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Da bolha política à névoa mental pós-política
O entendimento rápido, afetivo e autoconfirmatório dos fatos políticos tem provocado efeitos cognitivos que parecem permanentes
Desde a eleição de 2018, quando a ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro tomou o Brasil de assalto, fala-se de como a esfera pública e o debate político se bifurcaram em “bolhas digitais” separadas, em que não apenas visões e opiniões são disputadas, mas também os fatos e, portanto, a própria realidade. A bolha era sobretudo algorítmica, mas seu efeito se estendia para a própria mente dos usuários: embora olhassem para o “mesmo” fato, viam realidades diametralmente opostas.
Desde então, sob a égide da economia da atenção, o debate político se desvirtuou em “guerras de narrativas”, em que táticas bélicas passaram a ser aplicadas à comunicação em massa nas velhas e novas mídias. Uma dessas táticas é a cortina de fumaça, que, no contexto da guerra analógica, envolvia dispersar substâncias químicas para produzir uma névoa que ocultasse as movimentações das tropas. Na guerra digital, passou a significar conteúdos que confundem ou desviam a atenção, lançados por uma “bolha” contra a outra.
Hoje, contudo, as bolhas e cortinas de fumaça parecem ter evoluído para uma névoa mental perene, que embaça nossa visão com relação à política. Num artigo escrito logo após as turbulentas eleições de 2022, sugeri que a política no Brasil parecia estar se bifurcando em duas camadas: uma midiática e “populista”, ancorada na lógica da economia da atenção digital; e outra, menos visível para o público em geral, em que a realpolitik das negociações, trocas e traições seguia operando nos bastidores. A política dos projetos e propostas ficaria, em ambos os casos, em segundo plano.
Os eventos recentes, e um tanto confusos, envolvendo a rejeição da indicação de Jorge Messias para o STF pelo Senado Federal parecem apontar nessa direção. Imprensa e redes sociais foram rapidamente absorvidas numa guerra de versões, fontes e explicações sobre o que realmente teria estado por trás desse desenlace inédito – mas, possivelmente, cada vez mais comum daqui em diante. Independentemente da resposta, boa parte da população seguiu alheia à real complexidade dos eventos, se dando por satisfeita, por exemplo, com a gratificação emocional imediata da foto falsa de Messias chorando no carro.
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Por outro lado, já faz tempo que eleições não são mais, primariamente, sobre projetos de país, política pública e planejamento. O atual candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, chegou ao ponto de declarar que não iria expor detalhes de suas propostas e projetos — com a curiosa justificativa de que isso poderia ser usado contra ele na campanha. Ele sabe que isso não faz falta nenhuma para seus eleitores, que já se encontram num fluxo mental em que são facilmente “pastoreados” por meio das mídias digitais.
A apreensão rápida, afetiva e autoconfirmatória dos fatos políticos tem gerado efeitos cognitivos que parecem ter se tornado permanentes. Nos últimos tempos, popularizou-se um gênero de vídeos curtos em que os criadores saem pelas ruas ou manifestações políticas questionando pessoas aleatórias sobre o porquê das suas preferências eleitorais. Neles, chama atenção a dificuldade que muitos têm de elaborarem suas justificativas em termos de propostas, projetos e políticas públicas. No mesmo sentido, em sondagem qualitativa, a Secom se deparou com um dado curioso: muitos eleitores não sabiam explicar os motivos da sua insatisfação com o governo.
Surpreendente para quem vê a política sob as lentes normativas da democracia liberal, nem tanto para aqueles que, cada vez mais, reconhecem que essas escolhas têm vindo de uma mistura entre a lógica do senso comum e a lógica própria das mídias digitais: afetiva, intuitiva e subliminar, mais do que reflexiva e consciente. Para além das bolhas digitais e cortinas de fumaça, o que parece termos hoje é uma névoa mental permanente que não apenas oculta projetos, propostas e a política de bastidores, mas que está, cada vez mais, blindando os políticos e agentes públicos de responsabilização pelas suas ações. Com isso, não sai perdendo este ou outro grupo político; perdemos todos.
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