Política
Benedita da Silva: “Não existe discurso identitário, é a realidade brasileira”
Aos 84 anos, a ex-governadora lidera a corrida pelo Senado no Rio de Janeiro e defende um Congresso mais conectado às demandas populares
Em 1982, com o histórico slogan “Mulher, Negra e Favelada”, um escândalo no meio político daquele Brasil ainda nos estertores da ditadura, ela foi a única vereadora eleita pelo PT. Foi também a única mulher preta a participar como deputada federal da elaboração da Constituição de 1988 e a primeira senadora preta da história da República.
Aos 84 anos, completados em abril, Benedita da Silva é um dos raros ícones em atividade na política nacional, mas não pensa em aposentadoria. Líder nas pesquisas, ela é candidata ao Senado pelo PT no Rio de Janeiro e se diz disposta a ajudar Lula naquele que, aposta, será o seu melhor mandato na Presidência.
Uma das artífices da aliança do PT com o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, do PSD, a atual deputada federal, que já foi senadora, ministra da Assistência Social e governadora, antevê um novo ciclo político com a centro-esquerda no comando do Estado e aposta na boa relação com o governo federal.
Nesta entrevista, Silva fala sobre política e eleições, opina sobre o voto evangélico e o identitarismo na esquerda e relembra sua trajetória iniciada há 50 anos na Associação de Moradores do morro Chapéu-Mangueira.
CartaCapital: O que a motiva para voltar a disputar o Senado?
Benedita da Silva: Meu objetivo é ajudar o meu estado, o Rio de Janeiro, a ter uma boa convivência com o governo federal. E atuar no Congresso Nacional, a partir do Senado, para que possamos apoiar o governo federal nas suas iniciativas de políticas públicas para o povo. Vivemos em um mundo polarizado no qual aquilo que a política mais precisa é ter vozes que possam representá-la. Então, o que me motiva é exatamente isso. Esse momento no qual nós precisamos ter, não uma voz destoante, mas aquela voz que possa expressar a vontade do povo e o direito do povo, sobretudo.
CC: Qual a expectativa em relação a um eventual quarto mandato do presidente Lula?
BS: Lula vai fazer muito mais do que já tem feito porque ele sabe dos desafios. Acho que ele enfrentou o momento mais difícil enquanto presidente da República e agora, se for reeleito, terá mais condição de governar, pois já sabe como operar entre os adversários e o interesse do povo, que é o que deve prevalecer. A partir do ano que vem, Lula vai contar com um Congresso menos hostil porque há todo um incentivo para que nós tenhamos militantes eleitos, quadros que entendam a política e que ideologicamente saibam compreender o papel de um senador, o papel de um deputado federal, o que é preciso na representação do povo. O Congresso deve fazer com que o governo ande, sem retrocesso.
CC: A senhora aparece em primeiro lugar nas pesquisas. Qual a estratégia para conquistar uma das duas vagas ao Senado?
BS: Tanto eu quanto o Pedro Paulo (candidato do PSD ao Senado) esperamos ser eleitos para ajudar o governo do Rio de Janeiro. Sei que só se ganha eleição depois da contagem dos votos. É com esse espírito que estamos indo à luta para buscar apoios. Uma candidatura ao Senado não recebe apenas o voto partidário, ela recebe o voto da sociedade como um todo, de quem conhece o trabalho, de quem tem o interesse de manter um Congresso mais pacífico no sentido de fazer avançar as coisas. Um Congresso que dialoga com o povo e que não tem dois pesos e duas medidas. O parlamentar deve saber do seu papel enquanto representante público. Minha estratégia é conversar com a população do estado e colocar a minha experiência de todos esses anos a seu serviço.
CC: Como a senhora analisa a aliança formada pelo PT com Eduardo Paes? Acredita que ela possa durar?
BS: Esperamos que essa aliança seja frutífera, que dê um resultado positivo. O Eduardo todo mundo conhece, foi prefeito do Rio, é um grande gestor, merece ter uma belíssima bancada. Nós também estamos nessa candidatura para dar à centro-esquerda uma bancada com muita responsabilidade para recolocar o estado do Rio de Janeiro no seu rumo.
CC: Algumas pesquisas mostram que no Rio já há uma situação de empate técnico entre Lula e Flávio e que um dos setores onde Lula pode crescer é entre os evangélicos. Como está a relação entre o PT e os chamados evangélicos progressistas?
BS: O governo Lula sempre teve apoio de evangélicos, e dentro do PT sempre existiu fiéis. Nós não somos poucos dentro do PT. Somos militantes políticos, mas também somos irmãos nas igrejas. Lula é o presidente que mais atendeu o espírito de ajuda aos necessitados, aos pobres, às mulheres, ao combate à discriminação. Tudo isso, nós sabemos que é o papel do cristão. O cristão não discrimina, tem que dividir o seu pão com quem não tem. Então, a gente sabe como tratar o irmão, os seres humanos.
Tanto dentro das nossas igrejas como fora delas tinham pessoas desempregadas, pessoas que precisavam de qualificação de trabalho, de casa para morar, do benefício de prestação continuada. Sabemos, dentro da nossa igreja, de onde estão saindo essas coisas. Não se surpreenda se o presidente Lula tiver no Rio mais votos do que já teve antes. Os evangélicos e evangélicas estão preparados para entrar na campanha do Lula e na campanha do Eduardo também.
CC: Há quem critique, no PT e em outros partidos, um certo identitarismo, como se alguns mandatos parlamentares e até algumas proposições políticas estivessem reduzindo a luta de classes a questões identitárias. Como a senhora vê essa questão?
BS: Identitarismo é quando você identifica o perfil de uma pessoa. Se é pobre, rico, preto, indígena, se mora na favela. Nós, mulheres, e principalmente as negras, somos maioria da população brasileira. E somos mãe da outra parte. Qual é o identitarismo que tem aí? Não existe isso. Existe uma política de gênero que exclui por conta da cor da pele e da pobreza, que veio do processo escravocrata e de retirada de direitos. Imagine investir nas mulheres, e já nem estou falando só das negras. O País seria outro. Nós ainda não recebemos o mesmo salário pelo mesmo trabalho igual os homens. Muitas de nós não temos carteira assinada, descanso, férias, decimo-terceiro salário. A base da pirâmide social brasileira é formada por pessoas pobres, mulheres na sua maioria, mulheres negras. Não tem uma luta mais visível de classe do que essa porque ela é de raça e classe.
Os escravizados tiveram seus bens, suas aldeias, seu país, suas origens, seus hábitos e seus costumes arrancados. Quando escravizaram essas pessoas, tiraram delas sua identidade cultural, o direito de ter direito. Isso não é discurso identitário, é a realidade brasileira. Estamos numa fase em que a mulher, apesar do feminicídio e tudo mais, está a cada dia crescendo no sentido de lutar por aquilo que tem direito. Eu deixaria uma mensagem, sobretudo, para a juventude negra, essa juventude da periferia. Que os jovens possam acreditar neles mesmos, que não baixem a cabeça e não aceitem que o destino é aquilo que traçaram para eles com pobreza, miséria, falta de estudo. Já não vale mais considerar essas lutas como identitárias, elas são mais que isso. É a luta de um povo, de uma raça.
CC: Faz 50 anos desde que a senhora surgiu para a política. Como avalia essa trajetória de cinco décadas?
BS: Comecei a fazer política desde quando carregava lata d’água na cabeça. Não tinha água encanada, esgoto nem calçamento na favela. As casas não eram de alvenaria e não tinham luz direta da Light. Ali começou a minha militância política para ter onde morar e trabalhar, ter um saneamento básico, uma praça para as crianças, escola para os filhos.
Eu já lutava por isso quando soube que existia em São Paulo uma discussão sobre a criação de um partido que era muito diferente de todos os outros. Era um partido dos trabalhadores e das trabalhadoras. Então, eu fui para ouvir o Lula falar que o sindicato já tinha conquistado algumas coisas, mas eles tinham percebido que nem tudo era possível porque não tinha um partido que pudesse dar sustentação à sua luta.
Ele resolveu criar um partido amplo, um guarda-chuva para abrigar diversas ideias. Foi criado o PT, eu entrei no partido e fui uma das convidadas em 1982 a disputar as eleições. Fui eleita no Rio, a única vereadora eleita do PT. Não cheguei de mãos vazias, cheguei com o movimento das mulheres da favela, com nosso trabalho de mutirão e proposta de urbanização. Chegamos com uma proposta que foi bem acolhida pelo PT.
CC: Qual recado a senhora deixa em relação ao futuro do PT, da esquerda, da política no Brasil, já que tem tanta gente pessimista?
BS: O Brasil está envelhecendo, então é preciso que a juventude tome as rédeas e siga adiante. É por isso que a gente estimula os jovens a entrar na política, a ir ocupar os espaços que decidem as coisas da vida de cada um de nós. Isso é importante. Os jovens de quando eu comecei cresceram, casaram e tiveram filhos. E passaram essa história para os filhos, que estão na ponta de lá, e os idosos igual a mim na outra ponta. Então, há um encontro muito interessante nesse momento, e o que a gente deve tirar disso é exatamente incentivar os jovens a estar na política. Estejam onde quiserem estar, mas, sobretudo, valorizem as oportunidades que possam surgir.
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