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O crime é outro

A mídia trata como perseguição a um jornalista, mas a tramoia no Maranhão é ação de uma quadrilha

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Segundo a Polícia Federal, o governador Carlos Brandão é o provável líder de uma organização criminosa – Imagem: Redes Sociais
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Um assassinato em São Luís do Maranhão há exatos quatro anos é mais um pretexto para o governo Trump se meter em assuntos brasileiros e estudar sanções contra Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Mas quem tem motivo mesmo para perder o sono não é o juiz, achincalhado pelo bolsonarismo e parte da mídia por alegadamente atentar contra a liberdade de imprensa ao ter autorizado a Polícia Federal a investigar a fonte de um blogueiro. É o governador do Maranhão. Carlos Brandão, do MDB, descrito pela PF como “provável líder” de uma organização criminosa espalhada pelos poderes locais. A “fonte” em questão, um ex-secretário de Brandão preso em julho, pertence a essa organização. Abastecer um blogueiro com informações sobre outro magistrado do STF, Flávio Dino, era um aviso: Dino e os filhos são vigiados. Brandão, comenta-se no Maranhão, teme ser preso a qualquer momento por ordem do juiz. Risco que tem tudo a ver com um homicídio de 19 de agosto de 2022.

O caso ficou conhecido no Maranhão como “Tech Office”, nome do prédio do crime e onde figurões locais mantêm escritórios políticos. O autor dos disparos à queima-roupa e à luz do dia foi Gilbson Cutrim Jr., condenado em júri popular a 13 anos de cadeia em dezembro de 2024. Há alguns meses, ele negocia uma delação premiada com a PF. Está disposto a incriminar a cúpula do poder estadual, a começar pelo governador, mas não só. Implica ainda Marcus Brandão, irmão de Carlos e apontado como o cabeça da família, aquele que nos bastidores trata de dinheiro. É o filho dele, Orleans Brandão, o candidato do clã à sucessão do governador. Cutrim aponta o dedo também para Daniel Brandão, sobrinho do governador e filho de José Henrique Brandão, ex-prefeito de Colinas, o berço político da família, uma cidade de 40 mil almas a 440 quilômetros ao sul da capital maranhense. Daniel comandava o Tribunal de Contas do estado desde 2023, escolhido pelo tio, até ser afastado recentemente do cargo por decisão de Dino. Ele estava na cena do crime de quatro anos atrás.

Moraes e Dino viraram alvo de uma campanha midiática – Imagem: Rosinei Coutinho/STF

O matador depôs ao menos duas vezes a autoridades federais desde que o caso saiu da esfera estadual. A primeira foi em junho de 2025, a um procurador da República e uma delegada da PF, logo após ser transferido de um presídio maranhense para outro em Brasília. A mudança ocorreu depois de sua esposa, Lorena Santos, procurar o Ministério Público e relatar que o marido parecia doente e lançar a desconfiança de que ele estava sendo morto aos poucos na cadeia. Exames médicos constataram que Cutrim tomava um remédio que o levaria a óbito, conforme uma fonte a par dos fatos. Essa foi a razão usada pela defesa do condenado em uma ação levada ao Superior Tribunal de Justiça no início de 2025 que resultou na abertura de uma investigação sobre as autoridades maranhenses e na transferência do preso para Brasília.

O outro depoimento-delação foi em fevereiro passado, à PF. Parte dele está reproduzida em uma decisão de 17 de agosto de Dino. O pistoleiro declarou que “pegava dinheiro” para a família Brandão, “para levar pro Carlos, inclusive levei valores para dentro do palácio (dos Leões, sede do governo estadual)”. O montante seria entregue “pro Daniel”. Quando da prisão do matador dez dias após o crime de 2022, o delegado que o interrogou na Polícia Civil, órgão estadual, teria escrito em um papel “Daniel”, mostrando-lhe e dito para não citar aquele nome. “O meu depoimento, ele foi ensaiado na mesa do delegado”, afirmou. A verdade, segundo o delator, é que o próprio sobrinho do governador teria organizado a cena que culminou no assassinato. Daniel era assessor especial do tio. Eis o grande mistério do caso Tech Office: qual a relação de Daniel com os acontecimentos que terminaram em um cadáver? Por que estava na cena do crime, conforme registrado em câmeras de segurança do prédio? Por que minutos antes dos disparos fatais havia falado com a vítima, João Bosco Oliveira, e um vereador de São Luís que levara Bosco ao local?

