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Editorial: Debate fora do lugar

O ponto não é a exigência de diploma para jornalistas, mas a defesa seletiva da sacralidade do sigilo de fonte

Editorial: Debate fora do lugar
Editorial: Debate fora do lugar
Moraes e Dino viraram alvo de uma campanha midiática – Imagem: Rosinei Coutinho/STF
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A miopia, ou melhor, a hipocrisia do autointitulado jornalismo profissional ao transformar em um ataque à liberdade de imprensa um claro achaque ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, na esteira da investigação sobre uma organização criminosa no Maranhão, derivou para um debate sem sentido. Diante do assédio, tanto Dino quanto o colega de corte Alexandre de Moraes defenderam a volta de diploma específico para o exercício do jornalismo, exigência abolida pelo próprio STF em 2009.

Este não é o ponto. Frequentar uma faculdade de jornalismo nunca foi garantia de nada, muito menos de comportamento ético e de consciência crítica. A exigência do diploma, instituída em 1971 por ordem da ditadura, brotou com o claro intuito de controlar o ingresso de profissionais nas redações. De lá para cá, eventuais avanços na qualidade da mídia devem-se muito mais ao fortalecimento econômico das empresas, em âmbito nacional e regional, e ao fim da censura imposta pelo regime militar. Uma geração de brilhantes e referenciais jornalistas brasileiros nunca frequentou os bancos de uma escola de comunicação, enquanto milhares de egressos das faculdades entregaram-se à mediocridade e à torpeza.

O debate central de toda essa história passa pela inviolabilidade do sigilo de fonte, resguardo aos jornalistas acolhido na Constituição. Um direito crucial, mas um direito, não cláusula pétrea ou privilégio, como ressaltou em entrevista ao canal de YouTube desta publicação o advogado Pedro Serrano, professor constitucionalista. Um direito que “não pode ser usado para praticar ou acobertar crimes”, acrescenta. É sobre isso e só sobre isso.

Não deixa de ser instrutivo o comportamento do tal jornalismo profissional. A começar pela defesa da liberdade de imprensa que as associações fazem, sempre seletiva. Quando representantes dos jornais, revistas, rádios e tevês vêm a público agitar essa bandeira, em geral falam em nome dos “seus”, um grupo restrito de empresas na órbita do oligopólio que controla a pauta do debate nacional. Aqueles mais indignados com as decisões de Moraes e Dino no caso do blogueiro do Maranhão são os que mais relativizam essa liberdade, como se ela fosse, para citar novamente o professor Serrano, um privilégio dos escolhidos. Neste episódio maranhense, que pipoca no início de mais um decisivo processo eleitoral, há mais do que a alardeada proteção à prática jornalística, sem a qual a democracia se tornaria ainda mais frágil.

Entre os patronos das liberdades, destaca-se a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Eis uma confraria paradoxal. No início dos anos 2000, a Abraji abrigava em seus quadros um “espião” português a serviço do banqueiro Daniel Dantas. A diretoria só viria a saber do “infiltrado” após uma investigação da Polícia Federal. No mais recente congresso da associação, enviados do governo dos Estados Unidos grassavam pelos corredores com a missão de cooptar profissionais para uma campanha de difamação do processo eleitoral do País. Mais uma vez, a cúpula não estava informada. A Abraji apressou-se a repudiar a “censura” imposta por Moraes ao blogueiro maranhense, antes de apurar os fatos, como exige qualquer manual de bom jornalismo. Para a maçonaria dos mais atilados repórteres do País, chega a ser constrangedor.

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