Política

assine e leia

Em clima de mata-mata

Enquanto se defende das pautas-bombas, o governo corre para destravar a PEC do fim da escala 6×1

Em clima de mata-mata
Em clima de mata-mata
Campo minado. Alcolumbre cria dificuldades. Motta mantém postura dúbia. No STF, Mendes pretende barrar projetos que criem despesas obrigatórias sem compensação – Imagem: Saulo Cruz/Agência Senado e Sergio Lima/AFP
Apoie Siga-nos no

Em meio à frustração da sexta eliminação consecutiva do Brasil em uma Copa do Mundo, o governo redobrou seus esforços para também não sair derrotado em mais um confronto com o Congresso Nacional. Ao longo da semana, líderes governistas na Câmara e no Senado buscaram avançar em dua­s frentes consideradas fundamentais: a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da escala 6×1 e a reversão de nove projetos identificados pelo Executivo como “pautas-bombas”, que podem resultar em um impacto anual de 111 bilhões de reais nos cofres públicos. O presidente Lula deseja ver os dois nós desatados até 17 de julho, último dia antes do recesso legislativo, mas para conquistar essa vitória o time do Executivo terá que furar a retranca de Hugo Motta e Davi Alcolumbre.

Ávido em acelerar as pautas indesejadas pelo governo, Alcolumbre, do União Brasil, se mostra firme na “marcação” à PEC da Escala 6×1. Na verdade, os sinais emitidos pelo presidente do Senado são dúbios. Durante uma audiência pública realizada em 1º de julho, na presença de líderes das centrais sindicais, ele não somente disse que trabalhará pela aprovação da proposta como sugeriu que fosse eliminado o período de transição de 12 meses para a adoção das 40 horas semanais. Na prática, contudo, emperra o avanço da matéria. Após a aprovação pela Câmara em 27 maio, ele decidiu que a PEC percorrerá a tramitação normal – e mais demorada – no Senado, a começar pela Comissão de Constituição e Justiça. Com isso, a base governista acha improvável uma definição antes do recesso. “Simplesmente não dará tempo”, resume Otto Alencar, do PSD, presidente da CCJ.

Alcolumbre conduziu no plenário a aprovação do projeto que prevê o uso do Fundo Social do pré-sal para financiar a renegociação de dívidas dos produtores rurais com a União. A medida terá impacto de 140 bilhões de reais nos próximos dez anos, segundo o Ministério da Fazenda. As pautas-bombas também avançaram na CCJ, onde foi aprovada uma PEC que cria um regime especial de aposentadoria para agentes de saúde, com impacto de 30 bilhões em dez anos, e na Comissão de Assuntos Sociais, que aprovou a elevação do piso salarial nacional de médicos e dentistas de 3,6 mil reais para 13,6 mil, com um impacto estimado em 47 bilhões. Da mesma forma, estão na fila de votação outros projetos que aumentam as despesas obrigatórias, como a ampliação da imunidade tributária para templos religiosos e os rea­justes nos limites de enquadramento para o MEI e o Simples Nacional.

O Executivo tenta furar a retranca de Hugo Motta e Davi Alcolumbre antes do recesso legislativo

O ministro da Fazenda, Dario ­Durigan, afirma que quem estiver à frente da pasta no próximo ano terá “muita dificuldade em fechar minimamente as contas públicas” caso as pautas-bombas avancem. “Algumas pautas apresentadas como prioritárias por setores do Congresso podem recolocar o Brasil em uma situação ruim”, afirmou. ­Durigan também defende que a PEC da Escala 6×1 seja aprovada sem alterações pelo Senado. “O texto que veio da Câmara é bom”, avalia.

No caso das dívidas rurais, o governo não quer simplesmente fazer uma nova transferência de renda ao agronegócio, com descontos em empréstimos que já haviam sido contratados com juros subsidiados. Para o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, a aprovação das pautas-bombas revela “certa incompreensão sobre a questão fiscal” por parte dos parlamentares. O colunista e consultor editorial de CartaCapital avalia que a multiplicidade de propostas que representam gastos extras para o governo tem claro viés eleitoral. “O Congresso está repleto de interesses do agronegócio”, diz.

