Entrevistas
Só no Brasil a extrema-direita defendeu as tarifas de Trump, diz analista político dos EUA
A CartaCapital, Alexander Main, diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, afirma que a Casa Branca interfere na eleição brasileira desde 2025
É estranho observar um movimento político supostamente nacionalista defender tarifas prejudiciais ao seu País, como fez a extrema-direita no Brasil com as sobretaxas aplicadas por Donald Trump, afirmou a CartaCapital Alexander Main, diretor de Política Internacional do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês), em Washington.
Entre as especialidades de Main estão as políticas dos Estados Unidos na América Latina. Ele trabalhou por mais de seis anos na região como analista de política externa e consultor de cooperação internacional. Formou-se em História e Ciência Política pela Universidade Sorbonne, em Paris.
“As tarifas foram transformadas em armas, claramente projetadas para servir como uma forma de coerção econômica, a fim de tentar extrair concessões do país que sofre as sanções”, afirmou o analista. “É, certamente, o caso no Brasil.”
Uma pesquisa Quaest divulgada em 16 de julho mostrou que que a maioria do eleitorado brasileiro (51%) concorda com a afirmação atribuída ao presidente Lula (PT) de que seu adversário Flávio Bolsonaro (PL) pressionou o governo norte-americano pela aplicação das tarifas.
Para Main, a interferência de Trump sobre a eleição no Brasil está em curso desde o ano passado, quando o republicano aplicou o primeiro tarifaço e sancionou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky — tudo em prol de Jair Bolsonaro (PL), à época prestes a ser julgado por liderar a tentativa de golpe de Estado no Brasil.
Esse movimento, explicou Main, contou também com a decisão da Casa Branca de designar como terroristas as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital. “É uma interferência bastante pesada, porque obviamente isso foi feito sem qualquer consulta ao governo brasileiro. É muito agressivo.”
O governo Lula, por sua vez, teme as implicações legais e de soberania. Também há no Palácio do Planalto uma avaliação técnica: as facções são organizações criminosas voltadas ao lucro decorrente de suas atividades ilícitas, sem motivação política ou ideológica – um elemento associado à definição de terrorismo no direito internacional.
Em conversa ao telefone com Trump em 21 de agosto, Lula renovou seu interesse na cooperação com os EUA no combate ao crime organizado e reforçou: esses grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre populações carentes, mas não se confundem com organizações terroristas.
A CartaCapital, Main falou também sobre a influência de Marco Rubio, Stephen Miller e outros expoentes da extrema-direita norte-americana sobre a política de Trump para a América Latina. Leia os destaques da entrevista:
CartaCapital: A interferência de Trump na eleição brasileira já está em curso?
Alexander Main: A interferência tem acontecido desde pelo menos o verão passado, com toda a pressão que foi colocada sobre o Supremo Tribunal Federal para basicamente não prosseguir com o julgamento de Jair Bolsonaro. Essa pressão, claro, incluiu tarifas e sanções individuais, especificamente mirando o ministro Alexandre de Moraes.
Isso foi projetado para tentar, entre outras coisas, permitir que Jair concorresse na atual eleição presidencial. E eles têm a sua própria máquina diplomática instalada em Washington D.C. desde antes do segundo governo Trump, na verdade, com Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo envolvidos em fazer lobby com o Congresso dos EUA e o governo.
Antes de Trump assumir no início de 2025, eles faziam lobby com os republicanos no Congresso. E, cada vez mais, o lobby deles foi direcionado a tentar causar um impacto na campanha eleitoral no Brasil, muito antes de ela começar. E então, claro, fizeram lobby por mais tarifas e pela designação de “terroristas estrangeiros” contra as duas grandes facções brasileiras, CV e PCC.
O objetivo era, de certa forma, reforçar a narrativa vinda da pré-campanha de Flávio Bolsonaro de que o governo Lula seria brando com o crime. Ele acreditava que os EUA precisavam intervir por meio dessas designações. É uma interferência bastante pesada, porque obviamente isso foi feito sem qualquer consulta ao governo brasileiro. É um movimento muito agressivo.
CC: E o que essa designação significa na perspectiva dos EUA?
AM: Esses grupos se tornam alvos militares. Vimos o governo Trump em ação contra esses alvos nos ataques contra barcos no Caribe e no Pacífico, que resultaram em centenas de assassinatos extrajudiciais e ilegais, uma enorme violação do direito internacional. E houve talvez uma violação ainda maior do direito internacional: a designação de terrorista estrangeiro foi usada como pretexto para o primeiro ataque militar dos EUA em um território soberano na América do Sul, invadindo a Venezuela e sequestrando o presidente Nicolás Maduro.
Talvez isso tenha sido apenas um estratagema de campanha, e é o que eu acho que foi por parte de Eduardo Bolsonaro e de seu irmão Flávio Bolsonaro, para fazer o governo adotar essas designações de terroristas estrangeiros. Mas isso não apenas interfere bastante na eleição: impõe uma enorme ameaça à soberania brasileira. E, pelo que entendo, é uma ameaça que as Forças Armadas brasileiras estão começando a levar a sério.
Alexander Main, diretor de Política Internacional do CEPR. Foto: Divulgação
CC: A postura pró-tarifaço do bolsonarismo contrasta com o que vimos na extrema-direita em outros países?
AM: Sim, é bastante estranho. Da minha perspectiva em Washington, olhando para a extrema-direita em diferentes partes do mundo, digo que ela é frequentemente nacionalista, de certa forma — alguém poderia dizer que eles são até ultranacionalistas. É extraordinário ver um movimento que tenta projetar um certo nacionalismo — nos comícios de Bolsonaro vemos pessoas vestindo camisas de futebol do Brasil — (defender) tarifas que, se funcionarem, podem realmente prejudicar a economia do País.
Não vimos, até onde eu saiba, qualquer outro movimento de extrema-direita no resto do mundo defendendo que tarifas sejam impostas contra o seu próprio país. E é particularmente alarmante porque as tarifas dos EUA não são do tipo tradicional.
Normalmente tarifas são aplicadas contra exportações sob a justificativa de que haveria práticas comerciais desleais em curso. No caso do governo Trump, há pouquíssima referência a práticas comerciais desleais, exceto por declarações muito genéricas sobre como os EUA seriam “passados para trás” pelo resto do mundo.
Em vez disso, as tarifas foram transformadas em armas, claramente projetadas para servir como uma forma de coerção econômica, a fim de tentar extrair concessões do país que sofre as sanções. É, certamente, o caso no Brasil.
Então, sim, é bastante extraordinário ver um movimento de extrema-direita que afirma ser de certa forma nacionalista defendendo tarifas projetadas para coagir o País e causar danos econômicos ao Brasil.
CC: Como definir a política de Trump em relação à América Latina, com Marco Rubio em destaque?
AM: Rubio desempenhou um grande papel no primeiro governo Trump e esteve certamente envolvido nas políticas em relação a Cuba, onde o primeiro governo Trump fez retroceder o processo de normalização que havia sido iniciado sob Obama, e nas sanções draconianas contra a Venezuela a partir de 2017.
Já havia uma espécie de base de políticas agressivas contra países da região no primeiro governo Trump. E também não deveríamos nos esquecer de que o primeiro governo Trump apoiou um golpe na Bolívia contra o presidente de esquerda democraticamente eleito Evo Morales, em 2019.
Naquela época já se ouvia muita retórica sobre como a Doutrina Monroe seria ótima e precisava ser reaplicada. Avançando para o segundo governo Trump, vemos Marco Rubio muito mais no comando da direção: foi primeiro nomeado secretário de Estado e, depois, conselheiro de Segurança Nacional.
Basicamente todas as decisões de política externa de Trump são tomadas em parceria com Rubio, que há muito tem uma abordagem linha-dura com a região e pressiona por domínio político dos EUA, opondo-se agressivamente não apenas a governos de esquerda mais radicais, como na Venezuela ou em Cuba, mas a governos de esquerda de todas as vertentes na região.
CC: Mas Rubio não é o único…
AM: Há também Stephen Miller, mais conhecido nos EUA por exibir traços racistas em relação a imigrantes. Ele também tem se envolvido na militarização da aplicação da lei nos EUA, como na expansão do ICE e da Guarda Nacional. Mas isso também vale para a sua visão sobre a política dos EUA por toda a região.
Miller tem trabalhado com Trump e Rubio no desenvolvimento de algo que é difícil de chamar de doutrina, porque é uma abordagem muito mais primitiva do que qualquer coisa que pudesse ser considerada doutrina. Mas eles pressionam por expansão da presença militar dos EUA e operações militares por toda a região, usando o pretexto de uma chamada “guerra ao narcoterrorismo“, na qual eles identificam grupos do crime organizado como grupos terroristas envolvidos no tráfico de drogas.
Em alguns casos eles basicamente inventaram grupos narcoterroristas, como no caso da designação do Cartel de los Soles na Venezuela. De qualquer forma, foi muito útil para eles, porque usaram isso como pretexto para invadir a Venezuela.
Quando George W. Bush invadiu o Iraque, procurava países à esquerda e à direita para endossar aquela invasão, que era ilegal sob o direito internacional. Agora, há um grupo de países muito maleáveis, geralmente governados pela extrema-direita e muito alinhados a Trump, que gostam da abordagem militarizada para a aplicação da lei.
Esse grupo tem se juntado ao esforço para expandir o envolvimento militar dos EUA em atividades por toda a região, ao ponto de que muitos desses países agora permitem militares dos EUA dentro de seus territórios e autorizam que eles liderem operações militares conjuntas contra os chamados “grupos narcoterroristas”.
E os países que resistem a essa “Doutrina Donroe”, essa visão de dominação militar e política dos EUA, são tratados realmente como adversários. É isso o que temos visto no caso da relação dos EUA com o Brasil, que se deteriorou enormemente. Há elementos fortes dentro do governo dos EUA que relutam em adotar essa abordagem, mas há Marco Rubio, Stephen Miller e outros de extrema-direita que desempenham um papel muito ativo em definir essa política agressiva em relação ao Brasil.
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