Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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Terror psicodélico e o medo de enlouquecer

A trajetória de John C. Lilly e o terror de ‘Viagens Alucinantes’ ajudam a compreender por que o medo de enlouquecer continua assombrando a cultura e a vida contemporânea

Terror psicodélico e o medo de enlouquecer
Terror psicodélico e o medo de enlouquecer
(Ilustração: CartaCapital/Midjourney)
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Poucas coisas parecem mais aterrorizantes para o ser humano do que a ideia de perder o controle da própria mente. O medo de enlouquecer, perder a identidade ou nunca mais conseguir retornar completamente à realidade atravessa não apenas a cultura psicodélica, mas também o imaginário do horror psicológico moderno.

Durante décadas, histórias sobre pessoas que “nunca mais voltaram” após experiências com LSD, cogumelos ou ayahuasca ajudaram a construir uma espécie de folclore contemporâneo do colapso mental. Algumas dessas narrativas surgem de exageros, paranoia e pânico moral. Outras, porém, estão ligadas a experiências reais de sofrimento psíquico, especialmente entre pessoas emocionalmente vulneráveis ou já atravessadas por quadros psicológicos delicados.

Existe algo profundamente perturbador na possibilidade de que a própria consciência possa simplesmente se desorganizar — às vezes de maneira permanente. Talvez por isso o horror psicodélico continue tão fascinante na cultura pop: ele transforma estados alterados da mente em experiências de terror existencial.

O filme Altered States (Viagens Alucinantes), dirigido por Ken Russell em 1980, talvez seja um dos exemplos mais extremos desse medo. Inspirado parcialmente nas experiências do cientista John C. Lilly com tanques de privação sensorial e estados alterados de consciência, o longa acompanha um pesquisador obcecado pelos limites da mente humana. Entre isolamento sensorial, substâncias psicodélicas e experimentos cada vez mais radicais, a busca científica pela expansão da consciência transforma-se lentamente em um mergulho sombrio rumo à dissolução da própria identidade.

Os tanques de privação sensorial utilizados por Lilly consistiam em estruturas fechadas, com água aquecida e isolamento quase completo de estímulos externos, reduzindo drasticamente sons, luzes e sensações físicas. A proposta era investigar estados profundos da consciência humana. Mas justamente aí surgia o aspecto mais perturbador desses experimentos: o que acontece quando o cérebro é forçado a encarar apenas a si mesmo?

John Lilly tornou-se uma figura quase mítica da cultura psicodélica. Neurocientista, pesquisador e explorador radical da consciência, ficou conhecido por seus experimentos com privação sensorial, comunicação com golfinhos e uso intenso de LSD e cetamina. Para Lilly, a mente humana talvez fosse capaz de acessar estados muito além da percepção cotidiana. Mas, nessa possibilidade, também surgia o elemento mais assustador: até que ponto seria possível atravessar essas experiências sem perder completamente os próprios limites psicológicos?

Em Viagens Alucinantes, esse medo assume forma física. O protagonista não apenas enlouquece emocionalmente, mas parece regredir biologicamente, como se o mergulho profundo na mente humana despertasse algo ancestral, primitivo e monstruoso. O horror não nasce de um assassino externo ou de uma criatura sobrenatural, mas da hipótese de que a consciência humana talvez esconda regiões caóticas demais para serem acessadas sem consequências.

O paralelo com a vida contemporânea parece inevitável. Em uma época marcada por burnout, hiperestimulação digital, cobranças excessivas, relações fragilizadas após a pandemia, ansiedade coletiva, dependência tecnológica e excesso de informação, o medo de perder a estabilidade mental diante do estresse crônico aproxima-se cada vez mais da experiência cotidiana. Um cérebro em exaustão pode transformar paranoia, insônia, ansiedade e despersonalização em experiências profundamente aterrorizantes.

É justamente por isso que o terror psicodélico continua tão atual. No fundo, ele funciona como uma metáfora extrema para um medo muito mais universal: a sensação de que a mente humana possui limites frágeis, instáveis e vulneráveis ao colapso. E de que, em algum lugar entre ciência, trauma, exaustão e expansão da consciência, existe uma fronteira delicada demais para ser atravessada sem riscos.

Em um mundo saturado de informação, no qual o estímulo é constante e a aceleração virou regra, guerras, instabilidade política e ameaças chegam diariamente aos olhos pelas telas. A desigualdade cresce, a ansiedade parece ter contaminado tudo e a sensação permanente de esgotamento tornou-se quase um estado coletivo. Não é difícil entender por que tantas pessoas tentam escapar da própria realidade.

Seja por meio de experiências psicodélicas, isolamento, espiritualidade, hiperconsumo digital, jogos, álcool, drogas, maratonas de séries ou trabalho compulsivo, existe uma tentativa contínua de fugir do peso psicológico que a vida no século XXI parece ter adquirido. E talvez o aspecto mais perturbador seja justamente este: experiências de alteração da consciência e mergulhos interiores parecem estar, pouco a pouco, transformando-se em parte de um guia de sobrevivência no planeta Terra.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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