Justiça
Entre a volta à prisão e a briga de família: Bolsonaro tenta salvar a candidatura de Flávio
Ex-presidente, que aguarda decisão sobre a manutenção da prisão domiciliar, é apontado por aliados como o único capaz de pacificar o racha de Michelle e Flávio e evitar novos desgastes para o projeto eleitoral do PL
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) passou a ocupar o centro da crise aberta entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu filho e pré-candidato do partido ao Palácio do Planalto.
Enquanto aguarda uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes sobre a manutenção da prisão domiciliar – cujo prazo termina nesta quinta-feira 25 – ou um eventual retorno à Papudinha, Bolsonaro é apontado por aliados como o único capaz de arbitrar o conflito e preservar a estratégia construída pela extrema-direita para 2026.
A briga tem como pano de fundo o apoio do PL a Ciro Gomes (PSDB), pré-candidato ao governo do Ceará. Bolsonaro pode reafirmar a aliança e encerrar a disputa. Aliados avaliam que uma manifestação do ex-presidente seria a forma mais eficaz de encerrar a crise, embora qualquer iniciativa pública dependa das restrições impostas pelo STF.
Poderia haver, por exemplo, a publicação de uma carta pública, como a que Bolsonaro divulgou no fim do ano passado, quando oficializou Flávio como seu sucessor na corrida presidencial. Integrantes do partido afirmam que todas as articulações envolvendo o apoio do partido a Ciro tiveram o aval do ex-presidente.
A preocupação da cúpula do PL é que a exposição do conflito desgaste justamente um dos pontos considerados mais frágeis da candidatura de Flávio: o desempenho entre o eleitorado feminino. O senador tem buscado ampliar sua penetração nesse segmento, inclusive discutindo a escolha de uma mulher para compor sua chapa como candidata a vice-presidente.
A estratégia tenta reduzir uma desvantagem que aparece de forma consistente nas pesquisas de intenção de voto. Levantamentos divulgados nas últimas semanas mostram ampla vantagem do presidente Lula (PT) entre as mulheres em um eventual segundo turno:
- Pesquisa CNT/MDA aponta Lula com 52% contra 33% de Flávio entre o eleitorado feminino;
- Na Nexus/BTG, o placar é de 55% a 37%;
- No PoderData, de 50% a 38%;
- No Datafolha, de 51% a 37%;
- E na Genial/Quaest, de 45% a 36%.
A crise ganhou força após Michelle divulgar dois vídeos em que relata ter sido “maltratada”, “desrespeitada” e “humilhada” por Flávio durante uma ligação telefônica ocorrida após divergências sobre a estratégia eleitoral do PL no Ceará. Ela afirmou ainda que o enteado minimizou sua participação política e disse que ela deveria ficar fora das decisões do partido.
Horas depois, Flávio divulgou uma nota pública em que negou ter tido a intenção de ofender a ex-primeira-dama. “Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas”, escreveu.
O senador também ressaltou que todas as suas decisões são tomadas com o respaldo do pai e afirmou estar cumprindo “uma missão designada por Jair Messias Bolsonaro”. Além disso, convidou Michelle para participar de um encontro de lideranças femininas conservadoras em Brasília e defendeu que o foco do grupo seja “derrotar o PT”.
Na manhã desta quinta-feira, Michelle adotou um tom de conciliação. Em publicação nas redes sociais, afirmou que não sente “raiva de ninguém” e que apenas esclareceu uma situação que, segundo ela, vinha sendo deturpada.
A ex-primeira-dama também negou haver disputa interna. “Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno. Não há briga, nem competição”, escreveu, pedindo que suas declarações não fossem “retiradas de contexto”.
Apesar do discurso, a crise expôs divisões dentro do campo bolsonarista. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) saiu em defesa do irmão ao compartilhar manifestações favoráveis a Flávio. Também demonstraram apoio ao senador nomes como o deputado federal cassado e foragido Alexandre Ramagem (PL-RJ) e o deputado Mario Frias (PL-SP), que repercutiram a nota publicada por ele.
Michelle, por sua vez, recebeu manifestações públicas de solidariedade da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que classificou sua fala como “coerente”, “forte” e “corajosa”. A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), afirmou que a ex-primeira-dama “não está sozinha”, enquanto a vereadora de São Paulo Janaina Paschoal (PP) avaliou que o vídeo representa um alerta para a direita sobre os rumos da candidatura presidencial.
Michelle rejeita uma aliança em primeiro turno com Ciro Gomes no Ceará e defende a manutenção da candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo estadual e da vereadora Priscila Costa (PL) ao Senado. Já o grupo de Flávio sustenta que a composição faz parte de uma estratégia nacional para ampliar o palanque do partido e derrotar o PT no Estado.
Com o conflito extrapolando os bastidores e alcançando o núcleo familiar justamente quando Bolsonaro vive dias decisivos no STF, dirigentes do PL apostam que apenas uma intervenção direta do ex-presidente será capaz de encerrar a crise e impedir que o episódio comprometa a candidatura do filho e a estratégia eleitoral da direita para 2026.
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