Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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Mito, excesso e queda: ‘The Doors’ como tragédia dionisíaca

Mais do que uma biografia, a obra funciona como um fluxo sensorial contínuo, uma visão febril, acelerada e lisérgica

Mito, excesso e queda: ‘The Doors’ como tragédia dionisíaca
Mito, excesso e queda: ‘The Doors’ como tragédia dionisíaca
Ao centro, Val Kilmer não interpreta Morrison: ele o incorpora (Reprodução)
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Em The Doors (1991), o cinema abandona a pretensão de retrato fiel para mergulhar em algo mais instável: um espelho distorcido da imagem pública de Jim Morrison. Não se trata de reconstruir um homem com precisão histórica, mas de atravessar a imagem que se formou ao seu redor — ampliada, distorcida e, muitas vezes, irreconhecível.

O filme rejeita uma abordagem linear e organiza sua narrativa em fragmentos. Eventos são reorganizados, condensados e exagerados como se estivessem sendo filtrados por uma percepção alterada. O resultado não é uma linha do tempo confiável, mas um fluxo sensorial que privilegia intensidade sobre clareza, experiência sobre explicação.

Essa lógica se manifesta na construção visual. Rostos e espaços são frequentemente deformados, o enquadramento perde estabilidade e reflexos multiplicam identidades. A fotografia aposta em contrastes agressivos e luzes estouradas, enquanto a direção de arte recria uma Califórnia dos anos 60 vibrante, excessiva e saturada de estímulos. Figurinos, cenários e figurantes não apenas compõem o ambiente, mas participam dele como extensões de um estado perceptivo alterado, onde tudo parece prestes a transbordar.

As sequências de shows e de delírio psicodélico intensificam essa proposta. Montagem, música e imagem se sobrepõem até dissolver qualquer distância confortável entre o espectador e o que é visto. Não há pausa suficiente para organizar o que se percebe. O filme não pede compreensão — exige entrega.

É nesse ponto que o filme revela outra camada de leitura.

Nesse sentido, The Doors também assume contornos de mito trágico. A trajetória de Jim Morrison é encenada como uma jornada marcada por excesso, destino e autodestruição — menos biografia do que ritual. Desde o início, a narrativa sugere um desfecho inevitável, como se o personagem já caminhasse em direção à própria queda. Ao longo do filme, a presença da morte se insinua de forma recorrente, surgindo como figura silenciosa que acompanha os momentos de maior intensidade, quase como um presságio constante. Sequências como a execução de “The End” ou a descida a espaços que evocam o inconsciente reforçam essa sensação de destino. A montagem dissolve as fronteiras entre tempo e percepção, transformando Morrison em algo além de indivíduo: um arquétipo em combustão, atravessado por uma lógica trágica. Nesse registro, o filme se aproxima de uma tragédia dionisíaca, em que a busca por expansão sensorial coincide com a própria ruína.

Ao centro, Val Kilmer não interpreta Morrison: ele o incorpora. Sua performance vocal, executando as próprias canções, reforça a sensação de presença e elimina a distância entre ator e personagem. Ao seu lado, Meg Ryan constrói uma Pamela Courson marcada por uma relação intensa, instável e progressivamente autodestrutiva — um vínculo tão afetivo quanto corrosivo, que acompanha a trajetória do personagem como força emocional e destrutiva.

Ainda que relatos próximos — de amigos, familiares e membros da banda — contestem a fidelidade de diversos acontecimentos, o filme não parece interessado em precisão. Sua força está justamente na distorção, na escolha consciente de transformar trajetória em experiência.

Mais do que uma biografia, The Doors funciona como um fluxo sensorial contínuo, uma visão febril, acelerada e lisérgica que transforma a trajetória de Morrison em mito — não pelo que foi, mas pelo que passou a representar.

Se o filme de Oliver Stone prefere sentir — mesmo que isso signifique distorcer — talvez essa seja a chave: The Doors não é sobre quem Morrison foi, mas sobre o que ele se tornou no imaginário coletivo — uma figura ampliada, fragmentada e recriada tantas vezes que já não pertence à realidade, mas a um delírio coletivo.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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