Economia
Audiência nos EUA reúne indústria, agro e bolsonaristas para discutir tarifaço de Trump
Empresas e entidades brasileiras tentarão barrar a sobretaxa de 25%, enquanto Flávio Bolsonaro e Paulo Figueiredo também falarão. O Itamaraty acompanha as sessões
Começam nesta segunda-feira 6, às 11h (de Brasília), em Washington, as audiências públicas do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), última etapa da investigação comercial aberta contra o Brasil antes da decisão prevista para 15 de julhosobre um novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros.
Durante dois dias, representantes de indústria, agronegócio, empresas, associações e sociedade civil apresentarão argumentos a favor e contra a medida, recomendada com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.
As audiências ocorrem na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos e são divididas em 14 painéis. Cada expositor terá cinco minutos para defender sua posição, seguidos por perguntas do USTR. O governo brasileiro não participa formalmente porque considera que esse é um espaço destinado ao setor privado, enquanto a negociação entre os dois países ocorre por canais diplomáticos.
Um dos pontos que mais chamam atenção é a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do influenciador Paulo Figueiredo. Ambos discursarão contra a adoção das tarifas, embora estejam entre os principais articuladores, ao lado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), da ofensiva junto ao governo Donald Trump que resultou na abertura da investigação comercial contra o Brasil e na escalada das medidas de pressão sobre o governo brasileiro.
Desde 2025, Eduardo passou a trabalhar nos Estados Unidos pela adoção de medidas contra autoridades brasileiras, incluindo o tarifaço, a aplicação da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal e a revogação de vistos. Figueiredo participou dessa articulação diretamente em Washington e chegou a defender publicamente o endurecimento das sanções. Flávio, por sua vez, reuniu-se com Trump, com o vice-presidente JD Vance e com o secretário de Estado Marco Rubio, e apresentou ao USTR uma manifestação de 86 páginas na qual pede que a sobretaxa seja suspensa por 180 dias, permitindo que a discussão fique para depois das eleições brasileiras. O senador sustenta que a tarifa fortaleceria eleitoralmente o presidente Lula (PT) em vez de pressioná-lo.
A atuação do grupo levou o Itamaraty a reagir publicamente. Em nota divulgada após Flávio solicitar espaço para falar na audiência, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que “os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história” e declarou que o “tarifaço tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na Justiça brasileira”. Segundo a pasta, “o que os traidores da Pátria devem ao Brasil é um pedido de desculpas pelas tarifas e pelos prejuízos causados a milhares de brasileiros”.
O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o influenciador Paulo Figueiredo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Foto: Reprodução redes sociais
Quem falará contra o tarifaço
A maior parte das entidades brasileiras defenderá que a sobretaxa prejudica tanto o Brasil quanto os próprios Estados Unidos, por elevar custos de cadeias produtivas integradas.
Entre os principais expositores estão:
Segunda-feira 6
- Andressa Silva (Abiarroz);
- Marcelo Schunn Junqueira (Sociedade Rural Brasileira);
- Fernanda Carneiro (CNA);
- Marcos Matos (Cecafé) e José Luiz Pimenta Júnior (ABICS);
- Kristina Rosales (Amcham Brasil);
- Paulo Figueiredo;
- Vinicius Nunes Pinto e Gustavo Pessoa, representantes da sociedade civil;
- Welber Barral (Unica) e Andrea Almeida (Unem).
Terça-feira 7
- Flávio Bolsonaro;
- Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC, falará em nome da CNI e também representará Fiesp e CSN;
- Letícia Sperb Masselli (Abicalçados)
- Ao longo do dia também participam representantes da Abimaq, Anfacer, ABIMCI, Ibá, Centrorochas, Sindifer, Klabin, além de entidades dos setores de madeira, máquinas, papel, siderurgia, mineração, rochas ornamentais e ferro-gusa.
Quem defenderá a tarifa
Também participarão da audiência empresas e associações norte-americanas favoráveis à manutenção ou à ampliação das tarifas. Elas sustentam que produtores dos EUA enfrentam concorrência desleal em razão de políticas brasileiras relacionadas ao etanol, à agropecuária, ao aço, à madeira e a outros setores.
Entre os principais defensores da medida estão:
- R-CALF USA e United States Cattlemen’s Association
- U.S. Grains & BioProducts Council, Growth Energy e National Corn Growers Association;
- Steel Manufacturers Association, Cleveland-Cliffs e Mesabi Metallics;
- American Sugarbeet Growers Association e U.S. Beet Sugar Association;
- Coalition of American Millwork Producers;
- Obelisk Tech Systems.
Próximos passos
A investigação aberta pelos Estados Unidos questiona políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital e ao Pix, acordos comerciais preferenciais, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. As manifestações apresentadas nas audiências servirão de subsídio para a decisão final do governo Trump, prevista para 15 de julho.
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