O governo precisará também superar outro “zagueiro” no Congresso. Motta, do Republicanos, é mais cauteloso nas caneladas nos adversários. O presidente da Câmara permitiu, durante a semana, que o governo ganhasse uma sobrevida na questão das dívidas rurais. Em reunião com Durigan e os líderes do PT, Pedro Uczai, e do governo, Paulo Pimenta, além de José Guimarães, ministro das Relações Institucionais, comprometeu-se a não colocar em pauta o projeto vindo do Senado. O governo agora trabalha para apresentar na forma de Medida Provisória uma nova proposta, mas não houve consenso em uma primeira reunião com representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária realizada na terça-feira 7. “Vamos apresentar ao presidente Motta uma proposta alternativa para tentar fechar um acordo sobre essa questão”, diz o deputado federal Rogério Correia, do PT.

Agronegócio. O setor faz lobby para renegociar até empréstimos com juros subsidiados – Imagem: iStockphoto

O Palácio do Planalto já avisou que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal caso sejam aprovadas as pautas-bombas do Congresso. A estratégia jurídica traçada pela Advocacia-Geral da União tem como pilares dois argumentos. O primeiro é que as medidas não estimam o impacto sobre o Orçamento. Além disso, todas as propostas implicam aumento da dívida pública sem as devidas medidas compensatórias de receita, o que infringe a Lei de Responsabilidade Fiscal. Procurada pela reportagem, a AGU afirmou que só se posicionará oficialmente quando houver a orientação do governo nesse sentido. Uma pista de que o Executivo já fez algumas investidas no STF foi dada pelo decano Gilmar Mendes, que apresentou uma proposta de orientação jurídica para que todos os tribunais do Brasil declarem inconstitucionais projetos que impliquem novas despesas obrigatórias.

Alcolumbre também deu um refresco ao time de Lula nesta semana, ao não pautar em plenário a PEC que cria a aposentadoria especial para agentes de Saúde. O acordo foi obtido após conversa com a líder do governo no Senado, Teresa Leitão: “Insistimos na responsabilidade que o Congresso precisa ter com o Orçamento e com o bom funcionamento das instituições. É uma irresponsabilidade muito grande lançar pautas que o governo certamente terá de vetar em nome da estabilidade econômica do País”, diz a senadora. Também foi reiterada a importância da votação da PEC da escala 6×1. “É um tema que está pronto para ser votado e conta com amplo apoio na sociedade”, destaca. Teresa Leitão diz acreditar que “a oposição não vai querer passar pelo vexame” de não aprovar o texto da PEC como veio da Câmara. “Não vamos desistir porque esta é uma pauta civilizatória e de avanço das relações trabalhistas, com efeitos sobre a família, o lazer e a cultura”, justifica a senadora.

O refinanciamento das dívidas rurais pode custar aos cofres públicos 140 bilhões de reais em dez anos

Alcolumbre ouviu o apelo, mas não se comprometeu. Por ora, não se sabe para onde seguirá o errático presidente do Senado. A interlocutores, ele avisou que só decidirá qual caminho seguir após uma conversa direta com Lula, mas o presidente da República, irritado com o senador desde que este articulou a rejeição à indicação de Jorge Messias ao STF, ainda não deu qualquer sinal de que esse encontro acontecerá nos próximos dias. Diante disso, há o temor de que Alcolumbre utilize a sessão conjunta do Congresso, prevista para quinta-feira 9, para analisar – e derrubar – alguns vetos presidenciais em temas como incentivo ao uso de carvão mineral, a contratação obrigatória de termoe­létricas a gás e a instalação de parques eólicos offshore, todos potencialmente ameaçadores ao Orçamento.

Após ser chamado de “inimigo dos trabalhadores” por Pedro Uczai e ter escutado do ministro Guilherme Boulos que estava “errando feio” ao não acelerar o trâmite da PEC da escala 6×1, Alcolumbre reagiu e afirmou que “ameaças e tentativas de intimidação não serão mais toleradas”. O senador classificou como inadequada a maneira como o governo trata alguns assuntos pendentes de apreciação no Senado. “Tem autoridade falando que a PEC precisa ser aprovada logo porque vai servir para o calendário eleitoral. Isso não pode”, disse, talvez apostando que a partida vá para prorrogação. •

Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Em clima de mata-mata’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo