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Objetivo de Lula em Washington foi cumprido: apaziguar e protelar

É cedo para o presidente brasileiro cantar vitória definitiva diante dos EUA, mas ele pode dizer que pelo menos saiu ileso do round

Objetivo de Lula em Washington foi cumprido: apaziguar e protelar
Objetivo de Lula em Washington foi cumprido: apaziguar e protelar
O presidente Lula (PT), durante coletiva de imprensa nos Estados Unidos. Foto: Andrew Harnik/Getty Images/AFP
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O presidente Lula reconheceu o óbvio: não tem o poder de mudar a cabeça de seu homólogo americano, Donald Trump, em um encontro de três horas. O presidente dos Estados Unidos seguirá sendo unilateral, impositivo, vulgar e interventor. O petista atingiu, porém, seu maior objetivo: apaziguar e amenizar o impacto destes arroubos sobre o Brasil.

Na prática, nada foi solucionado. Não houve anúncio de redução de tarifas, nem sinal de recuo em relação à ideia de classificar facções criminosas como grupos terroristas. Trump também não bateu o martelo sobre as terras raras, nem tampouco respondeu à demanda brasileira de reforma e ampliação do Conselho de Segurança.

Porém, em todos esses itens, Lula conseguiu – ao menos conforme seu próprio relato – dar a conhecer seu ponto de vista, advogando por saídas intermediárias, negociadas e coletivas, e pelo menos protelando embates que ainda não consegue resolver completamente, como no caso da conversa sobre a taxação de produtos brasileiros, que ficou para ser decidida após uma nova rodada de conversas, à distância, dentro de 30 dias.

Tudo isso pode ser considerado um ganho, ainda que muito modesto. A razão é simples: no passado, no mesmo Salão Oval da Casa Branca, Trump dispensou tratamento humilhante aos presidentes Cyril Ramaphosa, da África do Sul, e Volodymyr Zelensky, da Ucrânia. Lula arriscava ter o mesmo destino. O que se viu, contudo, foi uma foto oficial com ambos os presidentes sorridentes.

Donald Trump e Lula se cumprimentam na Casa Branca – foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

Lula sabe que encontros como esse são importantes pelas imagens que provocam, especialmente em ano eleitoral no Brasil e nos EUA. Se fosse apenas para resolver questões técnicas de aduana e combate ao crime, ambos poderiam ter se falado por telefone ou ter delegado essa função a seus ministros. A opção pelo cara-a-cara diz respeito justamente à simbologia e, nesse sentido, o resultado foi positivo para Lula, que bloqueou qualquer risco de ter o mesmo destino humilhante que Ramaphosa e Zelensky.

Sem uma entrevista coletiva na qual ambos os presidentes pudessem falar, restou aos expectadores do encontro a figura altiva de um Lula que é ao mesmo tempo presidente e pré-candidato, monopolizando a palavra e controlando o que ele mesmo chamou de “narrativas”, ao vivo, em todas as grandes emissoras, por um longo período de tempo.

Ainda é cedo para que o presidente brasileiro cante qualquer vitória definitiva diante dos Estados Unidos, mas ele pode dizer, ao menos, que pelo menos saiu ileso do round. Não significa que Trump tenha levado em conta tudo o que seu interlocutor tenha dito, nem que a lábia de um líder “dinâmico” – como Trump chamou Lula em um curto post publicado após o encontro – vá surtir efeito, mas Lula tem experiência suficiente para saber que precisa dar um passo de cada vez. E os passos que têm dado com Trump parecem, até aqui, estar sintonizados.

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