraíba em 1759. Era uma tentativa de reequilibrar as contas da metrópole e retomar as rédeas do comércio atlântico.
O Brasil era a rota alternativa. A Companhia abriu delegações no Rio de Janeiro, em Salvador e no Recife já em 1756, e em 9 de agosto de 1765 uma resolução deu-lhe o exclusivo de vender todo vinho português em solo brasileiro, bloqueando Açores, Madeira e os vinhedos de Lisboa.
O Brasil ficou, em média, com cerca de três por cento do vinho do Porto produzido, segundo o levantamento de Paulo Reis Mourão publicado em 2017 na Revista de História Económica. Em 1776 a Companhia perdeu a exclusividade brasileira. E os ingleses ganharam nas duas pontas: no Douro, a compra de terras por súditos britânicos subiu depois da criação da Companhia que devia contê-los, enquanto, no Rio, a fuga da Corte em 1808 mudou as relações comerciais, transformando a colônia na sede de poder da metrópole e dando espaço para a Inglaterra avançar no Brasil.
Em janeiro de 1808, o governo português abriu os portos brasileiros às nações amigas e desmontou o exclusivo colonial que sustentava o monopólio. Era a moeda de troca dada pela proteção dos ingleses à família real, que fugia de Napoleão. Por volta de 1819 havia cerca de sessenta firmas britânicas na cidade, com igreja, cemitério e hospital próprios.
A vinda da família real portuguesa ao Rio de Janeiro mudou hábitos, criou modismos. Nos dezoito anos entre 1814 e 1831, o Brasil ficou com cerca de 20% das exportações de vinho do Porto. Iguarias europeias e roupas importadas tornavam-se símbolo de status. A efervescência social podia ser vista nas ruas e era transportada às páginas por Machado de Assis.
No fundo de cada garrafa de Porto reside uma aula de história líquida.
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