Mundo

assine e leia

Delírios de um ditador

Daniel Ortega despedaça os últimos trapos da fantasia sandinista

Delírios de um ditador
Delírios de um ditador
Golpe dentro do golpe. O autocrata revela a intenção de acabar com as eleições – Imagem: Cesar Perez/Presidência da Nicarágua
Apoie Siga-nos no

Depois de anunciar que “não haverá mais eleições” na Nicarágua, o ditador Daniel Ortega e a esposa, a “copresidente” Rosario Murillo, recuaram na segunda-feira 27. O casal, que desde a reforma constitucional de 2025 passou a governar o país em dupla, adiou para setembro a abolição de todos os partidos políticos classificados como “traidores” e “golpistas”. Até lá, esperam convencer a comunidade internacional de que a extinção das eleições na Nicarágua seria uma boa ideia.

Assim como Jair Bolsonaro fez no Brasil em julho de 2022 e o filho mais velho dele, Flávio, repetiu em julho deste ano, Ortega e Murillo têm convocado reuniões com embaixadores estrangeiros para criticar a oposição, colocar em dúvida o processo eleitoral e fazer pregações golpistas. Em tese, as famílias Bolsonaro e Ortega não poderiam estar em extremos mais opostos do espectro político-ideológico latino-americano. Na prática, entretanto, ambos mostram como as franjas mais radicais da direita e da esquerda podem se encontrar nos ataques ao modelo de ­democracia liberal.

A história de Ortega é a de uma guinada imprevisível. Um dos principais líderes da Revolução Sandinista que em 1979 pôs fim aos mais de 40 anos de ditadura da família Somoza, ele se tornaria presidente do país pela primeira vez em 1995. Cumprido um mandato de cinco anos, seria substituído no poder, por escolha popular, pela direitista Violeta Chamorro. Voltaria ao palácio em 2007, desta vez para se perpetuar no cargo por meio de uma política de expurgos dirigida não apenas contra adversários, mas a antigos companheiros sandinistas que acabaram presos ou exilados, denunciando, do exterior, a instauração de uma nova ditadura.

A última onda significativa de protestos e questionamentos a Ortega ocorreu em 2018, quando o presidente comandou uma repressão violenta que resultou na morte de ao menos 350 manifestantes. Os últimos opositores significativos foram presos ou mandados ao exílio em 2021. Um dos mais célebres foi o líder indígena Brooklyn ­Rivera, chefe do povo Miskito, que acabou morto na cadeia, aos 73 anos, depois de ter passado quase três anos como prisioneiro político. Organizações internacionais de direitos humanos como a Human Rights Watch denunciam a existência de ao menos 50 presos nas mesmas condições, além do fechamento de mais de 5 mil ONGs, 29 universidades e 58 órgãos de imprensa não alinhados ao governo.

Desde 2007, o ex-guerrilheiro se perpetua no poder

No discurso de celebração dos 47 anos da Revolução Sandinista, em 19 de julho, ele mesmo não deixou claro se pretende cancelar definitivamente as eleições na Nicarágua ou apenas excluir os opositores das disputas fajutas daqui em diante. Suas declarações públicas a esse respeito têm sido tão superlativas quanto vagas. Alguns de seus apoiadores argumentam que a preocupação de Ortega é legítima, pois os Estados Unidos estariam de fato insuflando artificialmente movimentos de oposição com a intenção de restaurar a ordem política que existia antes do fim da ditadura de Somoza. Segundo essas vozes, a própria distorção das declarações do ditador seria uma expressão dessa campanha internacional de sabotagem. O presidente nicaraguense teria dito, na verdade, que pretende combater fraudes eleitorais, não a oposição em si.

As interpretações benevolentes sobre o real sentido do discurso de Ortega­ ignoram os fatos. “O espaço cívico na Nicarágua está quase completamente fechado. A expressão independente de opinião é reprimida sistematicamente”, disse o austríaco Volker Türk, alto comissário da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos, alertando para o fato de que recentemente diversos advogados tiveram as licenças cassadas pelo governo sem explicação.

Além de atacar as eleições, como Bolsonaro faz, Ortega copia ideias de outro célebre líder da extrema-direita internacional, o presidente norte-americano, Donald Trump, quando diz que vai “construir um muro” contra a oposição nicaraguense. A ideia do muro foi ­slogan de campanha de Trump contra os imigrantes, nos Estados Unidos, e depois reapareceu na boca de outros líderes desse campo, como o presidente do Chile, José Antonio Kast, que ergueu uma barreira física contra estrangeiros no norte do país. Ortega vai em igual toada, mesmo que seus inimigos declarados sejam os partidos “criados pelos ianques”. Na retórica do ditador octogenário, as ideias típicas da extrema-direita têm se proliferado à sombra de um sandinismo carcomido.

A escalada autoritária já não é respaldada nem mesmo por antigos aliados de esquerda. Sob comando do presidente Lula, o Brasil, por exemplo, publicou nota na qual defendeu “a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes” na Nicarágua, caracterizando-as como “esteios da democracia, valor com o qual o Brasil tem profundo compromisso”. A reação nicaraguense foi dosada. Em nota oficial, a chancelaria de Ortega reafirmou a soberania sobre os assuntos internos e rechaçou qualquer interferência estrangeira, mas reafirmou diplomaticamente seu “carinho fraternal pelo povo do Brasil”.

O governo da Nicarágua dá a entender que suas ideias ditatoriais sobre as eleições e os partidos de oposição estão em fase de teste, dirigido sobretudo ao corpo diplomático internacional lotado na capital, Manágua. O próprio tom da nota emitida em resposta ao Brasil mostra que o país não está alheio à opinião pública internacional, de onde vem hoje a única pressão capaz de modular as atitudes de um governo que já não tolera a oposição interna há muitos anos. •

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Delírios de um ditador’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo