Política
Em debate morno, Haddad vai ao ataque contra Tarcísio em segurança, interior e privatizações
Nos bastidores da ‘Band’, o clima esquentou: um cinegrafista da ‘GloboNews’ foi expulso sob suspeita de agredir um fotógrafo
Únicos candidatos competitivos na disputa, o governador de São Paulo e postulante à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) fizeram um debate morno na noite deste domingo 9, na TV Band, sem ataques “abaixo da linha da cintura”. Não houve, por exemplo, sequer um direito de resposta.
O clima, porém, esquentou fora do estúdio antes de o programa começar: um cinegrafista da GloboNews foi expulso das dependências da Band sob suspeita de agredir um fotógrafo com uma cabeçada. Em nota, a Band afirmou “lamentar profundamente o episódio”. A Globo, por sua vez, disse “repudiar com veemência qualquer forma de violência” e assegurou que “tratará o assunto com a seriedade e o rigor que a situação requer”.
Em diversos momentos, os candidatos nacionalizaram a discussão: Tarcísio reclamou da economia do País, enquanto Haddad, além de criticar o “calote” de Jair Bolsonaro (PL) em governadores em 2022, disse que o adversário deveria agradecer ao presidente Lula (PT) por iniciativas federais no estado.
Logo no primeiro confronto direto do debate, Haddad buscou firmar seu discurso contra Tarcísio na segurança pública. Mencionou, por exemplo, o aumento nos casos de feminicídio no estado, criticou a escolha de Guilherme Derrite (PP) para a Secretaria de Segurança Pública e ironizou o atraso paulista no uso de inteligência artificial para auxiliar o combate ao crime: “Você está no telefone fixo”.
A violência contra as mulheres segue em trajetória de alta no Brasil, mas os números de São Paulo revelam um cenário ainda mais grave. No primeiro semestre deste ano, 142 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado — um aumento de 70% em relação ao mesmo período de 2022, último ano antes do início do governo de Tarcísio.
Também no primeiro bloco, o candidato do PT ensaiou outra estratégia de sua campanha: desgastar o governador no interior de São Paulo, um tradicional bastião antipetista. “A reclamação é sempre a mesma: cadê o governador? Do mesmo jeito que o presidente Lula te apoiou, você deveria apoiar os prefeitos.”
Uma das apostas de Haddad para crescer no interior é a presença de Geraldo Alckmin (PSB), quatro vezes governador paulista e figura com entrada na região. Em 2022, Tarcísio ocupou esse espaço que por décadas foi associado ao PSDB.
Haddad retorna à arena eleitoral sob o peso de três derrotas marcantes. Em 2022 para Tarcísio no segundo turno em São Paulo, por 55% a 45%; em 2018 para Jair Bolsonaro no segundo turno da disputa presidencial, por 55% a 45%; e em 2016, ainda no primeiro turno, em sua busca pela reeleição para prefeito da capital paulista – João Doria marcou 53%, ante 17% de Haddad.
Um desempenho robusto de Haddad também seria fundamental para a reeleição de Lula: São Paulo é o maior colégio eleitoral do País, com mais de 34 milhões de eleitores. Há quatro anos, Lula perdeu para Jair Bolsonaro no estado por 55% a 45%, mas ainda assim amealhou 11,5 milhões de votos, parcela decisiva para sua vitória nacional.
Tarcísio tentou no debate pregar a continuidade como um aspecto positivo. “Ele (Haddad) quer implodir tudo, começar do zero”, afirmou no primeiro segmento do programa. “Esse é o grande risco que temos.”
No segundo bloco, o tarifaço aplicado ao Brasil pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surgiu pela primeira vez. Foi uma oportunidade para Haddad empunhar a bandeira da soberania nacional, uma pauta fundamental também para a campanha de Lula.
“O que se espera do povo brasileiro? Uma união nacional em torno da tese de defender os interesses locais. Mas vimos um grupo político apoiar o agressor, algo inadmissível. Isso não aconteceu em nenhum outro lugar do mundo”, criticou o petista, em referência à articulação de integrantes do clã Bolsonaro por sanções contra o Brasil.
“O que o governador deve fazer é colocar o boné certo na cabeça: o boné do Brasil”, acrescentou Haddad. É uma ironia ao fato de Tarcísio ter utilizado um boné com a inscrição do movimento Make America Great Again, em homenagem à posse de Trump, em janeiro de 2025.
A reta final do segundo bloco foi o momento mais quente do debate, com a segurança pública novamente em foco. Tarcísio acusou Haddad de subir em um palco com uma traficante da Favela do Moinho, na região central da capital. “Acha que eu vou saber quem é do tráfico? Você acha que conheço o tráfico como você conhece?”, devolveu o candidato do PT. “Se você sabia que ela era uma traficante, por que não foi lá prender? Eu não sabia. Se eu soubesse, eu teria dado voz de prisão para ela.”
“Eu não tenho esse tipo de proximidade com nada do que você está falando. Então, você respeita, abaixa essa bola”, completou Haddad.
O petista defendeu que o governador assuma o protagonismo na segurança, “sem terceirizar”, e afirmou que, se eleito, montará um gabinete institucional no qual teriam assento as polícias paulistas, a Polícia Federal, o Ministério Público de São Paulo, o Ministério Público Federal, a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Tarcísio disse que seu governo tem coragem para enfrentar o domínio territorial do crime organizado.
O terceiro e último bloco começou com críticas de Haddad às privatizações da Sabesp e da operação de linhas de trem. O petista também se contrapôs ao programa de Tarcísio para terceirizar a gestão de escolas. “Você desconhece a situação de falta de água na capital e no interior. E ignora o que acontece quando a água chega. Não está vendo as reportagens sobre o odor da água?”.
O ex-ministro da Fazenda ainda ironizou a promessa firmada por Tarcísio de que a conta de água ficaria mais barata após a privatização da Sabesp. A maioria (54%) dos eleitores paulistas é contrária à venda da Sabesp, segundo uma pesquisa Datafolha publicada no mês passado. Dois anos depois da concretização do negócio, 31% se dizem favoráveis à entrega da companhia à iniciativa privada.
Cientistas políticos se dividem sobre a relevância dos debates nesta era de consolidação das redes sociais como arena eleitoral. Haddad, porém, vê nesses encontros uma oportunidade de fustigar Tarcísio, favorito de acordo com as pesquisas de intenção de voto — não à toa, o candidato do PT confirmou com grande antecedência sua participação no programa da Band. O governador, por outro lado, assegurou sua presença apenas no início desta semana, um sinal de que avaliará seu grau de exposição na campanha de acordo com os números da disputa.
O debate na Band teve atmosfera de segundo turno, uma vez que contou com apenas dois postulantes — apesar de eles sequer poderem pedir votos, já que a campanha só começará oficialmente no próximo domingo 16. Serviu também para apresentar um Haddad muito mais incisivo, que não parece nem sombra do candidato inseguro dos debates de 2012, quando venceu a corrida pela prefeitura da capital. Mais maduro, o petista agora ironiza Tarcísio e o compara a concurseiros: decora números e nomes para fingir conhecer a fundo a realidade paulista.
Assista à íntegra do debate:
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.




