Economia
Ricupero: Respeito de Trump a Lula fez reunião normal soar extraordinária
Para o ex-embaixador brasileiro em Washington, porém, o resultado concreto do encontro desta quinta-feira 7 é bastante limitado
O respeito com que Donald Trump tratou o presidente Lula (PT) marca um contraste notável com a humilhação imposta pelo presidente dos Estados Unidos aos líderes da África do Sul e da Ucrânia, mas o resultado concreto da reunião desta quinta-feira 7 é bastante limitado. A avaliação é de Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil em Washington.
Trump não hesitou em constranger diante das câmeras Volodymyr Zelensky, em fevereiro de 2025, e Cyril Ramaphosa, três meses depois. Com Lula, a conduta foi diferente: recepção simpática, conversa de três horas a portas fechadas e mensagem afável nas redes sociais após a agenda. Segundo o republicano, o petista é um presidente “muito dinâmico”.
A descortesia com que Trump recebeu outros chefes de Estado torna satisfatório o encontro desta quinta, disse Ricupero a CartaCapital, mas nenhuma pendência entre Brasil e Estados Unidos se resolveu. Em matéria de tarifas, um dos temas mais delicados, Lula propôs um prazo de 30 dias para as equipes de ambos os governos debaterem. Também argumentou que os brasileiros têm um déficit comercial na relação e que não procede a alegação de que o País cobra “muitos impostos” sobre importações.
“Quem estiver errado vai ceder. Se tivermos que ceder, vamos ceder”, vaticinou o petista em coletiva de imprensa na Embaixada do Brasil em Washington.
Rubens Ricupero destaca que, apesar de Trump ter recuado em parte de seu tarifaço no ano passado, o Brasil ainda é alvo de uma sobretaxa, situação inalterada após o encontro desta quinta. “Criar um grupo de trabalho para negociar isso é o habitual, é o que se faz em diplomacia sempre. Com Trump muitas vezes o normal não funciona, mas também não é para dizer que foi um encontro maravilhoso.”
O desfecho da reunião, reforçou o ex-embaixador, parece extraordinário exatamente pela diferença no trato com Lula. “É positivo Trump dizer que Lula é dinâmico. Já é um grande elogio, pela forma como ele tratou, por exemplo, os europeus. Chega até a ser uma coisa para ficar satisfeito, embora no fundo seja apenas o normal.”
Tampouco tiveram um encaminhamento decisivo outros temas sensíveis, como a designação do CV e do PCC como organizações terroristas — à qual o Brasil se opõe com firmeza — e a exploração de minerais críticos.
De acordo com Ricupero, não há um terreno fértil para grandes resoluções nessas searas: ele considera já não existir grande empecilho a investimentos estrangeiros ligados às terras raras, nem sentido em mudar a classificação das facções criminosas, uma vez que elas não têm finalidade política. “Não vejo espaço, disponibilidade ou desejo de Brasil e Estados Unidos para fazer disso um assunto bilateral.”
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