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Não dá para competir
Como no velho bordão de Jô Soares, a realidade volta a superar o circo no roteiro do filme que tenta santificar Jair Bolsonaro
Foi por obra de Benito Mussolini, o grande cappo do fascismo, que surgiram na Itália as três instituições mais importantes para a história posterior de seu cinema. A primeira foi o Istituto Luce. A segunda foi o Centro Sperimentale di Cinematografia. A terceira foi a Cinecittá.
Vittorio Mussolini, filho do chamado Duce, esteve mais ou menos envolvido com todas elas e foi o primeiro diretor do CSC. Em que pese o seu forte envolvimento com o audiovisual – ele esteve inclusive em Hollywood para dar uma espiada na indústria americana de ponta – não existe registro histórico de que Mussolini Júnior tenha encomendado aos cineastas fascistas daquele período um filme tão miseravelmente bestial quanto esse Dark Horse, operado pelo grande produtor Flavius Nantius Bolsonarus. Ave César!
Com a entrada de Flavinho no business do cinematógrafo, o gangsterismo tijucano oferece nova contribuição ao legado universal de sua fonte.
E o faz superando elemento importante, de maneira altamente original e literalmente louvável, trocando, no roteiro revolucionário, uma obsessão simbólica obsoleta por outra, muito mais elaborada. Afinal, para quê perdermos tempo com as tolas ilusões terrenas, se Deus, estando acima de todos, está logicamente acima de César? Ou César é Deus e Deus é César, conforme queria Benito, o bendito?
Depois de enxugarmos as lágrimas – de riso, entenda-se bem – a verdade da leitura do roteiro de Dark Horse é apenas e somente uma: não há nada a se dizer sobre as cento e seis páginas de xaropada que compõem os diálogos e cenas do filme-lavanderia. A imprensa produziu notícias muitas, declarando em consenso que o filme obviamente se destina à glorificação do ungido, o que é verdade, e não surpreende.
“Brazil above everything, God above everyone”, declara Bolsonaro no início da fanfarronada blasfema, destinada como sempre a iludir rezadores crédulos. “I believe in God”, ele diz em seguida. “Eu acredito na família, tanto assim que tive filhos de todos os meus três casamentos”. (Juro eu, o colunista, que essa frase lá existe.) “God sent me”. “She said god sent her”. “Eca! Mãe de Deus!”. “Deus me ajude!”
Há vinte ocorrências da palavra Deus no roteiro, uma ocorrência, portanto, a cada cinco páginas. Talvez seja pouco para fé tão ardorosa. E, como não poderia faltar, encontra-se a dada altura aquele “Deus nos paga no além-vida”, a senha do conformismo cristão que dirige os destinos na nação verde-amarela, essa teocracia parlamentar que avança a passos de gigante. Deus nos ajude. Deus nos perdoe. Miserere nobis.
Nos anos 80, o humorista Jô Soares tinha um quadro na TV, parte do programa semanal Viva o Gordo, – que deveria, com a grana do Vorcaro, ser distribuído em escolas, igrejas e as instâncias de convívio do Brasil de hoje. Nesse quadro, um palhaço profissional se demaquilava em seu camarim, sentado diante de um espelho, recebendo a visita de um amigo. A estrutura era a mesma: o amigo chegava durante a limpeza facial do palhaço e comentava com ele que o circo tinha estado vazio naquele dia. O palhaço, interpretado pelo próprio Jô, retrucava: “Não dá para competir”, lamentava-se, condoído. “A realidade é muito mais hilária do que o circo”. E passava a comentar as asneiras feitas ou pronunciadas por alguma figura pública naquela semana.
O quadro de Jô era uma reedição do Febeapá, a magistral invenção de outro humorista – Sergio Porto – que compilara, nos tempos da ditadura, o chamado Festival de Besteiras que Assola(va) o País. Porto, assim como Jô, recolhia do noticiário dizeres de uma estupidez estonteante, proferidos por figuras políticas ou não. Uma delas, por exemplo, foi a proposta de um deputado defendendo a criação do Dia das Avós, esquecendo-se, escrevia o cronista, que “até hoje nenhuma mulher foi avó sem ter sido primeiro mãe”. O farto material colhido por Sergio Porto testemunhava o nascimento de uma sociedade completamente ilógica, na qual as relações evidentes de causa e efeito haviam ruído, juntamente com o significado das palavras.
Em um livro com que fui presenteado há poucos meses, o gênio italiano Leonardo Sciascia retoma as percepções do cineasta e escritor Pier Paolo Pasolini sobre a estupidização da linguagem na Itália neofascista da Democracia Cristã, na década de 1970, fazendo lembrar, em grande medida, o que temos assistido no Brasil em matéria de abstrusidade cognitiva. O inglês de churrascaria da lavanderia audiovisual, instalada com a prata do centurião Vorcarius, é um índice da boçalidade de uma gente sem rumo, sem propósito que possa ir além de seu interesse próprio, atolada na incultura de seu banditismo imoral. Tudo isso acontece na semana em que outro humorista – Fábio Porchat – é declarado persona non grata pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Muito embora essa realidade tenha lances nada hilários, apenas o humor tem sido capaz de alcançar o bizarro, o bisonho da famiglia Bolsonaro. O papel principal, no laundry movie, deveria ser entregue a Marcelo Adnet, garantindo melhor qualidade e o hiperrealismo que tanto sucesso tem feito.
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