Justiça

O banqueiro, o 01 e o messias de peruca

A cinebiografia em inglês do ex-presidente parecia uma extravagância da ultradireita. As revelações sobre Daniel Vorcaro sugerem algo mais organizado

O banqueiro, o 01 e o messias de peruca
O banqueiro, o 01 e o messias de peruca
Foto: Divulgação/Dark Horse
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Desde as primeiras imagens de Jim Caviezel caracterizado como Jair Bolsonaro, Dark Horse passou a circular como uma espécie de anomalia: uma cinebiografia em inglês sobre o ex-presidente brasileiro, dirigida por um cineasta americano e estrelada por um ator identificado com o cinema cristão-conservador dos Estados Unidos.

Por que uma produtora americana, um diretor americano e um ator associado ao cinema cristão-conservador dos Estados Unidos se meteriam em um filme sobre Bolsonaro? E, sobretudo, quem pagaria por isso?

A resposta começa a ficar menos nebulosa. Nesta quarta-feira 13, mensagens e documentos revelados pelo Intercept Brasil indicam que o grande mecenas do filme seria o banqueiro Daniel Vorcaro. O ex-CEO do Banco Master teria se comprometido a desembolsar 24 milhões de dólares, cerca de 134 milhões de reais, para financiar o filme.

Alguns infortúnios – como o veto do BC à venda de uma gorda fatia do Master ao Banco de Brasília – aguaram os planos, e menos da metade do valor foi efetivamente pago.  Segundo a reportagem, ao menos 10,6 milhões de dólares, aproximadamente 61 milhões de reais, teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, encaminhados por empresas ligadas a Vorcaro a um fundo sediado no Texas, controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

 As mensagens indicam, inclusive, cobranças por parcelas atrasadas. Em um dos áudios revelados, Flávio Bolsonaro pressiona o banqueiro – a quem chamava, insistentemente, de mermão – e manifesta preocupação com um eventual calote em nomes estrangeiros do projeto. “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim.”

Caviezel, intérprete de Bolsonaro no filme, foi catapultado ao estrelato ao interpretar Jesus Cristo em A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson. Do cinema mainstream, migrou progressivamente para produções religiosas e conservadoras, como O Som da Liberdade, lançado em 2023. Ignorado por parte da crítica e inicialmente subestimado pelo mercado, o filme virou fenômeno de bilheteria ao mobilizar redes de igrejas, influenciadores conservadores e campanhas de compra coletiva de ingressos. De lá pra cá, Caviezel emergiu como símbolo. Um soldado disposto a enfrentar a Hollywood “globalista” e o complô de elites degeneradas.

Já a Damascus Road Productions, produtora responsável pelo filme, atua a partir da Califórnia inserida no nicho conhecido como cinema cristão ou faith-based. Longe do modelo dos grandes estúdios, a empresa construiu sua própria rota de circulação: salas independentes, distribuidoras voltadas ao público religioso, plataformas de streaming segmentadas e, sobretudo, a capilaridade das redes de igrejas e organizações evangélicas. Um esquema que inspira, no Brasil, o funcionamento de empresas como a Brasil Paralelo.

A política raramente aparece de forma explícita. À primeira vista, são filmes sobre conversão, redenção, famílias salvas pela fé ou indivíduos perseguidos que resistem sob a proteção de Deus. Mas o subtexto está ali: defesa da tradição, culto à masculinidade, suspeita contra instituições e patriotismo filtrado pela religião.

Ainda há muito a esclarecer sobre a relação de Vorcaro com os Bolsonaro. Até aqui, em meses de cobertura do caso Master, o clã aparecia ligado apenas indiretamente: na rendosa intimidade do banqueiro com Ciro Nogueira, no pouco caso do BC de Campos Neto, na doação de 2 milhões de reais para a campanha de Jair. A familiaridade com que Flávio Bolsonaro e Vorcaro se tratavam, porém, indica um outro tipo de camaradagem.

Parece pesar, também, um componente religioso. Há décadas, a família Vorcaro orbita a Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, comandada por André Valadão, em uma relação atravessada por vínculos pessoais, religiosos e empresariais. Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro no caso Master, é cunhado do banqueiro e foi pastor da Lagoinha. A unidade da igreja no bairro Belvedere, onde Zettel atuava, foi encerrada após o avanço das investigações.

(com apuração de Clarissa Carvalhaes, em Nova York)

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