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O lado escuro da psicodelia
A psicodelia dos anos 60 não se construiu apenas de cenários coloridos e expansão de consciência; mas também de isolamento, fragilidade mental e alienação. Syd Barrett, fundador do Pink Floyd, é exemplo disso.
Quando se fala em psicodelia, a imagem que costuma surgir é colorida. São capas de discos extravagantes, festivais ao ar livre, experiências de expansão da consciência e uma geração convencida de que estava explorando territórios desconhecidos da mente humana. A narrativa mais popular dos anos 1960 é a de uma época de liberdade criativa e descoberta. Mas existe uma outra história, menos confortável, escondida atrás dessas cores vibrantes. A história da psicodelia não é feita apenas de criatividade e descoberta. Ela também é feita de fragilidade, sofrimento e pessoas que ficaram pelo caminho.
Poucos personagens representam tão bem essa face menos romantizada da psicodelia quanto Syd Barrett. Fundador do Pink Floyd, compositor, guitarrista e principal força criativa dos primeiros anos da banda, Barrett ajudou a moldar o som psicodélico britânico e a construir um universo musical que parecia existir em algum lugar entre a fantasia infantil e a exploração dos limites da percepção. Seu talento era evidente. Sua imaginação parecia inesgotável. O problema é que, em algum momento, essa diferença deixou de ser apenas artística.
O álbum de estreia da banda, The Piper at the Gates of Dawn, continua sendo um dos retratos mais fascinantes da psicodelia britânica. Há nele uma sensação de encantamento, estranheza e experimentação que permanece viva quase seis décadas depois. Barrett parecia enxergar o mundo por um ângulo diferente. Ao mesmo tempo, porém, amigos, familiares e colegas começaram a notar mudanças preocupantes em seu comportamento. Episódios de isolamento, dificuldade de comunicação, apatia e um progressivo afastamento da realidade passaram a fazer parte de sua rotina.
Como Barrett fazia uso frequente de LSD naquele período, muitas pessoas passaram a associar automaticamente sua deterioração psicológica ao consumo da substância. A narrativa era simples e conveniente: um jovem artista brilhante teria enlouquecido por causa do ácido. O problema é que a realidade parece ter sido muito mais complexa do que isso.
Em diferentes entrevistas concedidas ao longo das décadas, integrantes do próprio Pink Floyd frequentemente rejeitaram a ideia de que o LSD, por si só, pudesse explicar o que aconteceu com Barrett. Roger Waters, David Gilmour e outros músicos próximos a ele já sugeriram que havia algo mais profundo em curso, uma vulnerabilidade psiquiátrica que precedia ou transcendia o consumo de drogas. Embora o uso intenso de psicodélicos possa ter contribuído para agravar, acelerar ou tornar mais visível um quadro já existente, muitos dos que conviveram com Barrett acreditavam que sua deterioração não pode ser reduzida a uma simples consequência do LSD. Talvez por isso sua história continue despertando tanto debate. As pessoas gostam de explicações fáceis, mas nem sempre elas correspondem aos fatos. Culpar exclusivamente o LSD transforma uma trajetória humana extremamente complexa em uma fábula moral simplificada.
O fato é que Barrett foi se tornando incapaz de acompanhar a rotina da banda que havia ajudado a criar. Em 1968, seus colegas tomaram a dolorosa decisão de seguir sem ele. A história entrou para o folclore do rock: em determinado momento, simplesmente deixaram de buscá-lo para os shows. O fundador do Pink Floyd estava fora.
Sua ausência, porém, nunca desapareceu completamente. Ela continuou assombrando a trajetória do grupo. Temas como isolamento, alienação, fragilidade mental e ruptura com a realidade surgem repetidamente em sua obra. Não é difícil enxergar a sombra de Barrett pairando sobre discos posteriores. De certa forma, o Pink Floyd passou décadas dialogando com um fantasma.
A história de Syd Barrett também não é um caso isolado. Ao longo das últimas décadas, documentários, biografias e relatos de comunidades psicodélicas registraram histórias de pessoas que ficaram pelo caminho. Em alguns casos, o uso abusivo de substâncias parece ter agravado problemas psicológicos já existentes. Em outros, experiências intensas podem ter funcionado como gatilhos para condições que permaneciam latentes. A realidade costuma ser mais complexa do que os discursos de celebração ou condenação absoluta.
Talvez seja impossível ouvir The Dark Side of the Moon sem lembrar que existe um lado menos iluminado em toda história de expansão da consciência. Isso não significa negar os potenciais benefícios dos psicodélicos nem ignorar a importância das pesquisas contemporâneas. Significa apenas reconhecer que a mente humana continua sendo um território profundamente complexo. A própria história de Barrett serve como lembrete de que correlação não é necessariamente causalidade. O fato de alguém ter usado psicodélicos antes de desenvolver um grave sofrimento psíquico não significa automaticamente que a substância tenha sido sua causa exclusiva.
A trajetória de Syd Barrett permanece tão fascinante justamente porque resiste às explicações fáceis. Ela nos lembra que a psicodelia não é feita apenas de cores brilhantes, mas também de sombras. E que compreender a história completa exige olhar para ambas.
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