Ao suspender o sigilo das investigações, O MINISTRO Flávio Dino lança luzes sobre um esquema sanguinário e articulado de propina e desvio de dinheiro público

Outra alegação de Cutrim no depoimento de fevereiro passado, segundo apurado pela reportagem com fontes a par do caso, aponta uma explicação para a reunião no prédio Tech Office ter tido Daniel na preparação e em cena: o que se tratava ali faria parte de um grande esquema de propina e de caixa de campanha para a reeleição de Carlos Brandão. O matador estaria a serviço da família do governador havia ao menos dois anos, primeiro em invasões de terras, em seguida como coletor de propina.

O vereador ao lado de Bosco, a vítima, no andar térreo do Tech Office é Beto Castro, hoje no partido Avante e pré-candidato a presidir o Legislativo da capital maranhense em 2027 com apoio do clã Brandão. Há dois meses, foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público estadual por destinar verba de emendas parlamentares a um esquema em favor de uma facção criminosa local aliada do Comando Vermelho. Bosco era quem cobrava dinheiro em nome dele quando Castro precisava, segundo a viúva disse logo após o crime à Polícia Civil e depois no processo judicial que levou Cutrim a júri. A reunião que desembocou no homicídio serviria para cobrar uma dívida. Castro mentiu a respeito ao depor à Polícia Civil no dia seguinte. Declarou que havia encontrado Daniel e o assassino no local por acaso, ao aparecer com Bosco. No processo judicial, admitiu o que o próprio réu dizia. Que não houve coincidência no encontro com Cutrim, era um acerto de contas a ser feito. Sustentou, porém, que Daniel nada tinha a ver com a história.

Cutrim, filho do dono de um jornal pequeno, o Itaqui-Bacanga, tinha sabido por aqueles dias de uma dívida antiga do estado com uma empresa de vigilância prestadora de serviço em escolas. Na versão dele, havia sido dica de um advogado da firma. Teria apelado então à influência política do vereador para destravar o pagamento na Secretaria de Educação. Em troca, Castro ficaria com uma fatia do repasse, uma promessa da SH Vigilância. O vereador conseguiu a liberação, 778 mil reais. E aí há uma divergência. O atirador alega que Castro queria receber mais que o combinado, o vereador rebate que cobrou apenas o acordado. No depoimento-delação de junho do ano passado, o assassino diz que tentou falar com Daniel sobre as pressões do vereador, que o sobrinho do governador teria organizado a reunião no Tech Office e tomado partido de Castro. Eis um trecho do depoimento, segundo o portal G1: “Aí eu liguei: ‘Qual foi, Daniel?’ Ele: ‘Não, rapaz, eu quero saber cadê o dinheiro?’ Eu: ‘Que dinheiro?’ ‘O dinheiro que o Beto Castro fez o pagamento pra você e você não passou o dinheiro’”.

A campanha eleitoral tinha começado fazia três dias, o tio de Daniel tentaria continuar no poder. Fazia sentido o clã Brandão perfilar-se com um político que atuou como cabo eleitoral. Era conveniente ainda que a ligação de Daniel com o crime fosse deixada de lado no inquérito da Polícia Civil, para não criar embaraços políticos. Na noite do assassinato, teria havido uma reunião na casa de Heloísa Brandão, mãe do governador, para tramar uma saída que salvasse a pele de Carlos e Daniel. É o que afirma um político maranhense a par do episódio. Entre outros presentes estariam Castro e Raimundo Cutrim, delegado aposentado e ­ex-deputado estadual. O vereador depôs à Polícia Civil no dia seguinte e mentiu. Além da versão de encontro fortuito com Daniel e o atirador no prédio Tech ­Office, declarou que o crime tinha sido causado por uma desavença entre assassino e vítima, por dívida entre ambos. Assim a Polícia Civil tratou o caso até o júri condenar o matador em 2024. Querela privada.

O atirador foi transferido do Maranhão para Brasília após fortes suspeitas de uma tentativa de queima de arquivo

O assassino entregou-se à Polícia Civil dez dias depois do crime e seguiu em parte o script preparado para não implicar o clã Brandão. Declarou ter atirado em Bosco por causa de uma discussão a respeito de uma dívida, mas uma dívida com o vereador, não com a vítima. E não citou Daniel. Em um vídeo gravado por aqueles dias, e que circula na internet até hoje, afirmou que o sobrinho do governador estava fora da história. Em fevereiro de 2023, foi denunciado pelo Ministério Público do Maranhão à Justiça estadual e convertido em réu uma semana depois pela juíza Vanessa Clementino Souza. Ao aceitar a denúncia e encaminhá-lo ao júri, a juíza anotou: entre o caso Tech Office e a denúncia, Cutrim Jr. tinha participado de mais dois assassinatos e sido pego pela polícia por porte ilegal de armas e de drogas.

A versão do atirador desde a prisão pela Polícia Civil em 2022 até o julgamento em 2024 foi arquitetada por Raimundo Cutrim, em troca de recompensa financeira por parte da família Brandão, segundo a PF. O delegado é aliado do clã. No início de 2025, foi nomeado pelo governador como secretário de Assuntos Legislativos. Ocupou o cargo até julho passado, quando foi afastado e preso preventivamente por ordem de Dino a pedido da PF. Esta havia começado a apurar o caso Tech Office e a postura das autoridades maranhenses após os advogados do sicário terem recorrido ao STJ, no ano passado, com aquela alegação de risco de morte no presídio. Recorde-se: por causa desse risco, o sentenciado foi transferido do Maranhão para Brasília por uma decisão do STJ de 31 de maio de 2025. A postura de poupar Daniel e o clã Brandão teria sido abandonada porque o cala-boca teria minguado.

Da esquerda para a direita: Daniel e Marcos Brandão, Cutrim, Gilbon Jr. e Orleans Brandão. Todos integrantes da trapaça que domina o estado – Imagem: Redes Sociais e TCE/GOVMA

Cinco meses depois do recurso de sua defesa ao STJ, o caso mudou de tribunal, passou à alçada do Supremo. Motivo: um senador do Maranhão, Weverton Rocha, do PDT, tentou influenciar o juiz do caso no STJ, Humberto Martins, em favor dos interesses da família Brandão, segundo descobriu a PF ao vasculhar o celular do parlamentar em outra investigação, sobre desvios em aposentadorias do INSS. Um congressista pode ser investigado somente na mais alta Corte. No Supremo, o caso foi parar com o maranhense Dino, que governou o estado de 2015 a 2022. Carlos Brandão era seu vice e elegeu-se seu sucessor com apoio do magistrado. Agora os dois estão rompidos. Brandão alega que o juiz tem interesse político no caso, que o processo não deveria estar no Supremo, mas no STJ, foro judicial dos governadores. E “nega veementemente as afirmações do homicida Gilbson Júnior, que classifica categoricamente como mentirosas”, segundo nota de sua assessoria enviada à reportagem.

Raimundo Cutrim, aparente arquiteto da versão da família Brandão no caso Tech Office, é investigado pela PF em outro processo no Supremo, sob a relatoria de Moraes. Ele passou informações a um blogueiro maranhense, Luís Pablo, sobre carros oficiais utilizados por Dino na terra natal. Não era uma informação destinada a denunciar eventual mau uso da máquina pública, era tentativa de intimidar Dino, mostrar que seus passos e dos filhos eram monitorados. Em 2017, Pablo havia sido alvo de uma operação da polícia do Maranhão por aproveitar informações vazadas da polícia para chantagear investigados: ou pagavam ou ele publicaria textos sobre as apurações. A mira de Moraes no delegado Cutrim levou parte da mídia a martelar que o sigilo da fonte jornalística, protegido pela Constituição, está ameaçado no Brasil. Levou ainda o governo Trump a cogitar punir o juiz, conforme o Financial Times. Cabe perguntar: com a derrubada pelo STF, em 2009, da exigência de diploma para exercer a profissão, o que caracteriza o trabalho de um jornalista? Como diferenciar atividade séria de pistolagem?

