CartaCapital
O dilema de Lula
O presidente optará pela ala do confronto ou pela turma do “deixa disso”?
A reunião entre Lula e Donald Trump em Washington aconteceu dois meses depois do previsto e em um momento bem mais complicado para o presidente brasileiro. Uma semana antes, o petista havia sido submetido a uma de suas maiores derrotas em três mandatos, a reprovação no Senado de um indicado ao Supremo Tribunal Federal. De quebra, deputados e senadores derrubaram o veto à lei capaz de encurtar a sentença de 27 anos imposta pelo STF a Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe. Os reveses alimentaram em Brasília e em parte da mídia a visão de um “pato manco”, definição norte-americana para um mandatário fraco em fim de governo e com poucas chances de reeleição. Em algum momento entre aquelas 24 horas que abalaram o Palácio do Planalto, Trump telefonou para Lula. Há pistas no Planalto de que a ligação tinha sido em resposta a uma mensagem do brasileiro. Desde o fim do ano passado, há um canal direto entre os dois governantes, uma forma de Lula driblar os radicais “bolsotrumpistas” da diplomacia estadunidense.
O encontro na Casa Branca, realizado na quinta-feira 7, após a conclusão desta reportagem, discutiria o combate conjunto ao crime organizado, a retirada de tarifas comerciais contra o Brasil e a não aplicação de novas taxas, temas prioritários de Lula. Os assuntos de interesse de Trump mapeados em Brasília eram minerais críticos e big techs. Estreitar a relação com o republicano, diz um colaborador lulista, talvez impeça Washington de apoiar abertamente Flávio Bolsonaro na eleição. No time do filho do capitão há quem avalie que a neutralidade trumpista seria fatal para a oposição. Na estratégia da pré-campanha petista, o diálogo com o norte-americano, adversário ideológico, teria ainda a vantagem de reforçar a imagem de um Lula equilibrado e experiente para conduzir o País diante das turbulências internacionais decorrentes da guerra no Irã, características ausentes no filho 01 de Bolsonaro.
O ministro Sidônio Palmeira, da Comunicação Social, principal estrategista de marketing de Lula, orientou logo após a rejeição de Messias pelos senadores: a derrota deveria ser tratada como um fato normal em uma democracia. A intenção é impedir que as consequências do malogro atrapalhem os planos traçados para os próximos dois meses. Até o início de julho, quando começam as restrições legais para as aparições presidenciais em eventos, o objetivo é martelar a imagem de um Lula “equilibrado” e tentar melhorar a aprovação do presidente com medidas governamentais. Entre elas estão a bandeira da redução da jornada de trabalho, enfatizada no pronunciamento presidencial pelo 1o de Maio, cujo avanço depende da boa vontade do Congresso, a renegociação de dívidas da população, lançada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, com o nome de “Desenrola 2”, e os limites à jogatina em bets, previstos no programa contra o endividamento.
As derrotas doeram, mas há quem coloque panos quentes para reforçar a imagem de um mandatário “equilibrado”
Um dos eixos do figurino reeleitoral de Lula pode até tirar proveito dos recentes percalços no Congresso, conforme algumas análises no PT. O presidente será retratado, já é aliás, como um político “antissistema”. “Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios à custa do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil”, declarou Lula em cadeia de rádio e tevê no Dia do Trabalhador. “O rescaldo político das derrotas do governo é mais a favor do que contra a reeleição. Para uma parte da sociedade, fica a imagem de que o Parlamento não deixa o presidente governar”, afirma Henrique Fontana, secretário-geral da legenda. Pesquisas diárias para medir o humor popular feitas tanto por encomenda do partido quanto na Avenida Faria Lima captaram um aumento na aprovação de Lula após a rejeição de Messias e da validação da lei de alívio na pena de golpista. Não está claro se a melhora foi obra do embate com o Congresso ou do reforço da comunicação federal antes do episódio.
No esforço para não deixar o trem descarrilar depois do fracasso de Messias, o Planalto mandou dois emissários à casa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil. Procuraram-no para manter pontes tanto o ministro da Defesa, José Múcio, quanto o chefe da articulação política do governo, José Guimarães. No governo e no PT, está consolidada a leitura de que Alcolumbre foi o grande algoz de Messias. Há defensores de uma posição mais firme contra o senador, casos de Gleisi Hoffmann, antecessora de Guimarães na articulação política, e do deputado Lindbergh Farias, líder do PT na Câmara em 2025. Mas há também a turma do “deixa disso”, para quem Lula não deveria agir com o fígado. Guimarães é dessa ala. A reação presidencial será, dizem alguns interlocutores, uma “guerra fria”. “O Lula agirá com parcimônia e cautela. Ele não vai pagar para ver e dobrar a aposta contra o Senado”, afirma um integrante da cúpula do PT. Segundo esse petista e outro colaborador presidencial, Guimarães recebeu a missão de tirar alguns cargos ocupados por apadrinhados de Alcolumbre. Em especial no Amapá, terra do parlamentar. Coincidência ou não, na segunda-feira 4 o Planalto demitiu de uma secretaria do Ministério do Desenvolvimento Regional um indicado do grupo do senador. E por um fato de março, não de agora. Daniel Alex Fortunato foi acusado pela esposa de agressão em um hotel em Alagoas e preso em flagrante pela polícia à época. Acabaria solto em seguida mediante pagamento de fiança.
A aliança entre Alcolumbre e Flávio “sem sobrenome” funcionou desta vez – Imagem: Sergio Lima/AFP
O grupo de Alcolumbre no Amapá corre risco na eleição. O governador Clécio Luís é aliado do senador, integra o mesmo partido e deseja renovar o mandato. Vê, no entanto, um adversário liderar as pesquisas com folga, Dr. Furlan, do PSD, prefeito de Macapá até março. Furlan reelegeu-se em 2024 com 85% dos votos, a maior dianteira nas capitais. Macapá concentra 54% do eleitorado amapaense, daí a boa margem na disputa estadual. Renunciou à prefeitura após uma operação da Polícia Federal, a Paroxismo, tê-lo atingido em um inquérito sobre desvio de verbas na construção de um hospital municipal. A investigação deixa dúvidas sobre se ele irá até o fim na pretensão de destronar Luís. Sua esposa, Rayssa Furlan, pode disputar a candidatura. Por ora, o plano dela é o Senado, em dobradinha com um senador rival de Alcolumbre, Lucas Barreto, do PSD.
A operação da PF contra Furlan nasceu de investigações da Controladoria-Geral da União. Alcolumbre ficou tão animado que espalhou em Brasília que, se o escolhido de Lula para o Supremo fosse o ministro da CGU, Vinícius Carvalho, a aprovação no Senado seria certa. Segundo um senador do PT para quem o governo subestima a força de Alcolumbre, o senador queria apadrinhar o próximo juiz do STF por entender que a vaga surgiu repentinamente com a aposentadoria precoce de Luís Roberto Barroso. Lula já escolheu outros dois nomes no atual mandato, Cristiano Zanin e Flávio Dino, e na cabeça de Alcolumbre poderia abrir mão de uma terceira indicação. Ao aliar-se à oposição contra Lula, o amapaense firma um bloco de apoio à própria reeleição no Senado no próximo ano. Parece ser daqueles que veem o petista como “pato manco”.
Não são as únicas explicações para ter jogado contra Messias. O escândalo do finado Banco Master assombra Alcolumbre por causa de Jocildo Silva Lemos, tesoureiro da campanha do senador em 2022. No ano seguinte, Lemos assumiu o fundo de previdência dos servidores do Amapá. Em um evento público, contou como havia chegado ao Amprev: “Faço um agradecimento especial ao governador Clécio Luís, que fez a nomeação, e sobretudo ao senador Davi Alcolumbre, que me convidou para ser o presidente da Amapá Previdência”. Em 2024, o Master ficou à beira do abismo e a Amprev comprou 400 milhões de reais em títulos da instituição financeira. É possível que o investimento tenha sido obra de costuras políticas que passaram pelo presidente do Senado. Após o escândalo estourar, em novembro passado, um dirigente de uma grande entidade bancária comentou com um deputado que o caso era “um tiro na testa” de certos figurões políticos, Alcolumbre incluído.
A agenda positiva inclui, além da visita a Trump, a redução da jornada, o Desenrola 2 e o combate à jogatina nas bets
Em fevereiro, a PF fez uma operação, a Zona Cinzenta, sobre os negócios da Amprev com o Master. Lemos e dois diretores do fundo tiveram os celulares apreendidos. A polícia desconfia que o ex-tesoureiro de Alcolumbre tinha informação privilegiada, pois entregou um aparelho recém-habilitado. Na véspera da batida, Lula havia afirmado em uma entrevista: “Queremos saber por que o governo do Rio de Janeiro e o estado do Amapá colocaram o dinheiro do fundo dos trabalhadores nesse banco”. Segundo um ministro que testemunhou reuniões presidenciais em 2025 sobre o caso Master, o presidente sempre incentivou a investigação policial por entender que certos políticos seriam pegos merecidamente. Na lista, Alcolumbre, Antonio Rueda, chefe do partido do amapaense, e Ciro Nogueira, presidente do PP, senador e ex-ministro de Bolsonaro. Na quinta-feira 7, Nogueira foi alvo da PF em mais uma fase da operação Compliance Zero, que investiga as bandalheiras de Daniel Vorcaro (nota à página 6). Teria recebido propina de 18 milhões de reais para ser uma espécie de lobista do banqueiro. Detalhe: na noite da derrota de Messias, Lula disse por telefone a um líder partidário do Senado que passará os próximos seis meses dedicado a combater a corrupção de políticos.
Para tentar entender as causas do desfecho que enfureceu o presidente, é preciso recapitular fatos desde o fim de 2025. Na semana seguinte à aposentadoria de Barroso, em outubro, quatro ministros do Supremo jantaram com Lula: Zanin, Dino, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. Um deles contou a uma jornalista que o quarteto tinha ido defender a escolha de “gente de peso” para o lugar de Barroso. O comentário foi interpretado em Brasília como uma posição anti-Messias. Mendes apoiava o senador Rodrigo Pacheco, predileto de Alcolumbre, embora posteriormente viesse a mudar de ideia. Em 19 de novembro, Lula foi a Belém para a COP-30 e bateu o martelo lá: indicaria Messias. Assinou a papelada um dia depois e viajou para a África.
Os ministros Dino e Moraes não eram simpáticos à nomeação de Messias, aliado do “terrivelmente evangélico” Mendonça – Imagem: Rosinei Coutinho/STF e Victor Piemonte/STF
O líder do governo no Senado, o petista Jaques Wagner, identificou “uma tensão muito grande” na Casa e passou a trabalhar para segurar a votação da indicação. O motivo era Alcolumbre, enlouquecido por Lula ter preterido Pacheco. O amapaense anunciou, via aliados, que não falaria mais com Wagner. Acreditava que o líder governista tinha sido incapaz de dobrar o presidente da República e emplacar Pacheco. Para sabotar a aprovação de Messias, marcou a sabatina para dali a alguns dias, a fim de não dar tempo de o indicado reunir apoios. Wagner e a bancada petista acharam melhor empurrar tudo para 2026, no aguardo de a poeira baixar. E assim foi feito, graças ao fato de que Lula havia optado por Messias, mas sem encaminhar ao Senado os documentos necessários. Sem estes, nada de sabatina nem de votação.
Em meio à confusão, despontaram notícias, ainda em novembro, de que Moraes apoiava Pacheco. O ministro fez com que um acordo negociado por Messias, na condição de ministro da AGU, em uma ação contra a privatização da Eletrobras, fosse julgado no plenário do Supremo. Quando a Corte examinou o caso, em dezembro, tanto Moraes quanto Dino criticaram a AGU, ou seja, Messias. Dino guarda mágoas do advogado-geral, tem certeza de que, ao ser designado para o STF, o então colega de Esplanada foi desleal por cobiçar a vaga. E Moraes, por que a implicância com o advogado-geral? Algo a ver com o Master? Dois meses antes, o Banco Central comandado por um lulista havia vetado a compra de parte do banco pelo BRB, instituição estatal de Brasília. Em novembro, a PF realizaria a primeira operação contra as vigarices de Vorcaro e, pelo que se sabe hoje, a existência da investigação tinha vazado. A esposa de Moraes era advogada de Vorcaro. Teria tido conhecimento antecipado?
Dúvidas à parte, Congresso e Supremo saíram de recesso na segunda metade de dezembro. A decisão sobre Messias ficaria para 2026. Para driblar a resistência de Alcolumbre, o indicado trabalhava a tese de uma candidatura “evangélica”, com a qual esperava obter apoios na oposição. Ao convencer-se de que tinha votos para ser aprovado, contou ao presidente. Lula enviou a papelada ao Senado em 31 de março, embora tivesse recebido dias antes um alerta de terreno minado. Alcolumbre não havia revertido a quebra, em uma votação controversa na CPI do INSS, dos sigilos bancário e fiscal do filho mais velho de Lula. Na semana seguinte ao recebimento dos papéis, anunciou de uma tacada só o envio da indicação à comissão que sabatinaria Messias e a convocação de uma sessão do Congresso que examinaria o veto à lei que pode aliviar a pena dos golpistas. Era o acordão à vista: o senador barraria a CPI do Master sem que a oposição chiasse e, em troca, todo mundo rejeitaria Messias e aprovaria a redução da pena dos golpistas. O alívio das punições não é, porém, automática Depende do juiz da execução penal. Que, no caso dos golpistas, é Moraes.
Lula revelou a um interlocutor o propósito de combater a corrupção política nos próximos meses
De acordo com um ministro do governo, Messias tem um quinhão de culpa pelo próprio infortúnio, não cabe jogar tudo na conta de Alcolumbre. Primeiro, o mapa de votos apresentado a Lula seria errado. Esse ministro conta ter ouvido de Guimarães, dias antes da decisão do Senado, que o indicado não tinha os votos necessários. Na AGU, comenta-se que Messias se cercou de vozes que lhe falavam o que ele queria ouvir, tal era o desejo de chegar ao STF, daí ignorar ponderações sobre suas chances. Segundo, a aliança com a ala evangélica da oposição e, principalmente, com o “terrivelmente evangélico” André Mendonça, do Supremo. Mendonça é o relator do caso Master. Em alguns círculos de Brasília, ventila-se que o magistrado pressiona Vorcaro a delatar Alexandre de Moraes. Recorde-se: o ministro chegou ao tribunal pelas mãos de Bolsonaro e este foi parar na cadeia sobretudo pelas de Moraes. Um ex-ministro de Lula acrescenta que Mendonça foi isolado pela maioria dos colegas de Corte, em razão das inclinações no caso Master, e Messias exagerou na aproximação. Na opinião desse ex-ministro, há um cheiro de Lava Jato no ar. “O ‘sistema’ se juntou para abafar o caso Master. Há quem diga que a Dilma caiu porque não segurou a Lava Jato.”
E o futuro de Messias? Por ora é incerto. Ele teve duas reuniões com Lula, e o presidente pediu para que fique no governo. Seguir na AGU pode ser um problema, pois o cargo exige contato frequente com juízes do Supremo e há sequelas nas relações. Ser deslocado para o Ministério da Justiça é uma alternativa, mas embute o risco de Messias vir a ser visto como alguém que usaria a PF para se vingar dos algozes.
A rejeição a Messias colocou em xeque a candidatura de Pacheco ao governo de Minas Gerais. O senador sonha com o Supremo – Imagem: Carlos Moura/Agência Senado
Há outro futuro pendente. “A principal consequência eleitoral da ‘revolta do Davi’ foi em Minas. Desarrumou o palanque do Lula em um estado vital”, afirma um petista. Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral e lá o presidente venceu Bolsonaro por meio ponto porcentual na campanha passada. Nas pesquisas atuais, bate Flávio “sem sobrenome” com um pouco mais de margem, 3 pontos. Seu preferido para concorrer ao governo mineiro era Pacheco, que trocou o PSD pelo PSB do vice-presidente Geraldo Alckmin em 1º de abril, passo na direção da candidatura, mas nunca confirmou se está no páreo. Parecia querer esperar a conclusão da indicação de Messias. No fundo, seu sonho é ocupar uma cadeira no STF.
A rejeição de Messias deixou tantas feridas e desconfianças entre Alcolumbre e o Planalto que apostar em Pacheco em Minas pode ser temerário para o presidente. O lulismo tem por ora duas alternativas: Marília Campos, do PT, ex-prefeita de Contagem, e Alexandre Kalil, do PDT, ex-prefeito de Belo Horizonte. Campos é pré-candidata ao Senado, está bem nas pesquisas e Lula não abre mão dela nessa empreitada, conforme um integrante da direção petista. Há, no entanto, no partido quem a considere o melhor plano B. Kalil concorreu em 2022 pelo lulismo, não foi bem e acha que o presidente fez pouco por sua candidatura.
Em Brasília, o pote está até aqui de mágoas. E o ressentimento costuma ser um péssimo conselheiro. •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O dilema de Lula’
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