Em nota, o governador Carlos Brandão nega “qualquer relação ou contato com esse assassino réu confesso, Gilbson”

De volta ao caso Tech Office. Um mês antes de ser preso por suspeita de obstrução da Justiça e coação no curso do processo e ter o sigilo comunicacional quebrado, o delegado havia conversado com o pai do assassino e sido gravado às escondidas. Parente do ex-secretário, Gilbson César Cutrim apoia o filho na negociação de um acordo de delação em Brasília. No dia em que o condenado prestou um depoimento, em fevereiro, o pai entregou o celular à PF e falou também. Declarou que sua família recebeu 160 mil reais pelo silêncio do filho no caso Tech Office. O pagamento teria sido providenciado por Marcus, irmão do governador, e entregue pelo delegado. Quando este e César se encontraram quatro meses depois e o pai do condenado gravou a conversa, vê-se a tentativa do policial de convencer pai e filho a mudar a versão proposta por eles na delação. Parte do teor da gravação está na decisão de julho de Dino que prendeu o delegado. Este queria que César, Gilbson Jr. e a esposa deste, Lorena Santos, contassem que todo o dinheiro era por motivos de “estado de necessidade” e de “fome”, nada a ver com cala-boca.

Na conversa gravada, o policial diz: “Inclusive, eu li um pedaço dela (da delação)”. Como ele teve acesso a papéis sigilosos? Provavelmente por meio de um policial federal a serviço da organização criminosa liderada por, segundo os investigadores, Carlos Brandão. Edvar Rodrigues dos Santos foi alvo em junho de buscas e de quebra de sigilo comunicacional e desde então está afastado da PF por ordem de Dino. Em depoimento, o pai do atirador disse que Santos o procurou e identificou-se como integrante da equipe policial envolvida na negociação da delação, uma mentira, e tentado influenciar as versões do condenado. Santos teria estado presente na sede da PF no Maranhão quando o matador foi deslocado de um presídio local para lá antes de ser transferido a Brasília.

Cenas do assassinato integram o inquérito conduzido pela Polícia Federal – Imagem: Redes Sociais

Há três meses, a pena de Cutrim Jr. é cumprida em regime semiaberto, por decisão de Dino. Na quarta-feira 19, correu na web um vídeo no qual ele lança outra suspeita: “A morte do Pacovan está totalmente ligada a eles”, “o Francisco foi dizer que foi Iracema, Marcus e Carlos, pô, que mandaram matar o cara”. Iracema Vale é deputada estadual, presidente da Assembleia Legislativa do Maranhão e aliada da família Brandão. Carlos é o governador e Marcus, o irmão. E Pacovan? É Josival da Silva Cavalcanti, morto a tiros em junho de 2024. Tido como agiota, Pacovan também cobrava propina em nome de um deputado federal, Josimar Maranhãozinho, do PL, por conta do envio de emendas parlamentares à cidade de São José do Ribamar. A cobrança foi denunciada à PF em 2020 pelo então prefeito do município, Eudes Sampaio. As apurações desaguaram na condenação de Josimar e mais dois deputados no Supremo em março deste ano, a primeira punição por desvios em emendas.

Uma investigação da PF em curso no STF aos cuidados de Dino encontrou laços econômico-financeiros entre Josimar e o clã Brandão. Esses elos se dariam por meio das empresas Vigas Engenharia, da qual o governador seria sócio oculto, e a IS Guimarães, da qual Josimar seria o dono verdadeiro. As duas foram alvo de uma batida policial autorizada pelo magistrado no início de agosto. Seria também a materialização de um esquema maior de corrupção nos poderes do Maranhão por trás da presença de Daniel Brandão na cena do crime de agosto de 2022. Em nota a CartaCapital, Carlos Brandão diz, via assessoria, que nunca teve “nenhuma participação com a Vigas Engenharia e que todas as declarações referentes à empreiteira que tentam associar seu nome são infundadas”. Sobre a citação de seu nome no assassinato de Pacovan, o governador afirma que a informação “não é apenas falsa – é uma aberração. Uma inverdade tão grotesca que beira a afronta ao bom senso”. Diz ainda que é “inadmissível” tal menção a ele. “Que fique registrado com toda a clareza: o governador nunca teve nenhuma relação ou contato com esse assassino réu confesso, Gilbson, e muito menos com o Pacovan citado por ele.” •

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O crime é outro’

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